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Saturday, March 13, 2021

Vem aí a Primavera com a flor da ameixieira !


 


Flor da ameixieira (baika)

 テーマ:花と自然


"Quando a velha ameixeira se abre, de repente, surge o mundo das flores desabrochando. No momento em que surge o mundo das flores desabrochando, a primavera chega.

Há uma única flor que se abre em cinco pétalas. Nesse momento de uma única flor, há três, quatro e cinco flores, centenas, milhares, miríades, bilhões de flores –flores incontáveis. Essas florações não são guarnecidas de um, dois ou incontáveis ramos da velha ameixeira. 

Uma flor de udumbara e flores de lótus azul são também um ou dois ramos das flores da velha ameixeira. Florescer é a oferenda da velha ameixeira.” 

Eihei Dogen, (永平道元)
in Plum Blossoms (Baika) 1200-1253
tradução do japonês medieval





Um velho tronco de ameixeira
pintura: Kaz Sensei

Eihei Dogen, budista japonês, e meste zen diz que quando o velho tronco da ameixeira, retorcido e envelhecido floresce, mesmo que ainda seja Inverno, ao vermos a flor da ameixieira, compreendemos que a Primavera está a chegar.

A flor da ameixieira (baika) brinda-nos com o poder da vida, ao sobrevivermos ao Inverno. Liberta uma fragrância pura, após suportar o ascético frio de Inverno, e enche-nos a alma de esperança e luz.

A doce e delicada flor da ameixeira aparece no final de Janeiro ou Fevereiro, meses antes da flor de cerejeira (sakura). Lembram? Outra floração simbólica.

No filme O Último Samurai há uma passagem alusiva a sakura, de grande significado. O renascer para além da morte.

Mas voltando a baika. Ao contemplarmos a flor da ameixieira vem-nos logo a imagem da Primavera. A nossa mente sente que a Primavera rompe do Inverno, como tentando libertar-se dos momentos mais sombrios. Tal como nós.

Este maravilhoso ensinamento zen, que de forma sucinta nos transporta ao nosso íntimo mais sensível, deve ser contemplado em toda a sua profundidade. 

Eihei Dogen em Plum Blossoms (baika) transmite-nos no néctar da sua beleza poética, um ensinamento meditativo delicado. O momento zen.

Que, em todos os momentos, tenhamos a força de romper com o Inverno que este ano foi tão rigoroso em tantos aspectos. E despertemos nossa mente para algo de belo que se aproxima.  

Sintamos que a Primavera com a sua luz e força, está em nós! 

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

13.03.2021
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Friday, January 29, 2021

Continuo por aqui em tempo sombrio

 



Lembras-te quando era tudo diferente, 1975
Ana Hatherly*


"Criar é organizar, lutar contra a potência do espírito desordenado. Criar beleza é opor a graça à força caótica da fealdade. [...] a beleza se acha confundida na desordem do caos que se mistura ou se misturou à criação divina. [...] Quem sabe se o caos não é se não a memória dos homens, a sua multiplicidade, as diferenças abissais que separam uma alma de outra e todas do conhecimento supremo. Esquecemos?"

Ana Hatherly, excerto A beleza e o caos
in 57, ano IV, n.° 9, Lisboa, Set. 1960, p. 6 e 10.


Espírito desordenado... Tempo feio. Triste. Macilento. Chuva. Chuva. Sempre chuva. Não posso ir  à varanda. O silêncio fica por trás da janela, olhando um horizonte sufocante de  nevoeiro. Observo as plantas que vão morrendo nos vasos. Flores derramadas pela tijoleira, espalhadas, sem vida. Tudo mudou depois daquele Estou por aqui.


O Inverno tem descido rigoroso. Pesado. Já basta não se poder sair de casa. Nem há horizonte para se mergulhar o olhar. Só nuvens espessas, embrenhadas no nevoeiro. 


Se por um lado obriga as pessoas a ficarem em casa, por outro, a vitamina sol faz falta. E a tristeza, o desconforto descem.


