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Friday, November 14, 2014

Quanto Outono ausente !





Foto: José Oliveira 


Não vou mentir. Este Outono ausente faz-me desbravar o vento sem aquela doce melancolia dos dias de introversão lenta, a preparação necessária para entrar no Inverno do meu recolhimento.

November comes
And November goes,
With the last red berries
And the first white snows.

With night coming early,
And dawn coming late,
And ice in the bucket
And frost by the gate.

The fires burn
And the kettles sing,
And earth sinks to rest
Until next spring.” 

Clyde Watson


E o ritual não se cumpriu. Fecho-me em sliêncios. A cortina,agora em tom mais sombrio, encerra meus ténues e tristes pensamentos. Até a Primavera voltar?

Já pouco olho para a natureza. Está fria, escura, cheia de chuva. Ventos bravios como se fugidos do mar encrespado, furioso, encerram as janelas.

Ando por aqui como que sonâmbula de uma noite que cheira a desconforto. Sacudo os arrepios de frio, puxo a malha quente em torno do meu corpo para me afagar, como num abraço de afecto que não chega. 





oto : José Oliveira


Devagar, encerro os olhos e reencontro-me lá muito mais longe, na Primavera futura. Será?

Sei que a vida não prepara para este abrupto tempo. Mas convida-nos a reagir. Sempre. As pálpebras cerram, buscam descanso. 

O firmamento lá fora, esse está cor de bréu. Não há estrelas. Nem voz para uma prece. Silêncios.


Miósotis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

14.11.2014
Copyright ©2014-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 

Saturday, June 28, 2014

Tempos frescos, em dias de verão !




Bicicleta | Aguarela 
créditos: Adriana Banfi, 1998
http://www.adrianabanfi.com.br/

Têm sido muito poucas as minhas andanças de lazer por aí. O tempo mantém-se meio fosco, sensaborão, não cheira a calor, nem andam brisas doces no ar.

Gosto de fazer pequenos passeios de bicicleta em final de tarde, de estio convidativo. Mas este ano, têm sido parcas as tardes que me permitam vaguear ao ritmo das duas rodas. 


Assim, peguei no carro, e em jeito de passagem breve, fui até à beira-mar! Precisava respirar! Abrir os olhos para o horizonte.


Estes últimos meses não me têm sido muito amigáveis. O inverno prolongou-se demais, a primavera chegou tardia e curta, o verão teima em não se fazer sentir. 


Se pensar bem, suponho que só fui até à praia, mesmo, dois ou três dias, rarefeitos, enfiados em semanas brumosas ou de ventos muito desconfortáveis.


Cansada deste tempo fora do tempo, e das paisagens citadinas, peguei em mim, e fui ver o mar.


O mar! Esse reduto de temperança, minha paz. Meu recanto de universo!

Esplendoroso, inquietado pelo vento forte, assim o fui encontrar! Revolto, lançava suas ondas largas espraiando-se em véus de espuma até ao areal.

A brisa visível, agreste quase cortante, um céu azul esbatido, e as temperaturas baixas, acolhiam mal os poucos afoitos que por ali buscavam descanso e força para recomeçar uma semana.


De um gesto sereno, protegi-me, cerrando um pouco mais o ligeiro agasalho, e olhei bem fundo o mar, juntando minhas inquietações à sua intranquilidade.


Veio um arrepio mais forte. Era a agressividade do vento que revoltava ainda mais o mar, já de si pouco sereno, trespassando-me sem trégua.


Puxei de novo o agasalho, tentando fazer frente aquela fria, despropositada ventania, para uma tarde que se pretendia ser de verão. 
Olhei uma vez mais a distância azulada sem fim, virei o carro e vim embora. Mesmo assim, meu olhar notava-se menos irrequieto.

De volta a casa, cruzei ainda os sons finais deste dia de S. Pedro, numa praça da cidade, sorri. O manjerico ainda se mantêm viçoso, lá em casa - pensei, agradada.






Quarto | Óleo sobre tela
créditos: Adriana Banfi, 1998

É que os seus aromas - antes de deitar, gosto de passar os dedos soltos, suavemente pelas folhas - acompanham-me até adormecer.

Trazem odores de infância, de família buliçosa, numa miscelânea de paisagens soltas como folhas de um álbum visual imaginário.


Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores


29.06.2014

Copyright ©2014-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®


Saturday, May 10, 2014

Sem rumo, com sonhos




Meditation

Tenho andado desgarrada, arredia. Dias que nos deixam assim. Sem rumo. Sem querer de coisa alguma. Como quem fala só para si. Ou nem isso.

