Sunday, September 17, 2017

Um dia de domingo em Setembro






E voltou Setembro. Despeço-me com tristeza do verão. A minha estação favorita. Não aprecio o Outono, apesar das tonalidades lindas que nos traz. 

As manhãs estão muito mais frescas, embora o solinho ainda ande por aqui. As noites já pedem um agasalho.

De manhã, acordei com a ideia de dar um passeio, mas ao sair para a varanda, um arrepio me percorreu. Que frio! Nem pensar em tomar pequeno almoço na varanda, como me habituara.

Voltei para dentro. Preparei alguma fruta. E fiz então uma curta prática de Ashtanga yoga.

Sinto-me bem logo pela manhã a praticar yoga. Aproximo-me da janela. Abro-a. Respiro profundamente. Inspiro, expiro com lentidão. Fecho os olhos, deixo o pensamento passar sem o deter. Até que ele quase se esfuma.

Medito um pouco, conecto-me comigo, com a minha respiração. Então numa das dessas inspirações, dei comigo a ter consciência da enorme gratidão pelo momento.

Gratidão por poder respirar. Gratidão por ter saúde. Gratidão por poder observar as manhãs. 

Gratidão, por ver o sol no céu dando inicio a mais um dia. Dando inicio a mais uma oportunidade de Ser.  

Gratidão por ter Tempo. Gratidão por poder sentir o calor do sol, mesmo que mais ténue. Gratidão por poder observar as gaivotas que definitivamente vêm fazer seus ninhos na cidade, nos nossos telhados. Os pássaros voltam ao entardecer. E â noite ouvem-se entre o arvoredo.

Ao longo dos dois últimos meses assisti ao nascer, crescer, aprender a voar de duas crias de gaivota. Um casal de gaivotas veio aqui poisar seu ninho. Os filhotes ganharam asas para a liberdade, mesmo em frente aos meus olhos. Gratidão por ver. Eram o meu bom dia! 

Até que quase no final de Agosto, tomaram o rumo da liberdade. Fiquei grata por elas.

E depois sim. Preparei pequeno almoço, primeiro ritual, fruta. Enquanto se prepara a máquina para um bom café. Bom, o aroma do café que perdura. 

Sentei-me a degustar o meu pequeno almoço. Enquanto isso, fui passando os olhos por algumas redes sociais. Ler notícias do dia. E visitar alguns amigos virtuais ou não. Fiz zapping por alguns instantes.

E andei por aí. Agora no final de tarde, com o sol a entrar pela janela virada para o arvoredo que persiste e bem, reflicto.

Por vezes, queremos muito algo, ficamos presos a isso. E não nos apercebemos que a vida nos traz muitas outras coisas. Aprendi isso e cada vez mais, nestes últimos dois anos. 

A perda de familiares, de amigos, em circunstâncias dolorosas me fizeram tomar a vida de outro jeito.

A alegria de encontrar um grupo de prática de Ashtanga yoga ao ar livre num jardim público, onde reinava a serenidade e o arvoredo entre pássaros e pavões, trouxe-me a cura energética que parecisava, depois daquele triste acontecimento de Julho

Fiquei grata ao grupo, à oportunidade que me foi dada de o encontrar, de partilhar momentos de muita serenidade, bem estar, paz.

Se confiarmos no Universo, as coisas que se cruzam no nosso caminho, são sempre melhores do que pensámos! 

Aceito as leis do Universo. Aceito que existe um plano maior para nós. E deixo fluir a Vida e o que ela te traz no momento.

"A vida não está por ordem alfabética como há quem julgue. Surge... ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são miga­lhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém?"

António Tabuchi, Tristano Muore, 2004

Miosótis (pseudónimo)

16.09-2017
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Sunday, August 06, 2017

E veio Agosto : leituras






Elena Ferrante
illustration: Helder Oliveira

"Esistere è questo, pensai, un sussulto di gioia, una fitta di dolore, un piacere intenso, vene che pulsano sotto la pelle, non c'è nient'altro di vero da raccontare."

Elena Ferrante

in volume quatro

De volta ao portátil. Recolhida nos fragmentos de muita tristeza, silenciei em meus sentimentos.

Volto a escrever neste meu espaço feito de todos os fragmentos bons, menos bons. Mais serena, agora. Nesta tarde de domingo. 

