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Sunday, September 01, 2024

Chegou Setembro ? Tão cedo !

 




When the winds of change blow... 


As asas da mudança sopram serenamente, Talvez mais serenamente do que as asas de Agosto. Ventosas em extremo.


Mas é verdade que Setembro já sopra melancolia. E eu deixo-me levar sem lutar contra essa melancolia que me arrasta inflexivemente para outras asas mais penosas. Inverno.


Só consigo pensar que o Inverno aí vem. Triste, escuro, e frio. Não gosto do Inverno.


Procuro todos os pedacinhos de luz que vão sendo mais escassos. A noite cai com muita pressa. 


Neste final de tarde que traz aromas outonais,  o sol ainda tenta resistir - depois de uma manhã cinzentona - mas já vai desmaiando em reflexos prateados sem cor definida. Neutra. Sem aquelas tonalidades esfuziantes.


Quieta, medito sem meditar.


E reescrevo os versos do meu poeta... deixou-nos este ano. No silêncio.


Em Setembro a contrução do ser torna-se mais fácil:
o outono, com a sua melancolia, empresta um estranho
perfume de terra ao espiríto.

excerto de "A contrução do ser"

Nuno Júdice, 
Cartografia de Emoções, 

Publicações Dom Quixote, Lisboa 2001, 1ª edição


Miosótis (pseudónimo)

01.09.2024
Copyright ©2024-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®



Saturday, October 08, 2022

Fim de tarde, em tempo outonal !

 




créditos: Autor não identificado
via Google Images

Outono, tempo preguiçoso. O dia mantém um ar morno, quase doce, sob sol semi envoado. A noite esfria. Leva-nos a abandonar a letargia e procurar agasalho aconchegante, leve. 

Outono é uma nova dança da natureza. O vento espalha as folhas que bailam no  ar. E mesmo quando caem, a dança continua até finalmente poisarem, quietas, nos passeios, jardins, ou ruas. 

Nesse bailado, não perdem a leveza, apenas nos distraiem a alma. 

Paz? Nem por isso. Outono é tempo de mudança. Tempo de repensar a vida.

Outono chega. Nessas cores tão coloridas, apenas nos perdemos na reflexão intimista. A natureza muda. E com ela, mudam os nossos ritmos. E rumos.

É tempo de espiritualidade


Tarde pintada

Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga, in Diário X


Miosótis (pseudónimo)

09.10.2022

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Saturday, October 02, 2021

Falando de afectos, já com aromas de Outono

 





créditos: Autor não identificado
via Google Images


Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

(...)

Cecília Meireles, Canção de Outono


Os afectos foram se afastando. As máscaras não permitiam ver os sorrisos. Os códigos de conduta exigiram distanciamento total. Ou quase, Deus meu! Mesmo na família. Durante um ano e meio. Quanto tempo!


Um ano e meio se tornou eternidade. Sozinhos. Gelados na alma. A virtualidade tentou extinguir algum distanciamento. Será que foi suficente? Não creio.


E voltou Outono. E a aproximação? Ainda condicionada. E receosa.

O tempo arrefeceu. Será que conseguiremos recuperar esses abraços tão guardados? Os beijos por dar. A ternura por entrelaçar. O calor do outro?

Ah! E o amor. O amor deixou de andar tão solto. Sonhos desvaneceram-se. Muitos. Ficaram no imaginário cheio de esperança. Vã realidadade. Que lástima! 

A esperança esmoreceu em muitos de nós. Os sorrisos escondidos por trás da barreira continuam contidos. Presos. Muitos se perderam. Escondidos. Esquecidos.

Assinalam-se novos horizontes. Quais?

(...)
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles, Canção de Outono


Miosótis (pseudónimo) 

02.10.2021 

fragmentos da note com flores

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Thursday, October 01, 2020

Entrou Outubro... com Dia Internacional da Música : Juliette Gréco !

