Saturday, December 30, 2017

Novo Ano : em dias de luz perfeita !





créditos : Casa


Ano Novo! O que é? Uma convenção calendarizada? Ou um ritual ancestral que faz nascer em nós a esperança de um ano mais feliz? 

Tentamos, então, renovar a nossa caminhada, pedindo ao Sol para seja bem luminoso, nesse novo dia que se abre à meia-noite, que tudo transforme para melhor.

No entanto, é simplesmente mais uma meia-noite que bate as doze badaladas. E cada badalada, a renovação da nossa secreta esperança. 

Pedimos, seguindo a tradição, e a nossa fé mais intimista, um desejo a cada uma das badaladas com vagas de uva ou de româ. Nesses desejos incluimos o agradecimento das coisas boas que atravessaram o ano 2017, e tentamos esquecer, nem que por segundos, os acontecimentos que nos feriram.

Somos pequenas nuvens que se movem levadas pela briza, ou pelo orvalho das manhãs de Inverno.

Que os nossos sonhos sejam briza doce que nos levam mais alto. Que nunca percamos esse imenso dom. Sonhar. 

Que ao começar a tomar notas no livro em branco do Novo Ano, possamos dar relevância à beleza das pequenas coisas que talvez se tranformem em sonhos. E que, ao encerrá-lo no final do ano que vai entrar, sorriamos do balanço harmonioso.

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas. (...)

Alberto Caeiro, Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Bom Ano Novo !

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores
30.12.2017
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Saturday, December 09, 2017

Rosas de Dezembro





December



"God gave us memories that we might have roses in December."

J. M. Barrie

E entrou Dezembro. De repente se fez frio. E o firmamento se mostrou carrancudo. Deixou de nos aquecer o olhar. Vestem-se agasalhos. 

Cada espaço envolvente é mais árido, mais frio. Transformam-se as emoções em pequenas partículas de chuva, suaves, escondidas na mancha cinza-rato. A paisagem até há dias azul, luminosa, acolhedora, desapareceu.

Deu-se, agora sim, o início de uma nova estação. O Inverno. A natureza já está em hibernação. Os pássaros não se ouvem. As gaivotas, aqui nascidas, dificilmente voltam.

As árvores nuas. As iluminações de Natal tentam dar-lhes cor e algum movimento. 

Depois do café bem fumegante da manhã, olho lá fora. Já sinto falta dos retalhos verde-esperança. 

Os dias são curtos. Tristes. O peso das nuvens sente-se. Desapareceram aqueles cambiantes amarelo-ocre, vermlhos-tijolo e castanhos-terra. Era Outono. Agora tudo é cinzento. Voltou o Inverno.

Os sons já não entram, trazidos pelo cântico da brisa. Dezembro, mês de  eternidade. Dezembro recolhe com seu manto os seres frágeis. E já foram alguns, os que partiram. Rosas de Dezembro.

Miosótis (pseudónimo)

08.12.2017
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Sunday, November 05, 2017

Olá Novembro ! Já ?






Autumn
créditos: Julian Stratenschulte

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?

Mario Quintana
in Pensador

Já chegamos a Novembro? Como assim? Ainda mal se sente o Outono. Embora muito bela, quando não chove, não é a minha estação favorita. Traz-me demasiado melancolia. 

A chuva é precisa. Eu sei. Mas confesso. Adoro este sol que me faz saltar da cama, em dia de domingo e me deixa, logo pela manhã, colher a luminosidade de um céu azul, dificilmente manchado de nuvens.

Adoro o mar de Outono. Doce, deixando passsar tranquilidade. Apazigua-me num mês sempre doloroso. Novembro.

Um tempo assim, limpa alma, deixa-me respirar. Profundamente.

E, no entanto, as noites já pedem, por vezes, a manta no sofá. E o aroma de hortelã que se solta da chávena de chá de gengibre, fumegante, que saboreio devagar enquanto espreito as novidades culturais ou mindfulness (não encontro expressão adequada em português) nas notícias ou redes sociais.

