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Sunday, April 10, 2016

Abril é já aqui ?






Days Spring/ blessed & grateful


Gosto de Abril ao-pé da Primavera e que deixa o outro-pé no Inverno. Gosto de sentir que caminhamos ao ritmo e som dos pássaros e ventos amenos. Os ventos, esses, têm andado desabridos.

Mesmo assim, os pássaros voltaram, e não abandonam as primeiras folhagens. Recolhem-se à espreita de algum raio-de-sol distraído. Oiço-os chilrear na azáfama do seu aconchegamento, nas noites ainda inóspitas.

Abril é um mês um pouco inconstante. Temos dias lindos. E temos outros frios e chuvosos. Mas nem mesmo esta inconstância faz com que eu goste menos de Abril. Tento agarrar-me às pontas da Primavera.

Abril, para mim, é já um mês luminoso. Gosto de sentir os dias mais longos, a temperatura a subir. Alongo o olhar para além da janela. 

Adoro ver as flores despontar. Túlipas, lilases, jacintos, alfazemas, numa fusão de cores que anunciam a Primavera. 

As árvores começam a ter mais folhas e o verde tenta dominar a paisagem. A natureza desabrocha.

Os meus dedos parecem ter andado perdidos, distantes do teclado. Ainda em gesto suspenso. E fico na dúvida. Digito as palavras certas para início de Primavera? Ou estão ainda presas ao Inverno?

A criatividade que por vezes vem, quase se esvanece. É que lá fora o Inverno assenta na noite fria.

Os pensamentos alternam entre desânimo, tristeza, e lufadas de esperança. Em que me fico? Um pouco como o tempo. Em suspenso.

Miosótis (pseudónimo)

10.04.2016

Copyright ©2016-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®


Sunday, November 08, 2015

Verão de São Martinho : uma ponta de céu azul






É bom quebrar um pouco a rotina de domingo preguiçoso. E depois de dias sem fim de chuva, aproveitar este verão repentino, é prece à vida.

O sol deixou de esconder-se sobre manto de nuvens. E reapareceu nesse seu imenso esplendor. 

O firmamento cor azul-pastel mostra-se sereno. Dá vontade de subir e ir lá tocar com a ponta dos dedos. 

Tempo perfeito. Prazeroso ouvir de novo os pássaros, passando num esvoaçar alegre, ver a natureza, as árvores coloridas verde, amarelo-ocre e vermelho.

Faz-se deste dia de Outono, estação do ano mais melancólica, um momento  de alguma ligeireza de alma. Instante divino. Outono em suspenso

É o Verão de S. Martinho. Lenda mágica de Outono.

Depois de dias de frios e chuvosos, em que os casacos começam a sair dos armários, e as castanhas são a nossa iguaria, eis que surgem estes dois ou três dias de um sol pleno e inexplicável que nos trazem uma lufada de boa energia. 

Passeamos pelas ruas, sentimos os aromas que se soltam. Inspiramos profundamente. Como que em busca de paz nesse gesto de grande energização do corpo e da mente.

Vamos caminhando calmamente, até que olhamos aquela nuvem de fumo que se levanta em alguma esquina da cidade. E lá nos deixamos guiar pelo aroma à procura da guloseima outonal. Castanhas assadas, "quentinhas e boas" como o pregão tradicional. 

Um deleite para os sentidos. O calor sentido nas mãos, enquanto tiramos a casca, o aroma que delicia nosso olfacto, o paladar gourmet, desgustando cada fruto com prazer.

Vá lá! Abandonem o sofá e vão apreciar a natureza, as ruas, os aromas. É o que vou fazer.

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

08.11.2015
Copyright ©2015-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 


Saturday, June 20, 2015

Solstício de verão : tempo de alegria





"A genuína originalidade de cada um de nós é precisa para compor a melodia na Terra." 

Nádia NadZka



Hoje entra o Solstício de Verão. VerãoMomento em que a Natureza desfruta e celebra a luz, a abundância, a criação. 

O ciclo natural da celebração do Fruto, segundo o calendário gregoriano.  

O Sol, o brilho aberto e genuíno, desperta a verdade da vida, potenciando a alegria de ser viva.

Tempo de celebrar a vida, de observar e integrar tudo o que foi vivido, o crescimento, as emoções, experiências, a colheita. Os afectos. A vida.
A noite vai prolongar-se, céu azul-rei, estrelas de brilho intenso, aromas misturando-se com os sentimentos. 