 




Cada coisa

Cada coisa tem o seu fulgor,
a sua música.
Na laranja madura canta o sol,
na neve o melro azul.
Não só as coisas,
os próprios animais
brilham de uma luz acariciada;
quando o inverno
se aproxima dos seus olhos
a transparência das estrelas
torna-se fonte da sua respiração.
Só isso faz
com que durem ainda.
Assim o coração.

Eugénio de Andrade, in "Poesia", Assírio & Alvim, 2017

Outono voltou! Aspira-se o tempo ainda com o aroma de Verão. Torna mais doce esta passagem abrupta de dias quentes, cheios de luz, para uma frescura que já pede algum agasalho.

Um Outono que traz folhas soltas, e árvores quase desnudadas, apesar das cores quentes, ocre, amarelo, à mistura com algum verde. Ainda.





Hai-Kai de Outono

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?


Mario Quintana
Sentiu-o de imediato. Outono, olhando-o pela janela. Sol pálido na paisagem. 

Setembro foi ainda doce, apesar de alguma chuva. Nada de atropelar a vida. Viver o dia que chega. Sem pensamentos do que vem.

Mas hoje é diferente! Outono entra com música. Pois é. Não podemos esquecer que neste dia, 1 de Outubro se festeja a música. A música que nos acompanha sempre, que purifica nossas melancolias, tristezas. 





Música
créditos: Francisco Simões (escultor)

"A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende."

Arthur Schopenhauer
Um dia vivido intimamente. Cada um de nós sente a música, segundo a sua alma.

Dia Internacional da Música, comemorado anualmente a 1 de Outubro, foi instituído em 1975 pelo International Music Council, instituição fundada em 1949 pela UNESCO e que agrega vários organismos e individualidades do mundo da música.

Sempre celebro este dia. Ouvindo música. Escrevendo sobre música. A música apazigua os mais íntimos pesares. Os dias de desassossego.

Celebro a música, portanto. Inspiradora da Vida. Em cada momento.

"A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia.

Ludwig van Beethoven

Mas o Dia Internacional da Música remete-nos para Charles Aznavour que desapareceu, faz hoje um ano. No Dia Internacional da Música. Música que o cantor expressou com tanto talento.





Juliette Gréco [1927-2020]
créditos: Autor não identidicado, 1966
via Bonjour Paris

E para Juliette Gréco, a musa inspiradora do Existencialismo, e da boémia da Rive Gauche. La grande dame de la chanson française:

"JulietteGréco, the singing muse of bohemian postwar Paris who became the grande dame of chanson française..."

New York Times

A cantora e ícone da canção francesa Juliette Gréco, que cantou Léo Ferré, Jacques Prévert e Serge Gainsbourg, entre outros, morreu no passado dia 23 de Setembro.

"She became the musical embodiment of the Existentialist movement. Although she seemed the most modern of performers, Gréco belonged to the grand tradition of Parisian chanteuses."

Patrick O'Connor, The Guardian

Dois nomes incomensuráveis da chanson française. Final de uma época, sem dúvida.

"Ce métier, je le fais pour plusieurs raisons, mais l’une des plus évidentes est que je voulais qu’on m’aime."

Juliette Gréco


Miosótis (pseudónimo)

01.10.2020
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Sunday, November 05, 2017

Olá Novembro ! Já ?






Autumn
créditos: Julian Stratenschulte


Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?

Mario Quintana
via Pensador

Já chegamos a Novembro? Como assim? Ainda mal se sente o Outono. Estação muito bela, quando não chove, com seu tons ocre e amarelos. Mas, não é a minha estação favorita. Traz-me demasiado melancolia. 

A chuva é precisa. Eu sei. Mas confesso. Adoro este sol que me faz saltar da cama, em dia de domingo e me deixa, logo pela manhã, colher a luminosidade de um céu azul, dificilmente manchado de nuvens.

Adoro o mar de Outono. Doce, deixando passsar tranquilidade. Apazigua-me, num mês sempre doloroso. Novembro.

Um tempo assim, limpa alma. Deixa-me respirar. Profundamente.