Estou de volta.  Para mim, essencial

Julho já passou. Mês de muito sofrimento. O final de mês marcou uma estadia junto ao mar. Reequilibrio emocional.







The Vegetarian
Han Kang
Man Booker International Prize 2016

Uma praia de pescadores. Um hotel moderno, com um visual bastante sui generis. Livros. livros.

Desde o hall de entrada, estendendo-se entre sala de estar e a grande sala de refeições, uma imensa biblioteca em movimento. Visual contemporâneo. E acesso livre aos livros. Gostei do conceito. 

Durante o dia na praia, livro entre as mãos, enquanto o corpo relaxava ao calor do sol. 

Na praia, procuro leituras mais leves, mais soltas. Não foi o caso, este ano.

Não, não levei comigo Elena Ferrante. Outras leituras. A Vegetariana de Han Kan, vencedor do Man Booker International Prize 2016. 

Elena Ferrante fazia parte da lista dos finalistas. Mais foi Han Kang que saíu vencedora com este seu primeiro romance traduzido em inglês.







A Vegetariana
Han Kang
Dom Quixote, 2016

Logo a partir das primeiras páginas, questionei-me. Por que Han Kang e não Elena Ferrante? Todos andámos com os livros de Ferrante ao longo do ano passado.

As escolhas de júris são sempre subjectivas. E talvez só no final venha a compreender. 

Já comprara livro há alguns meses, mal fora publicado. Mas foi agora que decidi começar a ler.

Pouco li para opinar sobre A Vegetariana. Sei de pessoas que detestaram o livro. E sei de quem gostou muito. Talvez seja diferente?

Como em filmes, quando quero ler um livro - o factor prémio conceituado jogou forte, reconheço - vou pelo meu sentir.

E gosto da literatura oriental. Neste caso, Han Kang é sul-coreana. Vem esse gosto da poesia antiga chinesa.

O livro começa de uma forma leve. Estilo coloquial. Um dia, uma mulher que nos é apresentada na terceira pessoa, pela voz do marido, tem um sonho que a leva a tornar-se vegetariana. Para estranheza do marido.


"Enquanto eu passava a tarde sem fazer nada, agarrado ao comando da televisão, ela fechava-se no quarto. O mais provável era que passasse o tempo a ler, e esse era praticamente o seu único passatempo."

in, A Vegetariana, Han Kang, 2016

Mas a história não é tão simples. Tem que ter algo de mais complexo, cativante. 

Estou a continuar a leitura. Quero entender a relutante reacção do marido. Chega a pôr a hipótese da loucura, depois da noite em que sua mulher teve 'um sonho' estranho, e que vai desencadear uma narrativa intrigante.

Escrita nítida, sensorial. Vou avançar...

E Agosto entrou. 

Miosótis (pseudónimo)

06.08.2017
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Friday, July 07, 2017

A tristeza junca meus dias






créditos: Autor não identificado


Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
Arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos…

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei: vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem

Antero de Quental, Com os Mortos


Miosótis (pseudónimo)


07.07-2017
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Sunday, June 18, 2017

Portugal, eu choro !








Fogo florestal centro Portugal
créditos: Miguel A. Lopes/ Expresso






Fogo florestal centro Portugal
créditos: Miguel A. Melo/ EPA



A paisagem cobriu-se de cinza. Há silêncio. O céu está de luto. A alma chora do que vai vendo. É o luto.

Tão calmo está o firmamento. Pesado. Nem parecem nuvens de fumo. Apenas morte.

Não paira vento, não há céu azul. Os pássaros que das árvores circundantes calaram seu chilrear.

Tudo em mim chora. A natureza reza.


A morte chega cedo, 
Pois breve é toda vida 
O instante é o arremedo 
De uma coisa perdida.

(...)

 E tudo isto a morte 
Risca por não estar certo 
No caderno da sorte 
Que Deus deixou aberto. 


Fernando Pessoa, A Morte Chega Cedo
in Cancioneiro


Miosótis (pseudónimo)

18.06.2017
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Saturday, June 03, 2017

Falando de abraços !






credits:  : New York  Street Artist ‘Swoon’

Algo de errado se passa na minha vida. Eu adoro abraços Mas tirando casos excepcionais, é raro abraçar alguém. 

Quase não me lembro a última vez que abracei um amigo. Mas lembro perfeitamente de quando era pequena abraçar muitas vezes.