O verde das árvores torna-se visível no limite da luz. O coração vê.

Por perto, ruídos naturais do verão, risos, canto de pássaros, carregados de insónia, divertidos. Uma vibração mais envolvente. 
A alegria em cada bater de asas, em cada sorriso, no mergulho da vida, em cada canto, em cada dança, o todo inspira, naturalmente, à celebração em gratidão. E partilha.
Observadores, de mente e alma, vemos e sentimos a celebração a acontecer na Natureza, A magia brilhante, viva. Inspiração. 

Diz-se, há muito tempo, que 'o que for cantado e dançado nesta noite às estrelas em puro amor e alegria, ecoará pelo Universo e terá um retorno Mágico e Brilhante.' Assim será.



Felizes, loucas e genuínas celebrações. Por todo o mundo ecoarão até raiar o Sol.
Que prosperem em muito alegria. E criatividade. 

Miosótis (pseudónimo)
fragmentos da noite com flores
20.06.2015
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Saturday, January 24, 2015

E hoje fez-se alegria





Street Art

E hoje fez-se alegria. Sol entrando pelas janelas, brilhante, desde a manhã. Sol mais quente. E céu azul! 

Mum! Que bom abrir a varanda e aspirar o sabor da temperatura tão amena. E saio lá fora. O café tem um outro sabor. Sorvo por curtos gestos, usufruindo do aroma que se solta. Livre.

Saúdo o sol. Recolho-me, olhando lá longe o horizonte. Em paz.

Baixo-me para as plantas. Retiro as folhas secas, húmidas mas sem vida. A chuva, o gelo. Sabe-me bem mexer neste pedacinho da natureza pendurada na cidade. Trato-a com carinho. A natureza.

Olho as gaivotas, longínquas. Tornaram-se citadinas. Um ou outro pássaro voa mais próximo, ainda descrente de uma primavera fora do tempo. Sereno.

E dou por mim afagando as folhas novas verde-água tenras que teimam em nascer, enquanto sigo o pássaro até o perder de vista. Lá bem longe.

2014 foi um ano triste, duro mesmo. Eu sei - me dirão - duro é ter fome e não ter que comer, ou ter frio e não ter onde dormir. Eu sei, sou privilegiada.

Então travo meu queixume. E olho de frente este sol que me invade. Respiro. Profundamente. Absorvo o que a atmosfera me doa.

Hoje há sol, de novo! E fez-se alegria.


Ainda bem que sempre existe outro dia.

E outros sonhos.
E outros risos.
E outras pessoas.
E outras coisas.

Clarice Lispector

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos de uma manhã com flores

24.01.2015
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Friday, November 14, 2014

Quanto Outono ausente !





Foto: José Oliveira 


Não vou mentir. Este Outono ausente faz-me desbravar o vento sem aquela doce melancolia dos dias de introversão lenta, a preparação necessária para entrar no Inverno do meu recolhimento.

November comes
And November goes,
With the last red berries
And the first white snows.

With night coming early,
And dawn coming late,
And ice in the bucket
And frost by the gate.

The fires burn
And the kettles sing,
And earth sinks to rest
Until next spring.” 

Clyde Watson


E o ritual não se cumpriu. Fecho-me em sliêncios. A cortina,agora em tom mais sombrio, encerra meus ténues e tristes pensamentos. Até a Primavera voltar?

Já pouco olho para a natureza. Está fria, escura, cheia de chuva. Ventos bravios como se fugidos do mar encrespado, furioso, encerram as janelas.

Ando por aqui como que sonâmbula de uma noite que cheira a desconforto. Sacudo os arrepios de frio, puxo a malha quente em torno do meu corpo para me afagar, como num abraço de afecto que não chega. 





oto : José Oliveira


Devagar, encerro os olhos e reencontro-me lá muito mais longe, na Primavera futura. Será?

Sei que a vida não prepara para este abrupto tempo. Mas convida-nos a reagir. Sempre. As pálpebras cerram, buscam descanso. 

O firmamento lá fora, esse está cor de bréu. Não há estrelas. Nem voz para uma prece. Silêncios.


Miósotis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

14.11.2014
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Saturday, June 28, 2014

Tempos frescos, em dias de verão !




Bicicleta | Aguarela 
créditos: Adriana Banfi, 1998
http://www.adrianabanfi.com.br/

Têm sido muito poucas as minhas andanças de lazer por aí. O tempo mantém-se meio fosco, sensaborão, não cheira a calor, nem andam brisas doces no ar.