E, no entanto, as noites já pedem, por vezes, uma manta no sofá. E o aroma de hortelã que se solta da chávena de chá de gengibre, fumegante, que saboreio devagar enquanto espreito as novidades culturais ou mindfulness (não encontro expressão adequada em português) nas notícias ou redes sociais.

Enquanto aguardo que o Outono chegue, apesar de já se sentir nas manhãs frescas e nas noites frias, vou fruindo dos dias, agora mais curtos devido à mudança da hora - malfadada! - apreciando as noites de solstício, olhando da pela janela a lua cheia destas últimas noites. 

Leio, passeio, medito. E, por vezes, vou ao cinema ou a um concerto.

Miosótis (pseudónimo)

05.11.2017
Copyright ©2017-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Sunday, September 17, 2017

Um dia de domingo em Setembro







E voltou Setembro. Despeço-me com tristeza do verão. A minha estação favorita. Não aprecio o Outono, apesar das tonalidades lindas que nos traz. 

As manhãs estão muito mais frescas, embora o solinho ainda ande por aqui. As noites já pedem um agasalho.

De manhã, acordei com a ideia de dar um passeio, mas ao sair para a varanda, um arrepio me percorreu. Que frio! Nem pensar em tomar pequeno almoço na varanda, como me habituara.

Voltei para dentro. Preparei alguma fruta. E fiz então uma curta prática de Ashtanga yoga.

Sinto-me bem logo pela manhã a praticar yoga. Aproximo-me da janela. Abro-a. Respiro profundamente. Inspiro, expiro com lentidão. Fecho os olhos, deixo o pensamento passar sem o deter. Até que ele quase se esfuma.

Medito um pouco, conecto-me comigo, com a minha respiração. Então numa das dessas inspirações, dei comigo a ter consciência da enorme gratidão pelo momento.

Gratidão por poder respirar. Gratidão por ter saúde. Gratidão por poder observar as manhãs. 

Gratidão, por ver o sol no céu dando inicio a mais um dia. Dando inicio a mais uma oportunidade de Ser.  

Gratidão por ter Tempo. Gratidão por poder sentir o calor do sol, mesmo que mais ténue. Gratidão por poder observar as gaivotas que definitivamente vêm fazer seus ninhos na cidade, nos nossos telhados. Os pássaros voltam ao entardecer. E â noite ouvem-se entre o arvoredo.

Ao longo dos dois últimos meses assisti ao nascer, crescer, aprender a voar de duas crias de gaivota. Um casal de gaivotas veio aqui poisar seu ninho. Os filhotes ganharam asas para a liberdade, mesmo em frente aos meus olhos. Gratidão por ver. Eram o meu bom dia! 

Até que quase no final de Agosto, tomaram o rumo da liberdade. Fiquei grata por elas.

E depois sim. Preparei pequeno almoço, primeiro ritual, fruta. Enquanto se prepara a máquina para um bom café. Bom, o aroma do café que perdura. 

Sentei-me a degustar o meu pequeno almoço. Enquanto isso, fui passando os olhos por algumas redes sociais. Ler notícias do dia. E visitar alguns amigos virtuais ou não. Fiz zapping por alguns instantes.

E andei por aí. Agora no final de tarde, com o sol a entrar pela janela virada para o arvoredo que persiste e bem, reflicto.

Por vezes, queremos muito algo, ficamos presos a isso. E não nos apercebemos que a vida nos traz muitas outras coisas. Aprendi isso e cada vez mais, nestes últimos dois anos. 

A perda de familiares, de amigos, em circunstâncias dolorosas me fizeram tomar a vida de outro jeito.

A alegria de encontrar um grupo de prática de Ashtanga yoga ao ar livre num jardim público, onde reinava a serenidade e o arvoredo entre pássaros e pavões, trouxe-me a cura energética que parecisava, depois daquele triste acontecimento de Julho

Fiquei grata ao grupo, à oportunidade que me foi dada de o encontrar, de partilhar momentos de muita serenidade, bem estar, paz.

