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Sunday, August 06, 2017

E veio Agosto : leituras






Elena Ferrante
illustration: Helder Oliveira

"Esistere è questo, pensai, un sussulto di gioia, una fitta di dolore, un piacere intenso, vene che pulsano sotto la pelle, non c'è nient'altro di vero da raccontare."

Elena Ferrante

in volume quatro

De volta ao portátil. Recolhida nos fragmentos de muita tristeza, silenciei em meus sentimentos.

Volto a escrever neste meu espaço feito de todos os fragmentos bons, menos bons. Mais serena, agora. Nesta tarde de domingo. 

Estou de volta.  Para mim, essencial

Julho já passou. Mês de muito sofrimento. O final de mês marcou uma estadia junto ao mar. Reequilibrio emocional.







The Vegetarian
Han Kang
Man Booker International Prize 2016

Uma praia de pescadores. Um hotel moderno, com um visual bastante sui generis. Livros. livros.

Desde o hall de entrada, estendendo-se entre sala de estar e a grande sala de refeições, uma imensa biblioteca em movimento. Visual contemporâneo. E acesso livre aos livros. Gostei do conceito. 

Durante o dia na praia, livro entre as mãos, enquanto o corpo relaxava ao calor do sol. 

Na praia, procuro leituras mais leves, mais soltas. Não foi o caso, este ano.

Não, não levei comigo Elena Ferrante. Outras leituras. A Vegetariana de Han Kan, vencedor do Man Booker International Prize 2016. 

Elena Ferrante fazia parte da lista dos finalistas. Mais foi Han Kang que saíu vencedora com este seu primeiro romance traduzido em inglês.







A Vegetariana
Han Kang
Dom Quixote, 2016

Logo a partir das primeiras páginas, questionei-me. Por que Han Kang e não Elena Ferrante? Todos andámos com os livros de Ferrante ao longo do ano passado.

As escolhas de júris são sempre subjectivas. E talvez só no final venha a compreender. 

Já comprara livro há alguns meses, mal fora publicado. Mas foi agora que decidi começar a ler.

Pouco li para opinar sobre A Vegetariana. Sei de pessoas que detestaram o livro. E sei de quem gostou muito. Talvez seja diferente?

Como em filmes, quando quero ler um livro - o factor prémio conceituado jogou forte, reconheço - vou pelo meu sentir.

E gosto da literatura oriental. Neste caso, Han Kang é sul-coreana. Vem esse gosto da poesia antiga chinesa.

O livro começa de uma forma leve. Estilo coloquial. Um dia, uma mulher que nos é apresentada na terceira pessoa, pela voz do marido, tem um sonho que a leva a tornar-se vegetariana. Para estranheza do marido.


"Enquanto eu passava a tarde sem fazer nada, agarrado ao comando da televisão, ela fechava-se no quarto. O mais provável era que passasse o tempo a ler, e esse era praticamente o seu único passatempo."

in, A Vegetariana, Han Kang, 2016

Mas a história não é tão simples. Tem que ter algo de mais complexo, cativante. 

Estou a continuar a leitura. Quero entender a relutante reacção do marido. Chega a pôr a hipótese da loucura, depois da noite em que sua mulher teve 'um sonho' estranho, e que vai desencadear uma narrativa intrigante.

Escrita nítida, sensorial. Vou avançar...

E Agosto entrou. 

Miosótis (pseudónimo)

06.08.2017
Copyright ©2017-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 


Friday, August 21, 2015

Uma tarde de verão !





Woman on the beach 
https://www.pinterest.com

Voltei à praia. Adoro mar, o calor do sol que bate no corpo, a luminosidade que entra na alma, o marulhar suave, de vez em quando, interrompido por vozes que supõem estar e casa, como se tudo à volta fossem paredes.

O tempo incerto, alguns cuidados, me mantiveram afastada. Num tempo que adoro! O verão. 

Até que ontem, o sol, a brisa quente, me bateu em cheio, adentrando-se pelas janelas, vizinhas do firmamento. Saí à varanda para sentir o ar que me tocava. Muito agradável. Então, estava decidido. Ir à praia.

Que sensação boa! Sair do carro, e sentir que não havia vento à beira-mar. Apanhar o saco, com aquelas pequenas coisas que todas as mulheres gostam de ter consigo na praia. Creme solar, pareo, uma garrafa de água. 




A Ilha
Sándor Marái
Dom Quixote

Ah! Não podia faltar um livro. A minha escolha de verão? "A Ilha" de Sándor Marái. Lembram "As Velas Ardem Até ao Fim"? Esse mesmo.

O tema passado numa estância balnear, um professor ligado à filosofia, inspirado por Platão, ambiguidade do amor, Viktor Askenasi. A personagem remetia-me para o grande pianista Vladimir Ashkenazy. Culto de momentos de música clássica. 

Música, filosofia, busca da felicidade, verão. Conhecendo o escritor, motivos suficientes para esta escolha. Sim, clima perfeito para uma tarde inspiradora. E de muita serenidade.

Muita gente na praia. Mas sem aquele amontoado de pessoas, que mal nos dão espaço para uma certa privacidade. Distanciamento quanto baste.