Gosto de fazer pequenos passeios de bicicleta em final de tarde, de estio convidativo. Mas este ano, têm sido parcas as tardes que me permitam vaguear ao ritmo das duas rodas. 


Assim, peguei no carro, e em jeito de passagem breve, fui até à beira-mar! Precisava respirar! Abrir os olhos para o horizonte.


Estes últimos meses não me têm sido muito amigáveis. O inverno prolongou-se demais, a primavera chegou tardia e curta, o verão teima em não se fazer sentir. 


Se pensar bem, suponho que só fui até à praia, mesmo, dois ou três dias, rarefeitos, enfiados em semanas brumosas ou de ventos muito desconfortáveis.


Cansada deste tempo fora do tempo, e das paisagens citadinas, peguei em mim, e fui ver o mar.


O mar! Esse reduto de temperança, minha paz. Meu recanto de universo!

Esplendoroso, inquietado pelo vento forte, assim o fui encontrar! Revolto, lançava suas ondas largas espraiando-se em véus de espuma até ao areal.

A brisa visível, agreste quase cortante, um céu azul esbatido, e as temperaturas baixas, acolhiam mal os poucos afoitos que por ali buscavam descanso e força para recomeçar uma semana.


De um gesto sereno, protegi-me, cerrando um pouco mais o ligeiro agasalho, e olhei bem fundo o mar, juntando minhas inquietações à sua intranquilidade.


Veio um arrepio mais forte. Era a agressividade do vento que revoltava ainda mais o mar, já de si pouco sereno, trespassando-me sem trégua.


Puxei de novo o agasalho, tentando fazer frente aquela fria, despropositada ventania, para uma tarde que se pretendia ser de verão. 
Olhei uma vez mais a distância azulada sem fim, virei o carro e vim embora. Mesmo assim, meu olhar notava-se menos irrequieto.

De volta a casa, cruzei ainda os sons finais deste dia de S. Pedro, numa praça da cidade, sorri. O manjerico ainda se mantêm viçoso, lá em casa - pensei, agradada.






Quarto | Óleo sobre tela
créditos: Adriana Banfi, 1998

É que os seus aromas - antes de deitar, gosto de passar os dedos soltos, suavemente pelas folhas - acompanham-me até adormecer.

Trazem odores de infância, de família buliçosa, numa miscelânea de paisagens soltas como folhas de um álbum visual imaginário.


Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores


29.06.2014

Copyright ©2014-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®


Saturday, May 10, 2014

Sem rumo, com sonhos




Meditation

Tenho andado desgarrada, arredia. Dias que nos deixam assim. Sem rumo. Sem querer de coisa alguma. Como quem fala só para si. Ou nem isso.

Sei sempre, mas muitas vezes esqueço. Esqueço vezes demais. 

De quando em quando, a melhor a mais pequena aventura, a maior felicidade do dia é não dizer nada. Apenas estender o olhar. E aquietar, sem medos.

Como quem está a olhar para as flores que se espalham nos jardins. Não longe do rio. Ou do mar.

Hoje vim aqui meditar sobre o que tenho, e gosto. Os dias grandes, meu tempo, o horizonte imenso, desanuviado, profundo no azul. 

Sonho, sim, absorvo o que me rodeia. Ou mais ainda. Mudei, sim. Não podemos permancer os mesmos. Mas não me preocupo em descodificar o significado do que sonho. Ou da mudança. Aparente paradoxo ? Talvez. 

O que sonho não me impede de andar para a frente. Alimento o meu sonho e tento deixar que ele se transforme à medida das mãos com que lhe toco e das com que me tocam. É a mudança. Transformação lenta, pausada, sem sobressaltos.

Continuo sentada, poisada na paisagem, mas apenas a posição é estática, pensamento, esse anda por aí vagueando, sereno, pela vida. 

Amo a vida. Não tenho muitas ilusões. Mas guardo sigilo sobre algumas que não largo. São minhas. Pertencem-me. Com elas cresci, me tornei mulher. E fui caminhando.

E todos os dias olho o que amo incondicionalmente - mesmo quando não tenho ânimo de continuar.

E respiro tudo isto, e o sonho navega em mim, em todo o meu ser, pela pele e pelos cabelos, alma e coração, e à medida que avanço mais, experimento melhor, o sonho altera-se comigo. 

Acarinho a vida, mesmo sendo contra a maré. Só porque sim. 