Bem gostaria de estar na varanda a olhar o mar lá longe em dias de horizonte limpo. Luminoso. Mesmo com Sol de Inverno.


A minha rua está cheia de carros estacionados, adormecidos, como que sem dono. Não há crianças nas ruas. Nem por trás das janelas. Não há os risos de adolescentes, vozes de adultos. Silêncio absoluto na praceta. 


Não vejo a luz ao fundo do túnel perdida no nevoeiro denso que não deixa vislumbrar um pouco de azul. Como criar beleza sem azul?


Inspiro-expiro, 1959-1969
Ana Hatherly*

Gosto muito de estar em casa. Adoro o meu cantinho, tiro proveito dele, faço o que me apetece. E por vezes nada. Não tem sido fácil.


Lá me entrego ao meu treino dentro de casa. A minha prática de yoga. Não posso deixar que a falta de vontade supere o que tanto gosto de fazer.


Venha o Sol, meu Deus! Criação divina.


Miosótis (pseudónimo)


28.01.2021

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* Obras de Ana Hatherly sem referência de origem.

Friday, December 25, 2020

Cinema como sonho em final de 2020

 


New York

créditos: Vivienne Gucwa

https://viewing.nyc/

Pensava eu, há quase um ano, por esta altura de Natal, estar confiante no novo ano que se adentrava, poucos dias depois.

Pensava eu, sinceramente, que 2020 iria ser um ano cheio de coisas positivas.

Pois é. Mas estava enganada. 2020 ficará, sem dúvida, inscrito na história da Humanidade. Por motivos não positivos.

Um ano que ninguém esquecerá. Um ano de receios, incertezas, tristeza para muitos. Luto para tantos outros. 

Nunca pensámos algum dia viver, o que só conhecíamos de filmes de ficção científica. 

Um ano que nos pôs à prova. Um ano que, no meio da insegurança, da ansiedade gerada pela solidão a que fomos  obrigados, nos deu a esperança que o ser humano iria mudar para melhor. Mas não. Na sua maioria.

Comparável a um raio de sol que fura a tempestade, e nos engana, pensamos que está tudo bem. De repente, o raio de sol se esconde. E o temporal vem. Com mais força.

Foi um ano que testou os nossos limites, a nossa capacidade de adaptação, a nossa resiliência.

Foi um ano de perdas para muitos. Mas de reinvenção para outros.

Não me devo queixar. Não fui afectada pela pandemia, graças ao ente superior que nos rege.

Continuo a ter a minha família bem. E eu também. 

Foi um ano que reforçou a minha coragem, clareza. Resiliência.

Foi o primeiro ano sem praia, sobretudo sem mar. Oh! Tristeza!

Foi um ano sem cinema. Um dos meus hobbies favoritos. 

De repente, pus-me em Nova Iorque! Sentada imaginariamente, neste banco tão cinematograficamente conhecido. Filmes de Woody Allen. 

E deixei correr o fio da vida, das pequenas coisas boas que frui, apesar de tudo, ao longo de 2020.  Da beleza que podemos ver em tanta coisa à nossa volta. 

E, num toque de magia, a neve tombou docemente na paisagem. Em Nova Iorque.


Miosótis (pseudónimo)


25.12.2020

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Saturday, December 09, 2017

Rosas de Dezembro





December



"God gave us memories that we might have roses in December."

J. M. Barrie

E entrou Dezembro. De repente se fez frio. E o firmamento se mostrou carrancudo. Deixou de nos aquecer o olhar. Vestem-se agasalhos. 

Cada espaço envolvente é mais árido, mais frio. Transformam-se as emoções em pequenas partículas de chuva, suaves, escondidas na mancha cinza-rato. A paisagem até há dias azul, luminosa, acolhedora, desapareceu.

Deu-se, agora sim, o início de uma nova estação. O Inverno. A natureza já está em hibernação. Os pássaros não se ouvem. As gaivotas, aqui nascidas, dificilmente voltam.

As árvores nuas. As iluminações de Natal tentam dar-lhes cor e algum movimento. 