Sei sempre, mas muitas vezes esqueço. Esqueço vezes demais. 

De quando em quando, a melhor a mais pequena aventura, a maior felicidade do dia é não dizer nada. Apenas estender o olhar. E aquietar, sem medos.

Como quem está a olhar para as flores que se espalham nos jardins. Não longe do rio. Ou do mar.

Hoje vim aqui meditar sobre o que tenho, e gosto. Os dias grandes, meu tempo, o horizonte imenso, desanuviado, profundo no azul. 

Sonho, sim, absorvo o que me rodeia. Ou mais ainda. Mudei, sim. Não podemos permancer os mesmos. Mas não me preocupo em descodificar o significado do que sonho. Ou da mudança. Aparente paradoxo ? Talvez. 

O que sonho não me impede de andar para a frente. Alimento o meu sonho e tento deixar que ele se transforme à medida das mãos com que lhe toco e das com que me tocam. É a mudança. Transformação lenta, pausada, sem sobressaltos.

Continuo sentada, poisada na paisagem, mas apenas a posição é estática, pensamento, esse anda por aí vagueando, sereno, pela vida. 

Amo a vida. Não tenho muitas ilusões. Mas guardo sigilo sobre algumas que não largo. São minhas. Pertencem-me. Com elas cresci, me tornei mulher. E fui caminhando.

E todos os dias olho o que amo incondicionalmente - mesmo quando não tenho ânimo de continuar.

E respiro tudo isto, e o sonho navega em mim, em todo o meu ser, pela pele e pelos cabelos, alma e coração, e à medida que avanço mais, experimento melhor, o sonho altera-se comigo. 

Acarinho a vida, mesmo sendo contra a maré. Só porque sim. 

"Il faut savoir se prêter au rêve lorsque le rêve se prête à nous."

Albert Camus

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

10.05.2014
Copyright ©2014-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Sunday, January 19, 2014

Paisagens de Inverno






Pitões das Júnias | Montalegre 
créditos: António Cunha





Serra | Montalegre 
créditos: António Cunha





Serra | Montalegre 
Foto: António Cunha


"depois do Outono, o inverno por que eu esperava;
a neve crepuscular em que vivemos há alguns dias tornou-se o fundo da minha incerteza por eu não saber o que cabe (...) em mim; "

Maria Gabriela LLansol, Contos do mal errante

Não, desta vez o inverno não entrou de repente. Há muito se instalou. O branco tem pintado as paisagens mais altas, espalhando em silêncio este branco-anilado, recortando a paisagem local. 

O azul nem sempre se abre. Permanece muito mais embrulhando nas nuvens plúmbeas. 

Eu olho, sob o impulso de viver. E quando os ventos frescos sopram, névoas invadem a minha nostalgia das noite quentes.

Sinto os aromas do frio agressivo que não tem poupado a cidade. Não neva. Mas faz frio. Desaconchegante.

O ar gélido pairou o dia inteiro e desceu pela noite. Tanto frio. As luzes ilumninaram-se, cobrindo a armosfera que se exibe lá fora. Sei que o frio não fundirá o gelo.

E se vos disser que o pássaro sem primavera teima em chilrear pela madrugada, quando a chuva não o fustiga com braveza? Bem pela madrugada. 

Ilusão? Não! Posso garantir que ele vem, algumas noites, mal se adentrou Janeiro.


"Já estou calma. Não menos triste; 
tentar dizer o que uma coisa é, é viver;"

Maria Gabriela LLansol, contos do mal errante,
edições rolim, 1986

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

19.01.2014
Copyright ©2014-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 


Sunday, December 15, 2013

Aromas do Inverno




foto:  

Não, não quero continuar a falar das perdas que nos têm desassossegado, nesta última semana e meia. 

Mandela, Nadir Afonso, hoje Peter 0'Toole. E seis jovens que incautamente se aproximaram do mar que tanto amo, mas que não perdoa a quem não o teme. Quanta desolação!


Prefiro falar dos aromas do Inverno. Romãs, frutos secos, terra fria, folhas soltas, tisanas quentes, maçãs assadas, canela.


"L'été qui s'enfuit est un ami qui part ."

Victor Hugo

Eu gosto dos aromas do Inverno. Mas não gosto do inverno, como estação. 