Nesta onda de abraços, recordo com ternura abraçar amigas, e amigos, alguns familiares. Mas agora, as coisas já não são bem assim.

Não consigo perceber por que razão os adultos, familiares e amigos, têm tanta dificuldade de se abraçar uns aos outros.

Até mesmo, a dificuldade em mostrar um simples gesto de carinho num momento de tristeza ou felicidade. Suponho mesmo que essa dificuldade se agrava mais nos homens (bem, não são todos iguais), e tomo como o exemplo os homens que tenho à minha volta. 

Na prática de yoga, pratica-se muito o auto-abraço. Mas convenhamos, como sensação afectiva, não é nada parecida com aquela de ser abraçada por outra pessoa de quem gostamos e que nos quer bem. Nada, mesmo.

Reparo que nos filmes, séries de televisão, as pessoas se abraçam muito. Até já comentei isso com familiares, homens.

Resposta quase sempre: Isso é só na ficção. Na vida real as pessoas não andam por aí a distribuir abraços uns aos outros. 

Mas não é verdade! Já tenho visto pessoas na rua a oferecer abraços, embora nunca me tenha cruzado com nenhuma dessas pessoas afectuosas, viradas para os outros.

Verdade que também não sei como reagiria a um abraço de um estranho.

Talvez seja o espelho da sociedade actual, egocêntrica, virada só para as selfies em qualquer canto e esquina.

Talvez as pessoas que gostam de dar abraços, tenham vergonha. Quero acreditar que sim. Admito que sou uma dessas pessoas tímidas. 

Talvez eu me ande a dar com as pessoas erradas, não sei! 


Miosótis (pseudónimo)

03.06.2017
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Wednesday, May 10, 2017

Uma voz linda ! Salvador Sobral







Salvador Sobral
créditos:LUSA


Amar pelos dois, cantado por Salvador Sobral, ontem à noite no festival Eurovisão 2017 conquistou-me. E não estou sózinha. As redes sociais nacionais e internacionais não deixam de publicar ou falar do tema e da voz que o interpretou.

Os elogios à canção interpretada por Salvador Sobral chegam dos quatro cantos da Europa. E também da Austrália e do Brasil.


Sou daquelas que deixaram de ver o Festival RTP da Canção e Eurovisão, desde os anos 90. Confesso.


Mas, mal soube que Salvador Sobral iria estar na Eurovisão, volvidas duas décadas, dei por mim no sofá a assistir à Eurovisão. Só para ouvir Amar pelos Dois. Rendida. Emocionada.






Salvador Sobral
créditos: Getty Images

Ouvi Salvador Sobral em 2016. Foi cantar o seu tema Excuse Me no programa 5 para a Meia Noite. Sempre o ouvi ligado ao jazz. Gostei da sua sensibilidade, da entrega ao que interpreta, da musicalidade inata. A partir daí, passei a segui-lo nas redes sociais






Já este ano, tive a supresa de o ver cantar ao vivo, num concerto da sua irmã Luisa Sobral na Casa da Música no passado mês de Fevereiro. Toda a gente adorou. Uma surpresa encantadora.

Uma sonoridade linda, a voz flui e solta-se como instrumento de plena sensibilidade, entregando-se livremente à improvisação que o jazz lhe permite.





Salvador Sobral
créditos: Getty Images

Amar pelos dois, tema composto por Luísa Sobral, conquistou muitos, se não quase todos. A musicalidade do tema acústico é fascinante. E na voz de Salvador, torna-se quase sagrado.

São os versos límpidos desta poesia, o encanto perdido em cada palavra, em cada som, em cada apaixonada rima.

Já deu para entender que estou apaixonada pelo tema e por Salvador Sobral. Pela voz, pela alma que desnuda quando canta, pela simplicidade, pela espontaneidade quase infantil.


Mais, admiro a sua postura perante a exposição mediática que olha com humildade. E até aproveita para fazer um apelo humanitário em nome dos refugiados na Europa.


E admiro a sua rejeição de expor a doença que só hoje compreendi de imensa gravidade. Uma vida jovem presa por um fio. Terrível. 

E olhar para Salvador com aquele seu jeito aparentemente despreocupado. A esperança no olhar. A tristeza que aparece mesmo sem querer. A imensidade do talento. Inato. Arrebatador. Enternecedor.







Quando o oiço cantar Amar pelos Dois, voo até à voz de Elis Regina. Inesquecível. Duas sensibilidades tão sui generis. 