Enquanto aguardo que o Outono chegue, apesar de já se sentir nas manhãs frescas e nas noites frias, vou fruindo dos dias, agora mais curtos devido à mudança da hora - malfadada! - apreciando as noites de solstício, olhando da pela janela a lua cheia destas últimas noites. Leio, passeio, medito. E, por vezes, vou ao cinema ou a um concerto.

Miosótis (pseudónimo)

05.11.2017
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Monday, October 16, 2017

Meu País, dói mesmo !






Um pesadelo destruidor arremessa as suas almas. Sopro de vida desfeito. Destruição. Morte. 


Se eu agora inventasse o mundo 
criaria a luz da manhã já explicada 
sem o luto que pesa 
na sombra dos homens 
- conspiração da noite 
com as pedras. (...)

José Gomes Ferreira, Se Eu Agora Inventasse o Mundo
in Elegia Fria com Lírios Inventados


Miosótis (pseudónimo)

16.10.2017
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Sunday, October 01, 2017

Celebro a Música !





Violin and Candlestick, 1910
Georges Braque
créditos: San Francisco Museum of Modern Art

Um dia especial! Dia Internacional da Música. Embora todos os dias sejam dias de música. Para mim e para a maioria das pessoas.

Dia Internacional da Música, comemorado anualmente 
a 1 de Outubro, foi instituído em 1975 pelo International Music Council, instituição fundada em 1949 pela UNESCO e que agrega vários organismos e individualidades do mundo da música.

Há quanto tempo não celebrava este dia. Por esquecimento? Suponho que não. Apenas porque a celebro todos os dias. A Música.

Cada dia é dia de música, não é mesmo? Sem música, seríamos tão perdidos na vida. Música é o som da alma. Música apazigua os momentos mais tormentosos. Todos os dias de desassossego.

Celebro a música, portanto. Inspiradora da Vida.

Sem a música, a vida seria um erro."

Fiedrich Nietzsche 

Miosótis (pseudónimo)

01.10.2017
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Sunday, September 17, 2017

Um dia de domingo em Setembro






E voltou Setembro. Despeço-me com tristeza do verão. A minha estação favorita. Não aprecio o Outono, apesar das tonalidades lindas que nos traz. 

As manhãs estão muito mais frescas, embora o solinho ainda ande por aqui. As noites já pedem um agasalho.

De manhã, acordei com a ideia de dar um passeio, mas ao sair para a varanda, um arrepio me percorreu. Que frio! Nem pensar em tomar pequeno almoço na varanda, como me habituara.

Voltei para dentro. Preparei alguma fruta. E fiz então uma curta prática de Ashtanga yoga.

Sinto-me bem logo pela manhã a praticar yoga. Aproximo-me da janela. Abro-a. Respiro profundamente. Inspiro, expiro com lentidão. Fecho os olhos, deixo o pensamento passar sem o deter. Até que ele quase se esfuma.

Medito um pouco, conecto-me comigo, com a minha respiração. Então numa das dessas inspirações, dei comigo a ter consciência da enorme gratidão pelo momento.

Gratidão por poder respirar. Gratidão por ter saúde. Gratidão por poder observar as manhãs. 

Gratidão, por ver o sol no céu dando inicio a mais um dia. Dando inicio a mais uma oportunidade de Ser.  

Gratidão por ter Tempo. Gratidão por poder sentir o calor do sol, mesmo que mais ténue. Gratidão por poder observar as gaivotas que definitivamente vêm fazer seus ninhos na cidade, nos nossos telhados. Os pássaros voltam ao entardecer. E â noite ouvem-se entre o arvoredo.

Ao longo dos dois últimos meses assisti ao nascer, crescer, aprender a voar de duas crias de gaivota. Um casal de gaivotas veio aqui poisar seu ninho. Os filhotes ganharam asas para a liberdade, mesmo em frente aos meus olhos. Gratidão por ver. Eram o meu bom dia! 

Até que quase no final de Agosto, tomaram o rumo da liberdade. Fiquei grata por elas.

E depois sim. Preparei pequeno almoço, primeiro ritual, fruta. Enquanto se prepara a máquina para um bom café. Bom, o aroma do café que perdura. 