E tal como o escritor, sinto que quando o verão parte, a solidão se instala. Como se não houvesse amigos, família por perto. Mas há. Eles estão cá. Alguns.

É nosso eu mais intimista que se sente mais só, mais quieto.

Então, gosto de escrever, à noite, junto a uma tisana quente, ou então, uma maçã assada, caramelizada com canela e açucar moreno.

meu reino é o da escrita. Não, não nasci escritora. Não sou escritora. Mas tenho o gosto da escrita. Veio talvez do gosto da leitura. Simplesmente, como quem pensa. Ou fala em voz baixa.

O meu gosto vem-me da infância. O de ler. O de escrever. 

A família lia muito.

"E há um grande peso e ensinamento que se recebe, desde que se nasce."

Agustina Bessa-Luís

Tranquilizem-se. Não, o meu reino não é o da fantasia. Se não, eu não sentiria tanto o inverno. Apenas os seus aromas quentes me acariciam a memória dos tempos da infância.

Dessa infância de onde me veio, tal como Agustina, o gosto da leitura. E mais tarde transmitiu-se à escrita.

Algum episódio da minha infância sobre a leitura? Não. Apenas a imagem de uma leitura sempre feita no singular. Nada de serões de leitura em comum. Apenas conversas sobre temas lidos, como pelo gosto de conversar em família.

Lembro que assaltava as estantes dos meus pais, dos irmãos mais velhos. E adorava comprar livros. Hoje continuo a gostar muito de comprar livros.

E ia completando as prateleiras da minha biblioteca, não esquecendo nunca de devolver os livros às estantes pessoais da família. Com afecto.

Os aromas também me vêm da infância. Nas noites de inverno, soltavam-se pela casa enorme, enrolavam-se pelas escadas e subiam até ao último piso, onde ficava meu quarto, assotado.

Falar de coisas belas que resultam do nosso dom de sentir os aromas do inverno. É um gosto escrever, este que conservo. Ainda.



Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

15.12.2013
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Monday, December 20, 2010

Em tempos de soltas paisagens




serie Elogio de la Escrita
Juan Bautista Morán
O murmúrio das gotas de chuva saltitando nas vidraças fazem de volta estas noites invernosas, atravessando tempos de Natal. 

O outono adentrou-se abruptamente e o inverno surgiu! Este impõe-se com um autoritarismo desmesurado, deixando paisagens inóspitas nos olhos ainda cheios dos finais de tarde em que a luminosidade bailava em subjectivas formas de poesia. 

Quando se percorrem dias de sol acariciador, apesar de freso, num grito de vida, recuamos e dizemos Não! - aos brumosos dias de chuva, às frias noites que desconfortam nossa alma e nos perseguem e escorraçam das ruas tingidas pelas luzes dos faróis. 

Carros salpicam de gotas enlameadas os nossos pensamentos já pouco coloridos que se enchem de névoas esparsas. Ventos de um inverno sem limite despojam-se na cidade



serie Manuscrito del horizonte
Juan Bautista Morán

A súbita realidade! Nem o doce quebranto da interioridade nos afaga em fragmentos de emoção!  Inadequação em horas de fraternidade.

E a noite instala-se. Chuva solta nos vidros da janela. Apagam-se as luzes. Ponho estas reflexões no prato da imaginação e a sua voz apazigua as paredes da alma em um tempo discordante das paisagens intimistas.

O silêncio e a poesia por companheiros, numa música de fundo sem acordes.

"o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,"

José Luís Peixoto, poesia


Miosótis (pseudónimo)

30.10.10
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Sunday, November 02, 2008

Pensando...




Adriana Banfi (aguarela 1991)




Adriana Banfi (aguarela 1991)



flores brancas da pera

e uma mulher no luar
lendo uma carta


white blossoms of the pear

and a woman in moonlight
reading a letter


Yosa Buson

Um dia, não sei em que vida, em que passagem, mas um dia, eu sei, esse dia... o perfeito amor vai chegar e vai poisar em meu regaço duas mãos cheias de mar. E em uníssono, as estrelas cintilantes ouvirão pronunciar: "Quero-te profundamente"!


Nesta noite de Novembro frio, revejo muitas noites de luar que se transformavam em fragmentos de sinceros sentires, deixados aqui, com um toque de nostalgia, muita esperança, alguma alegria, sonoridades de paz, desassossego, impregnando assim meus pensamentos de flores com fragrâncias doces, aromas de maresias e alquimias.