Se confiarmos no Universo, as coisas que se cruzam no nosso caminho, são sempre melhores do que pensámos! 

Aceito as leis do Universo. Aceito que existe um plano maior para nós. E deixo fluir a Vida e o que ela te traz no momento.

"A vida não está por ordem alfabética como há quem julgue. Surge... ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são miga­lhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém?"

António Tabuchi, Tristano Muore, 2004

Miosótis (pseudónimo)

16.09-2017
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Friday, September 23, 2016

Ah! Outono. Morreste-me duas vezes





Outono
créditos: João Freitas Farinha


A vida tem-me silenciado. As palavras tornam-se cada vez mais parcas. E o sorriso que foi radioso, vai-se esvaindo. Levemente.

Mesmo aqui, neste espaço de desabafo, dos desassossegos constantes, sinto-me vazia. 

Hesito, escrevo o quê? O que me vai na alma? Mas está lá tão fundo. E as palavras? Não se soltam. Bloqueadas. Não tentam sequer revoltar-se, gritar: 

Anda! Abre lá o que te dói, te magoa! Solta-te! Exprime o que sentes! Nós falamos por ti!

Não. Nada. Nem este Outono que entrou lindo, sereno, me inspira, me reanima e leva a escrever. Abro a folha web. E fecho. Saio de mansinho. Desligo computador.

Procuro o refúgio, em olhar frágil, no firmamento que hoje se voltou a pintar de azul-pastel. Nem os aromas da brisa me aliciam. 

Tonalidades desfragmentadas. Outono em suspenso. Alma suspensa. Por um fio.

Busco a poesia. Releio Pessoa. E reaparece Outono. Volto então com poema de Pessoa. Na alma? A névoa dos afectos.


Uma névoa de Outono o ar raro vela

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

Fernando Pessoa, (5.11.1932)
in Poesias Inéditas (1930-1935)


Afasto-me. Até me reencontrar. Procurar de novo o equilíbrio. A superação do que me dói. 

O tempo o dirá. Há vidas fustigadas, sem fim.

Miosótis (pseudónimo) 

fragmentos da noite com flores

23.09.2016
Copyright ©2016-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 


Sunday, November 08, 2015

Verão de São Martinho : uma ponta de céu azul






É bom quebrar um pouco a rotina de domingo preguiçoso. E depois de dias sem fim de chuva, aproveitar este verão repentino, é prece à vida.

O sol deixou de esconder-se sobre manto de nuvens. E reapareceu nesse seu imenso esplendor. 

O firmamento cor azul-pastel mostra-se sereno. Dá vontade de subir e ir lá tocar com a ponta dos dedos. 

Tempo perfeito. Prazeroso ouvir de novo os pássaros, passando num esvoaçar alegre, ver a natureza, as árvores coloridas verde, amarelo-ocre e vermelho.

Faz-se deste dia de Outono, estação do ano mais melancólica, um momento  de alguma ligeireza de alma. Instante divino. Outono em suspenso

É o Verão de S. Martinho. Lenda mágica de Outono.

Depois de dias de frios e chuvosos, em que os casacos começam a sair dos armários, e as castanhas são a nossa iguaria, eis que surgem estes dois ou três dias de um sol pleno e inexplicável que nos trazem uma lufada de boa energia. 

Passeamos pelas ruas, sentimos os aromas que se soltam. Inspiramos profundamente. Como que em busca de paz nesse gesto de grande energização do corpo e da mente.

Vamos caminhando calmamente, até que olhamos aquela nuvem de fumo que se levanta em alguma esquina da cidade. E lá nos deixamos guiar pelo aroma à procura da guloseima outonal. Castanhas assadas, "quentinhas e boas" como o pregão tradicional. 

Um deleite para os sentidos. O calor sentido nas mãos, enquanto tiramos a casca, o aroma que delicia nosso olfacto, o paladar gourmet, desgustando cada fruto com prazer.

Vá lá! Abandonem o sofá e vão apreciar a natureza, as ruas, os aromas. É o que vou fazer.

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

08.11.2015
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