Salvador deixa transparecer toda a musicalidade que lhe advém da audição e aprendizado dos grandes nomes do jazz, como confessa com admiração estampada no brilho do olhar.


A música vai de alma para alma! É um sentir que vem bater-nos em cheio. Penetra mansamente no mais recôndito do nosso ser!


A musica é a alma por excelência! É a expressão mais libertadora de todos os sentires que nos enchem. Música é alma em toda a essencialidade! É eternidade! Espiritualidade!

Amar pelos Dois é alma. Autêntica a intenção de nos tocar. E toca.

Salvador Sobrala sua equipa abdicaram do aparato cénico. Um pequeno círculo colocado no meio do público. Um despojamento estético lindo. único intérprete que não cantou no enorme palco, mas no meio dos espectadores. 

As imagens de Lisboa. A Bica, a livraria Ler Devagar, as tonalidades em azul-noite lindo. Laivos de verde. Vida. 


As luzes desligaram-se e o público ligou os telemóveis, iluminando o único intérprete, suponho, que cantou na sua língua. A nossa língua portuguesa. 







Salvador Sobral
créditos: Autor não identificado

Fez-se silêncio. Soaram as cordas, o piano, e o poema feito de palavras. Doce. Nostálgico. Destemperadamente deslumbrante.

A voz e a capacidade de reinventar a interpretação de Amar pelos Dois em cada actuação. Nada em Salvador e na sua voz é normal, medíocre, desinteressante. Tudo é beleza pura.

Fechar os olhos. Deixar-se levar no encanto pendente, na emoção sentida, quase que a querer agarrar o destino, na dor do desencontro, e sentir a imensa vontade de nunca deixar de sonhar.

Não vou debater a originalidade do texto musical. É óbvio que tudo hoje é criado pelo reinventar do que já foi escrito. Mas a musicalidade é intemporal. E tão deliciosa.

Posso parecer parcial. Afinal música é um acto de magia muito próprio que vai directo à nossa alma. E esta vem de encontro à minha. Um bem haja Salvador Sobral.


Miosótis (pseudónimo)


10.05.2017

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Saturday, April 08, 2017

Voltando a casa com flores de miosótis






A time to love twirl and dance

É bom regressar a casa, em dia tão primaveril quanto este. E regressar a casa, refere-se a regressar a este espaço digital que passou a ser meu esconderijo perfeito. 

A vida parece aqui mais tranquila. Os pensamentos, esses aquietam-se, deixando fruir das palavras sem amarras. Como os pássaros da Primavera que já rondam há alguns dias em volta desta janela bem alta.

Acordei. Respirei avidamente o ar que irrompia e trazia acalmia. Corri para a varanda. Ah! A Primavera voltou.

Uma aragem deliciosa bateu-me no rosto. A cor azul-bebé do firmamento envolveu meu olhar. Inspirei até a fundo do meu ser. A vontade de sorver as fragrâncias de um tempo que se compromete duradoiro, acariaciador. Bem estar. Divino planeta.

Atraída pela cor azul em contraste com o verde que se faz já um pouco por todo o espaço envolvente. Aromas campestres, na cidade. Essenciais.

Sensações repousantes, puras, como preces, leves.




Myosotis azorica

Inundados os olhos de litanias, a vida chamou-me. Entrei, e fui preparar meu pequeno almoço. Enquanto saboreava o café da manhã, de novo na varanda, abri uma rede social e deparei-me com uma notícia da Quercus, vinda dos Açores.

Foram descobertos "vários exemplares de Não-me-esqueças (Myosotis azorica), uma das plantas mais raras dos Açores e que em todo o mundo apenas pode ser encontrada neste arquipélago, nas ilhas das Flores e Corvo". Não havia registos desde 2001, segundo SPEA.

Voei de novo até à minha infância quando minha mãe que adorava as flores de miosótis me enfeitava os cabelos com um pequeno ramo de miósotis. 

Mas não queria que a melancolia se abatesse sobre meus sentimentos. Não. Sacudi a cabeça polvilhada de sentires, naquele espaço suspenso na infância. 

E levantei os olhos cor-de-canela. O céu estendia-se por cima da minha cabeça, cor das flores de miosótis azuis. Entreguei-me ao universo por algum tempo. Survi, mais uma vez, todos os sentires imersos na paisagem.


Miosótis (pseudónimo)

08.04.2017
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