Sentei-me a degustar o meu pequeno almoço. Enquanto isso, fui passando os olhos por algumas redes sociais. Ler notícias do dia. E visitar alguns amigos virtuais ou não. Fiz zapping por alguns instantes.

E andei por aí. Agora no final de tarde, com o sol a entrar pela janela virada para o arvoredo que persiste e bem, reflicto.

Por vezes, queremos muito algo, ficamos presos a isso. E não nos apercebemos que a vida nos traz muitas outras coisas. Aprendi isso e cada vez mais, nestes últimos dois anos. 

A perda de familiares, de amigos, em circunstâncias dolorosas me fizeram tomar a vida de outro jeito.

A alegria de encontrar um grupo de prática de Ashtanga yoga ao ar livre num jardim público, onde reinava a serenidade e o arvoredo entre pássaros e pavões, trouxe-me a cura energética que parecisava, depois daquele triste acontecimento de Julho

Fiquei grata ao grupo, à oportunidade que me foi dada de o encontrar, de partilhar momentos de muita serenidade, bem estar, paz.

Se confiarmos no Universo, as coisas que se cruzam no nosso caminho, são sempre melhores do que pensámos! 

Aceito as leis do Universo. Aceito que existe um plano maior para nós. E deixo fluir a Vida e o que ela te traz no momento.

"A vida não está por ordem alfabética como há quem julgue. Surge... ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são miga­lhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém?"

António Tabuchi, Tristano Muore, 2004

Miosótis (pseudónimo)

16.09-2017
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Sunday, August 06, 2017

E veio Agosto : leituras






Elena Ferrante
illustration: Helder Oliveira

"Esistere è questo, pensai, un sussulto di gioia, una fitta di dolore, un piacere intenso, vene che pulsano sotto la pelle, non c'è nient'altro di vero da raccontare."

Elena Ferrante

in volume quatro

De volta ao portátil. Recolhida nos fragmentos de muita tristeza, silenciei em meus sentimentos.

Volto a escrever neste meu espaço feito de todos os fragmentos bons, menos bons. Mais serena, agora. Nesta tarde de domingo. 

Estou de volta.  Para mim, essencial

Julho já passou. Mês de muito sofrimento. O final de mês marcou uma estadia junto ao mar. Reequilibrio emocional.







The Vegetarian
Han Kang
Man Booker International Prize 2016

Uma praia de pescadores. Um hotel moderno, com um visual bastante sui generis. Livros. livros.

Desde o hall de entrada, estendendo-se entre sala de estar e a grande sala de refeições, uma imensa biblioteca em movimento. Visual contemporâneo. E acesso livre aos livros. Gostei do conceito. 

Durante o dia na praia, livro entre as mãos, enquanto o corpo relaxava ao calor do sol. 

Na praia, procuro leituras mais leves, mais soltas. Não foi o caso, este ano.

Não, não levei comigo Elena Ferrante. Outras leituras. A Vegetariana de Han Kan, vencedor do Man Booker International Prize 2016. 

Elena Ferrante fazia parte da lista dos finalistas. Mais foi Han Kang que saíu vencedora com este seu primeiro romance traduzido em inglês.







A Vegetariana
Han Kang
Dom Quixote, 2016

Logo a partir das primeiras páginas, questionei-me. Por que Han Kang e não Elena Ferrante? Todos andámos com os livros de Ferrante ao longo do ano passado.

As escolhas de júris são sempre subjectivas. E talvez só no final venha a compreender. 

Já comprara livro há alguns meses, mal fora publicado. Mas foi agora que decidi começar a ler.

Pouco li para opinar sobre A Vegetariana. Sei de pessoas que detestaram o livro. E sei de quem gostou muito. Talvez seja diferente?

Como em filmes, quando quero ler um livro - o factor prémio conceituado jogou forte, reconheço - vou pelo meu sentir.

E gosto da literatura oriental. Neste caso, Han Kang é sul-coreana. Vem esse gosto da poesia antiga chinesa.