Não vou dizer que nada mais sinto para escrever.... sinto, sinto! Mas se tenho vontade de escrever? Nem sempre! 
Como se uma mão poisasse em meus lábios um secreto gesto de silêncio. 


Já tentei algumas vezes, obedecer a essa invisível vontade, mas depois bate-me aquela vontade íntima de escrever. Por vezes!

Prefiro escrever à medida que vou sentindo desejo íntimo de cuidar...

"Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se juntarem às mãos. Depois saberei tudo. Não se sabe tudo, nunca se saberá tudo, mas há horas em que somos capazes de acreditar que sim, talvez porque nesse momento nada mais nos podia caber na alma, na consciência, na mente, naquilo que se queira chamar ao que nos vai fazendo mais ou menos humanos."

José Saramago

Miosótis (pseudónimo)

©texto original

02.11.2009

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fragmentos da noite, em tonalidades gélidas que deste lugar descortino. Uma janela poisada sob os telhados da cidade calma.


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Saturday, October 27, 2007

Litanias de Outono





fotografia: Seth Wening/AP 2007
http://news.yahoo.com/photos

"O vento anda por aí, sobre as águas e entre os intertícios. E há ainda árvores, arbustos, flores, folhas ou troncos caídos. O dia e a noite confundem-se, por vezes, nalgumas das suas clareiras."

Nuno Júdice, Passeio, Cartografia de Emoções, 
Publicações Dom Quixote, 2001



fotografia: Winfried Rothermel/AP 2007
http://news.yahoo.com/photos

Ocre, castanho-canela, verde-terno ou amarelo-açafrão assim se adentra este Outono, vestido de exuberantes tonalidades. O sol poisa-se suavemente nas folhas recortadas e livres da paisagem.

A neblina descerra seus véus em transparências divagantes enquanto uma leve melopeia sopra nos espaços feitos de murmúrios suaves.

Meu olhar percorre esses jardins e veredas em ternos melancólicos aconchegos! Aspiro profundamente a brisa dos afectos aromatizados, envolvidos no ar silencioso que me cruza intensamente. E sinto-me só!

Miosótis (pseudónimo)


28.10.2007

divagado numa noite de lua cheia outonal e fria na paisagem urbano-campestre ao som de Autumn leaves, Eva Cassidy

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Wednesday, April 05, 2006

Aromas de Primavera





créditos: Omar Torres|AFP
https://news.yahoo.com/photos/


"O perfume do sonho envolvia-a, debaixo do
docel de folhas da árvore," (...)

Luisa Dacosta, O Perfume do Sonho, na Tarde, Ed. Asa, 2004

Ontem, cheirei a Primavera!


Saí já tarde, depois de ter passado o dia enclausurada numa espécie de capela, de amplos tectos e sombrios espaços frios.

O sol apenas batia nas janelas altas, de onde vislumbrava pedaços de azul por entre os ramos de uma magnolia branca completamente em flor.

Sempre que levantava a cabeça para respirar, o ar que me chegava em jeito de lufada fantasiada pela força do espaço austero, fechado, visivelmente pintava em meu olhar o mar... ali tão perto! Liberdade! Nostalgia! Azul!

Alguns cantos alegres de pássaros eclodiam em meus ouvidos! Aí me refugiava, distanciando-me do vozear em surdina como gralhas sem asas que se amontoavam em meu redor!

Finalmente pus o pé fora do edifício, passavam poucos minutos das seis da tarde.

A luminosidade a que já me desabituara, depois de um inverno tão austero e gélido, bateu-me em cheio na alma! Calor?! Sol?! Cheiro a terra e flor?!

Parei! E olhei o firmamento azul claro, da cor de miosótis! Estava belo, sedutor, apetecível ao toque sereno e frágil de dedos de pétalas inundados de poesia.

Sorvi cada pedacinho de ar morno, cálido. Em passo largho, aspirava com profundo e requintado prazer. O final de tarde pairava à minha volta, tal flor perfumada e desperta pelo odor das ondas quentes, trazido em pequenas lufadas de aragem em festa ritmada e bafo solto.

Tudo ali ao alcance da mão e do olhar!

"Fica sentado aí onde estás, Poeta,
e não mexas os lábios nem os braços" (...)

Sebastião da Gama, Poesia, Serra-Mãe, Ática, 1996


Miosotis (pseudónimo) ©2006

fragmentos da noite com aromas de poesia, pairando nas palavras soltas

5.04.2006
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