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Saturday, March 08, 2025

No Dia Internacional da Mulher : " Teus sentimentos são poesia "

 







Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca! 

Oh! Como és linda, mulher que passas
que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias! 

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania. 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 

Como te adoro, mulher que passas

Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias! 

Porque me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias? 

Por que não voltas, mulher que passa?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça? 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa! 


No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa! 

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.


Vinicius de Moraes, A Mulher que Passa



No Dia Internacional da Mulher, preferi, desta vez, celebrar a sensibilidade.


Miosótis (pseudónimo)

08.03.2025
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Thursday, April 25, 2024

Foram dias. Foram anos !






crédito: André Carrilho



Foi uma lenta madrugada
intranquila
coração desgovernado

sem sabermos
se a coragem
conquistava a liberdade

ao fascismo, a resgatá-la

Foi o povo na rua
foi a festa
numa pressa desatada

onde todos nos revíamos

Foi a noite, foi o dia
de bandeiras e de cravos
sobressalto e alegria

na pressa da liberdade


Maria Teresa Horta, Dia da Liberdade



Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores 

11.04.2024
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Saturday, April 08, 2023

Páscoa mais leve !





credits: Country Living


Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

Mario Quintana, Canção do Dia de Sempre

Para que a Páscoa seja mais leve, para que a serenidade se afunde na alma, para que a delicadeza se espalhe entre as pessoas, inundada da visão das magnólias em flor, ao som do canto fresco dos pássaros. 

A Paz se adentre.


Miosótis (pseudónimo)

08.04.2023

Copyright ©2023-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Saturday, December 31, 2022

Bom Ano ! Viver sem medo de sorrir !






créditos: Autor não identificado
via Google Images


O Ano Novo pode começar com planos, promessas, angústias. Tanta coisa aconteceu no passado recente! 

Mas o poema dá-nos alguma luz para o futuro, que sempre chega com tantas expectativas mas também alguns medos...

Tenhamos coragem de sonhar!


Miosótis (pseudónimo)

31.12.2022

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Wednesday, December 28, 2022

António Mega Ferreira [1949-2022] : tanta coisa se poderia escrever !

 





António Mega Ferreira
créditos: DR
via SIC Notícias

"Que não tinha medo da morte, embora tivesse medo de morrer sozinho em casa - espero que tudo tenha corrido bem, que tenha partido acompanhado e com a luz da mesa de cabeceira acesa."

Luís Osório TSF


Esquece-te de Mim, Amor

Esquece-te de mim, Amor
das delícias que vivemos
na penumbra daquela casa,
Esquece-te.
Faz por esquecer
o momento em que chegámos,
assim como eu esqueço
que partiste,
mal chegámos,
para te esqueceres de mim,
esquecido já
de alguma vez
termos chegado.



António Mega Ferreira, Os Princípios do Fim


Um dos mais cultos protugueses dos últimos anos. Adorava a vida, adorava apaixonar-se por pessoas, adorava perder-se em livros, em quadros, em óperas e teatros, em viagens. Muitas viagens não pode fazer por razões de saúde. Nasceu em Lisboa. Morreu em Lisboa, cidade que tanto amava. 


"Não sou capaz de escrever um livro sobre Lisboa, é demasiado íntimo, demasiado próximo; não tenho recuo nem distância."

António Mega Ferreira,

in entrevista/ Visão


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite con flores

28.12.2022

actualizado 05.08.2024
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Tuesday, November 15, 2022

Chove. Há tristeza que se solta


 




créditos: Andre Kokn, 1972

... Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se (...)

Fernando Pessoa

Chuva. As últimas semanas têm sido de chuva, chuva que cai intempestivamente, por vezes. Esta madrugada choveram baldes de água. Ó Deus! 

Sei que é necessária. O país estava em seca quase extrema. Mas tantos dias! Tanta água caindo de nuvens espessas e cinzentonas. Um sufoco. 

Outono adentrou-se abruptamente e a chuva surgiu! Esta impõe-se com uma intensidade desmesurada. Os pássaros despareceram espavoridos, tentando sacudir o peso das gotas grossas da chuva, deixando a paisagem ainda mais trostonha.
 
Mas, eis que surigiram dois ou três dias de sol suave em quase final de semana. As inóspitas chuvas desapareceram por breve pausa. E os olhos ainda encharcados de tanta chuva briharam na luminosidade que bailava em subjectivas formas tudo em volta.

Oh! De novo a chuva. Sem remédio.

(...)
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece… (...)

Fernando Pessoa, Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
02.10.1933

in Poesias (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) 
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995) 

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite con flores

15.11.2022
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Saturday, October 08, 2022

Fim de tarde, em tempo outonal !