O livro começa de uma forma leve. Estilo coloquial. Um dia, uma mulher que nos é apresentada na terceira pessoa, pela voz do marido, tem um sonho que a leva a tornar-se vegetariana. Para estranheza do marido.


"Enquanto eu passava a tarde sem fazer nada, agarrado ao comando da televisão, ela fechava-se no quarto. O mais provável era que passasse o tempo a ler, e esse era praticamente o seu único passatempo."

in, A Vegetariana, Han Kang, 2016

Mas a história não é tão simples. Tem que ter algo de mais complexo, cativante. 

Estou a continuar a leitura. Quero entender a relutante reacção do marido. Chega a pôr a hipótese da loucura, depois da noite em que sua mulher teve 'um sonho' estranho, e que vai desencadear uma narrativa intrigante.

Escrita nítida, sensorial. Vou avançar...

E Agosto entrou. 

Miosótis (pseudónimo)

06.08.2017
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Friday, July 07, 2017

A tristeza junca meus dias






créditos: Autor não identificado


Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
Arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos…

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei: vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem

Antero de Quental, Com os Mortos


Miosótis (pseudónimo)


07.07-2017
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Sunday, June 18, 2017

Portugal, eu choro !








Fogo florestal centro Portugal
créditos: Miguel A. Lopes/ Expresso






Fogo florestal centro Portugal
créditos: Miguel A. Melo/ EPA



A paisagem cobriu-se de cinza. Há silêncio. O céu está de luto. A alma chora do que vai vendo. É o luto.

Tão calmo está o firmamento. Pesado. Nem parecem nuvens de fumo. Apenas morte.

Não paira vento, não há céu azul. Os pássaros que das árvores circundantes calaram seu chilrear.

Tudo em mim chora. A natureza reza.


A morte chega cedo, 
Pois breve é toda vida 
O instante é o arremedo 
De uma coisa perdida.

(...)

 E tudo isto a morte 
Risca por não estar certo 
No caderno da sorte 
Que Deus deixou aberto. 


Fernando Pessoa, A Morte Chega Cedo
in Cancioneiro


Miosótis (pseudónimo)

18.06.2017
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Saturday, June 03, 2017

Falando de abraços !






credits:  : New York  Street Artist ‘Swoon’

Algo de errado se passa na minha vida. Eu adoro abraços Mas tirando casos excepcionais, é raro abraçar alguém. 

Quase não me lembro a última vez que abracei um amigo. Mas lembro perfeitamente de quando era pequena abraçar muitas vezes.

Nesta onda de abraços, recordo com ternura abraçar amigas, e amigos, alguns familiares. Mas agora, as coisas já não são bem assim.

Não consigo perceber por que razão os adultos, familiares e amigos, têm tanta dificuldade de se abraçar uns aos outros.

Até mesmo, a dificuldade em mostrar um simples gesto de carinho num momento de tristeza ou felicidade. Suponho mesmo que essa dificuldade se agrava mais nos homens (bem, não são todos iguais), e tomo como o exemplo os homens que tenho à minha volta. 

Na prática de yoga, pratica-se muito o auto-abraço. Mas convenhamos, como sensação afectiva, não é nada parecida com aquela de ser abraçada por outra pessoa de quem gostamos e que nos quer bem. Nada, mesmo.

Reparo que nos filmes, séries de televisão, as pessoas se abraçam muito. Até já comentei isso com familiares, homens.

Resposta quase sempre: Isso é só na ficção. Na vida real as pessoas não andam por aí a distribuir abraços uns aos outros. 

Mas não é verdade! Já tenho visto pessoas na rua a oferecer abraços, embora nunca me tenha cruzado com nenhuma dessas pessoas afectuosas, viradas para os outros.

Verdade que também não sei como reagiria a um abraço de um estranho.

Talvez seja o espelho da sociedade actual, egocêntrica, virada só para as selfies em qualquer canto e esquina.

Talvez as pessoas que gostam de dar abraços, tenham vergonha. Quero acreditar que sim. Admito que sou uma dessas pessoas tímidas. 

Talvez eu me ande a dar com as pessoas erradas, não sei! 


Miosótis (pseudónimo)

03.06.2017
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