Estendi o pareo. E sentando-me, fiquei primeiro a olhar o mar. Aquele mar, paraíso de liberdade, que tanto me apazigua. Inspirei. Longamente. E expirei, com uma sensação de bem estar e tranquilidade que só o ar livre à beira-mar, sentindo a areia quente, me traz de volta.

O  mar estava calmo, mas sem aquele verde-claro, translúcido. Quase ninguém na água. Gelada, ouvia-se em volta. Preferi o calor da areia, o sol reflectindo-se na água, batendo nas páginas do livro que folheava, embrenhada na leitura.

Voltei ao final de tarde. o sol baixava no horizonte. E a temperatura descera.

Uma tarde sublime, onde nada faltou. Regressei com novas energias, a chave secreta para recomeçar. Ficou em mim o aroma da maresia desfragmentado entre as palavras lidas. 

Aspirações delicadas. 

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores
21.08.2015

Copyright ©2015-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Monday, June 01, 2015

A Walt Whitman




Andre Kohn | Woman Reading

Gosto de poesia. O quieto olhar se enleva, absorto, preso naquela corrente poética que as palavras atraem. Tão longas paisagens.

Não escrevo poesia. Não tenho esse dom quase divino. Apenas leio poesia, e fruo sem pressas. Viajando pelos recônditos da sensibilidade.

A quietude da noite desperta, por vezes, em mim, fragmentos de prosa poética. Apenas. Não é o caso deste final de dia.

Hoje detive-me em Walt WhitmanWalt Whitman, o poeta, e pensador norte-americano, nascido a 31 Maio 1819. O poeta a quem se deve o verso livre.

Sentada, numa paisagem bem real, percorri alguns poemas de Whitman. Até que me detive aqui:

Are you the new person drawn toward me?

Are you the new person drawn toward me?
To begin with, take warning, I am surely far different from what you suppose;

Do you suppose you will find in me your ideal?

Do you think it so easy to have me become your lover?

Do you think the friendship of me would be unalloy’d satisfaction?
Do you think I am trusty and faithful?
Do you see no further than this façade, this smooth and tolerant manner of me?
Do you suppose yourself advancing on real ground toward a real heroic man?
Have you no thought, O dreamer, that it may be all maya, illusion? 

Walt Whitman, 1819-1892

Falo de sonhos. Eu sei. E de sonhadores. Não sou poeta, mas sonho. Da poesia me vem essa vontade de percorrer os caminhos da imagética transcendente. 

E amor não é sempre ilusão?

Fiquei calada. Em harmonia. Finitamente. Pura emoção.

Whitman seria a constelação do meu sorriso. Hoje.


Miosótis (pseudónimo)

01.06.2015
Copyright ©2015-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Sunday, December 15, 2013

Aromas do Inverno




foto:  

Não, não quero continuar a falar das perdas que nos têm desassossegado, nesta última semana e meia. 

Mandela, Nadir Afonso, hoje Peter 0'Toole. E seis jovens que incautamente se aproximaram do mar que tanto amo, mas que não perdoa a quem não o teme. Quanta desolação!


Prefiro falar dos aromas do Inverno. Romãs, frutos secos, terra fria, folhas soltas, tisanas quentes, maçãs assadas, canela.


"L'été qui s'enfuit est un ami qui part ."

Victor Hugo

Eu gosto dos aromas do Inverno. Mas não gosto do inverno, como estação. 

E tal como o escritor, sinto que quando o verão parte, a solidão se instala. Como se não houvesse amigos, família por perto. Mas há. Eles estão cá. Alguns.

É nosso eu mais intimista que se sente mais só, mais quieto.

Então, gosto de escrever, à noite, junto a uma tisana quente, ou então, uma maçã assada, caramelizada com canela e açucar moreno.

meu reino é o da escrita. Não, não nasci escritora. Não sou escritora. Mas tenho o gosto da escrita. Veio talvez do gosto da leitura. Simplesmente, como quem pensa. Ou fala em voz baixa.

O meu gosto vem-me da infância. O de ler. O de escrever. 

A família lia muito.

"E há um grande peso e ensinamento que se recebe, desde que se nasce."

Agustina Bessa-Luís

Tranquilizem-se. Não, o meu reino não é o da fantasia. Se não, eu não sentiria tanto o inverno. Apenas os seus aromas quentes me acariciam a memória dos tempos da infância.

Dessa infância de onde me veio, tal como Agustina, o gosto da leitura. E mais tarde transmitiu-se à escrita.

Algum episódio da minha infância sobre a leitura? Não. Apenas a imagem de uma leitura sempre feita no singular. Nada de serões de leitura em comum. Apenas conversas sobre temas lidos, como pelo gosto de conversar em família.

Lembro que assaltava as estantes dos meus pais, dos irmãos mais velhos. E adorava comprar livros. Hoje continuo a gostar muito de comprar livros.

E ia completando as prateleiras da minha biblioteca, não esquecendo nunca de devolver os livros às estantes pessoais da família. Com afecto.

Os aromas também me vêm da infância. Nas noites de inverno, soltavam-se pela casa enorme, enrolavam-se pelas escadas e subiam até ao último piso, onde ficava meu quarto, assotado.

Falar de coisas belas que resultam do nosso dom de sentir os aromas do inverno. É um gosto escrever, este que conservo. Ainda.



Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

15.12.2013
 Copyright ©2013-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®