 




créditos: Autor não identificado
via Google Images

Outono, tempo preguiçoso. O dia mantém um ar morno, quase doce, sob sol semi envoado. A noite esfria. Leva-nos a abandonar a letargia e procurar agasalho aconchegante, leve. 

Outono é uma nova dança da natureza. O vento espalha as folhas que bailam no  ar. E mesmo quando caem, a dança continua até finalmente poisarem, quietas, nos passeios, jardins, ou ruas. 

Nesse bailado, não perdem a leveza, apenas nos distraiem a alma. 

Paz? Nem por isso. Outono é tempo de mudança. Tempo de repensar a vida.

Outono chega. Nessas cores tão coloridas, apenas nos perdemos na reflexão intimista. A natureza muda. E com ela, mudam os nossos ritmos. E rumos.

É tempo de espiritualidade


Tarde pintada

Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga, in Diário X


Miosótis (pseudónimo)

09.10.2022

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Saturday, December 25, 2021

Natal ! E Dezembro florirá de novo !





credits One Kindesign


"Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar."

Manuel Alegre, Natal

Uma pandemia que continua a tirar-nos quase tudo... quando pensávamos regressar perto da 'normalidade', eis que mais um Natal se aproxima com mil e uma precauções, bolhas familiares, testes, máscaras, mesmo em família.

Natal. Falavam-nos de amor familiar. E daí o Natal nos trazer o desejo de alegria. E com essa alegria, a vontade de valorizar a família. Os risos àmesa, As correrias das crianças. As longas conversas dos mais velhos.

Hoje. Difícil de praticar.

Surge um pensamento. Natal é época da família. Sem bolhasm sem testes, sem receios de contagiar os mais velhos. 

Como o Natal se transformou! Limpar a alma, equilibrar energias. Não dá, fazem-nos falta os nossos.

Ergamos ao menos as mãos, Estamos bem. Temos saúde, Os nossos estão bem, embora cada um nas suas casas.

No mundo, tantas pessoas estão bem mais infelizes do que nós. Campos de refugiados, morte, medo, doença. 

Vamos viver o Natal com alegria que ainda nos resta, com a serenidade que precisamos. 

(,,,)
Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.(...)

Manuel Alegre, Natal
in Antologia Poética 


Miosótis (pseudónimo)

24.12.2021

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Friday, January 29, 2021

Continuo por aqui em tempo sombrio

 



Lembras-te quando era tudo diferente, 1975
Ana Hatherly*


"Criar é organizar, lutar contra a potência do espírito desordenado. Criar beleza é opor a graça à força caótica da fealdade. [...] a beleza se acha confundida na desordem do caos que se mistura ou se misturou à criação divina. [...] Quem sabe se o caos não é se não a memória dos homens, a sua multiplicidade, as diferenças abissais que separam uma alma de outra e todas do conhecimento supremo. Esquecemos?"

Ana Hatherly, excerto A beleza e o caos
in 57, ano IV, n.° 9, Lisboa, Set. 1960, p. 6 e 10.


Espírito desordenado... Tempo feio. Triste. Macilento. Chuva. Chuva. Sempre chuva. Não posso ir  à varanda. O silêncio fica por trás da janela, olhando um horizonte sufocante de  nevoeiro. Observo as plantas que vão morrendo nos vasos. Flores derramadas pela tijoleira, espalhadas, sem vida. Tudo mudou depois daquele Estou por aqui.


O Inverno tem descido rigoroso. Pesado. Já basta não se poder sair de casa. Nem há horizonte para se mergulhar o olhar. Só nuvens espessas, embrenhadas no nevoeiro. 


Se por um lado obriga as pessoas a ficarem em casa, por outro, a vitamina sol faz falta. E a tristeza, o desconforto descem.


Bem gostaria de estar na varanda a olhar o mar lá longe em dias de horizonte limpo. Luminoso. Mesmo com Sol de Inverno.


A minha rua está cheia de carros estacionados, adormecidos, como que sem dono. Não há crianças nas ruas. Nem por trás das janelas. Não há os risos de adolescentes, vozes de adultos. Silêncio absoluto na praceta. 


Não vejo a luz ao fundo do túnel perdida no nevoeiro denso que não deixa vislumbrar um pouco de azul. Como criar beleza sem azul?


Inspiro-expiro, 1959-1969
Ana Hatherly*

Gosto muito de estar em casa. Adoro o meu cantinho, tiro proveito dele, faço o que me apetece. E por vezes nada. Não tem sido fácil.


Lá me entrego ao meu treino dentro de casa. A minha prática de yoga. Não posso deixar que a falta de vontade supere o que tanto gosto de fazer.


Venha o Sol, meu Deus! Criação divina.


Miosótis (pseudónimo)


28.01.2021

Copyright ©2021-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com


* Obras de Ana Hatherly sem referência de origem.

Thursday, October 01, 2020

Entrou Outubro... com Dia Internacional da Música : Juliette Gréco !