"Il faut savoir se prêter au rêve lorsque le rêve se prête à nous."

Albert Camus

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

10.05.2014
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Sunday, January 19, 2014

Paisagens de Inverno






Pitões das Júnias | Montalegre 
créditos: António Cunha





Serra | Montalegre 
créditos: António Cunha





Serra | Montalegre 
Foto: António Cunha


"depois do Outono, o inverno por que eu esperava;
a neve crepuscular em que vivemos há alguns dias tornou-se o fundo da minha incerteza por eu não saber o que cabe (...) em mim; "

Maria Gabriela LLansol, Contos do mal errante

Não, desta vez o inverno não entrou de repente. Há muito se instalou. O branco tem pintado as paisagens mais altas, espalhando em silêncio este branco-anilado, recortando a paisagem local. 

O azul nem sempre se abre. Permanece muito mais embrulhando nas nuvens plúmbeas. 

Eu olho, sob o impulso de viver. E quando os ventos frescos sopram, névoas invadem a minha nostalgia das noite quentes.

Sinto os aromas do frio agressivo que não tem poupado a cidade. Não neva. Mas faz frio. Desaconchegante.

O ar gélido pairou o dia inteiro e desceu pela noite. Tanto frio. As luzes ilumninaram-se, cobrindo a armosfera que se exibe lá fora. Sei que o frio não fundirá o gelo.

E se vos disser que o pássaro sem primavera teima em chilrear pela madrugada, quando a chuva não o fustiga com braveza? Bem pela madrugada. 

Ilusão? Não! Posso garantir que ele vem, algumas noites, mal se adentrou Janeiro.


"Já estou calma. Não menos triste; 
tentar dizer o que uma coisa é, é viver;"

Maria Gabriela LLansol, contos do mal errante,
edições rolim, 1986

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

19.01.2014
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Sunday, December 15, 2013

Aromas do Inverno




foto:  

Não, não quero continuar a falar das perdas que nos têm desassossegado, nesta última semana e meia. 

Mandela, Nadir Afonso, hoje Peter 0'Toole. E seis jovens que incautamente se aproximaram do mar que tanto amo, mas que não perdoa a quem não o teme. Quanta desolação!


Prefiro falar dos aromas do Inverno. Romãs, frutos secos, terra fria, folhas soltas, tisanas quentes, maçãs assadas, canela.


"L'été qui s'enfuit est un ami qui part ."

Victor Hugo

Eu gosto dos aromas do Inverno. Mas não gosto do inverno, como estação. 

E tal como o escritor, sinto que quando o verão parte, a solidão se instala. Como se não houvesse amigos, família por perto. Mas há. Eles estão cá. Alguns.

É nosso eu mais intimista que se sente mais só, mais quieto.

Então, gosto de escrever, à noite, junto a uma tisana quente, ou então, uma maçã assada, caramelizada com canela e açucar moreno.

meu reino é o da escrita. Não, não nasci escritora. Não sou escritora. Mas tenho o gosto da escrita. Veio talvez do gosto da leitura. Simplesmente, como quem pensa. Ou fala em voz baixa.

O meu gosto vem-me da infância. O de ler. O de escrever. 

A família lia muito.

"E há um grande peso e ensinamento que se recebe, desde que se nasce."

Agustina Bessa-Luís

Tranquilizem-se. Não, o meu reino não é o da fantasia. Se não, eu não sentiria tanto o inverno. Apenas os seus aromas quentes me acariciam a memória dos tempos da infância.

Dessa infância de onde me veio, tal como Agustina, o gosto da leitura. E mais tarde transmitiu-se à escrita.

Algum episódio da minha infância sobre a leitura? Não. Apenas a imagem de uma leitura sempre feita no singular. Nada de serões de leitura em comum. Apenas conversas sobre temas lidos, como pelo gosto de conversar em família.

Lembro que assaltava as estantes dos meus pais, dos irmãos mais velhos. E adorava comprar livros. Hoje continuo a gostar muito de comprar livros.

E ia completando as prateleiras da minha biblioteca, não esquecendo nunca de devolver os livros às estantes pessoais da família. Com afecto.

Os aromas também me vêm da infância. Nas noites de inverno, soltavam-se pela casa enorme, enrolavam-se pelas escadas e subiam até ao último piso, onde ficava meu quarto, assotado.

Falar de coisas belas que resultam do nosso dom de sentir os aromas do inverno. É um gosto escrever, este que conservo. Ainda.



Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

15.12.2013
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