 




Cada coisa

Cada coisa tem o seu fulgor,
a sua música.
Na laranja madura canta o sol,
na neve o melro azul.
Não só as coisas,
os próprios animais
brilham de uma luz acariciada;
quando o inverno
se aproxima dos seus olhos
a transparência das estrelas
torna-se fonte da sua respiração.
Só isso faz
com que durem ainda.
Assim o coração.

Eugénio de Andrade, in "Poesia", Assírio & Alvim, 2017

Outono voltou! Aspira-se o tempo ainda com o aroma de Verão. Torna mais doce esta passagem abrupta de dias quentes, cheios de luz, para uma frescura que já pede algum agasalho.

Um Outono que traz folhas soltas, e árvores quase desnudadas, apesar das cores quentes, ocre, amarelo, à mistura com algum verde. Ainda.





Hai-Kai de Outono

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?


Mario Quintana
Sentiu-o de imediato. Outono, olhando-o pela janela. Sol pálido na paisagem. 

Setembro foi ainda doce, apesar de alguma chuva. Nada de atropelar a vida. Viver o dia que chega. Sem pensamentos do que vem.

Mas hoje é diferente! Outono entra com música. Pois é. Não podemos esquecer que neste dia, 1 de Outubro se festeja a música. A música que nos acompanha sempre, que purifica nossas melancolias, tristezas. 





Música
créditos: Francisco Simões (escultor)

"A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende."

Arthur Schopenhauer
Um dia vivido intimamente. Cada um de nós sente a música, segundo a sua alma.

Dia Internacional da Música, comemorado anualmente a 1 de Outubro, foi instituído em 1975 pelo International Music Council, instituição fundada em 1949 pela UNESCO e que agrega vários organismos e individualidades do mundo da música.

Sempre celebro este dia. Ouvindo música. Escrevendo sobre música. A música apazigua os mais íntimos pesares. Os dias de desassossego.

Celebro a música, portanto. Inspiradora da Vida. Em cada momento.

"A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia.

Ludwig van Beethoven

Mas o Dia Internacional da Música remete-nos para Charles Aznavour que desapareceu, faz hoje um ano. No Dia Internacional da Música. Música que o cantor expressou com tanto talento.





Juliette Gréco [1927-2020]
créditos: Autor não identidicado, 1966
via Bonjour Paris

E para Juliette Gréco, a musa inspiradora do Existencialismo, e da boémia da Rive Gauche. La grande dame de la chanson française:

"JulietteGréco, the singing muse of bohemian postwar Paris who became the grande dame of chanson française..."

New York Times

A cantora e ícone da canção francesa Juliette Gréco, que cantou Léo Ferré, Jacques Prévert e Serge Gainsbourg, entre outros, morreu no passado dia 23 de Setembro.

"She became the musical embodiment of the Existentialist movement. Although she seemed the most modern of performers, Gréco belonged to the grand tradition of Parisian chanteuses."

Patrick O'Connor, The Guardian

Dois nomes incomensuráveis da chanson française. Final de uma época, sem dúvida.

"Ce métier, je le fais pour plusieurs raisons, mais l’une des plus évidentes est que je voulais qu’on m’aime."

Juliette Gréco


Miosótis (pseudónimo)

01.10.2020
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Thursday, August 06, 2020

E voltou... Agosto !



Não fiz o que mais queria.
Nem há tempo de cantar.
Basta que fiquem suspiros
na boca do mar. (...)

Cecília Meireles, Metal Rosicler, 1960

Voltou Agosto. Mês de rias. A caminho do final do ano. Sim, chega Setembro logo a seguir. E Outono. Depois Inverno. E finalmente termina 2020. Muitos de nós respiraremos, aliviados. Um ano tremendo. Como tantos anos, terminados em 20, de décadas passadas.

Agosto é para mim, um mês especial. Sonhador, alegre, nostálgico. O mar, a praia, as viagens curtas. O início deste meu canto. Quatorze anos.


Mas, e este ano? A praia, o mar, de longe. Apenas para perder o olhar, respirar. Inspirar. Expirar. Lembranças de outros lugares, outros mares, outras praias. Outros verões.

Pela memória poética passam, como num filme, imagens, lembranças, pessoas, aromas.

Este ano, um receio de tudo e de todos. Nada é igual. Nada será igual.

O que nos reserva o futuro? Não sabemos. O presente estamos a vivê-lo com cuidados redobrados.

Este ano até nisto é especial. As nossas férias serão diferentes, estranhas. Mas não podem deixar de ser as nossas férias. Em tempos de COVID-19, sim. E por isso, bem diferentes. 


Só a melancia, que se desfaz em água, nos traz a frescura e o sabor de Verão.

Mantenhamos o sorriso. É Agosto!

Miosótis (pseudónimo)

06.08.2020
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