Depois do café bem fumegante da manhã, olho lá fora. Já sinto falta dos retalhos verde-esperança. 

Os dias são curtos. Tristes. O peso das nuvens sente-se. Desapareceram aqueles cambiantes amarelo-ocre, vermlhos-tijolo e castanhos-terra. Era Outono. Agora tudo é cinzento. Voltou o Inverno.

Os sons já não entram, trazidos pelo cântico da brisa. Dezembro, mês de  eternidade. Dezembro recolhe com seu manto os seres frágeis. E já foram alguns, os que partiram. Rosas de Dezembro.

Miosótis (pseudónimo)

08.12.2017
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Saturday, March 05, 2016

Desligue-se o Inverno !






A bird flies amid plum blossoms in a garden in Wuxi
credits: Xinhua / Barcroft Media


Por favor desliguem o Inverno. E façam a chuva parar ! Deixem irromper o sol. 

Qual pássaro livre, quero voar rumo ao horizonte. O que me guiará? O desejo de encontrar um lugar onde possa dar asas à minha imaginação. 

Primeiro a medo, depois corajosa, quero construir um lugar só meu. Escavarei meus queixumes, importarei meus anseios. 

E vou erguer a alma, bem alto, lá no céu azul, onde nuvens brancas flutuantes me darão guarida, sempre que precisar de decansar minhas asas de aventura.

Mas também tenho os jardins. São lugares que prendem o coração. As recordações se reunem ao ritmo dos aromas.

Gosto de jardins. Alguns me deixam sonhar. Aqueles espaços que nos levam a murmurar: Sinto-me bem aqui!

Quem não teve um jardim público ou privado? O meu jardim de infância era um roseiral, de deslumbrante beleza que meu pai cultivava com mãos de artista. Minhas memórias de família estão lá presas.

Instantes de devaneio, fragmentos de poesia. Embora não seja poeta. 

Apenas um pássaro que tenta romper o silêncio, tão docemente, que não chega a ser ouvido.


"Votre âme est un paysage choisi!"

Paul Verlaine, Aphorisme


©Miosótis (pseudónimo)


05.03.2016

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Sunday, January 19, 2014

Paisagens de Inverno






Pitões das Júnias | Montalegre 
créditos: António Cunha





Serra | Montalegre 
créditos: António Cunha





Serra | Montalegre 
Foto: António Cunha


"depois do Outono, o inverno por que eu esperava;
a neve crepuscular em que vivemos há alguns dias tornou-se o fundo da minha incerteza por eu não saber o que cabe (...) em mim; "

Maria Gabriela LLansol, Contos do mal errante

Não, desta vez o inverno não entrou de repente. Há muito se instalou. O branco tem pintado as paisagens mais altas, espalhando em silêncio este branco-anilado, recortando a paisagem local. 

O azul nem sempre se abre. Permanece muito mais embrulhando nas nuvens plúmbeas. 

Eu olho, sob o impulso de viver. E quando os ventos frescos sopram, névoas invadem a minha nostalgia das noite quentes.

Sinto os aromas do frio agressivo que não tem poupado a cidade. Não neva. Mas faz frio. Desaconchegante.

O ar gélido pairou o dia inteiro e desceu pela noite. Tanto frio. As luzes ilumninaram-se, cobrindo a armosfera que se exibe lá fora. Sei que o frio não fundirá o gelo.

E se vos disser que o pássaro sem primavera teima em chilrear pela madrugada, quando a chuva não o fustiga com braveza? Bem pela madrugada. 

Ilusão? Não! Posso garantir que ele vem, algumas noites, mal se adentrou Janeiro.


"Já estou calma. Não menos triste; 
tentar dizer o que uma coisa é, é viver;"

Maria Gabriela LLansol, contos do mal errante,
edições rolim, 1986

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

19.01.2014
Copyright ©2014-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 


Sunday, November 30, 2008

Brancos olhares






Mões - Castro Daire
Fotografia: Paulo Martins





Mões - Castro Daire
Fotografia: Paulo Martins
http://noticias.sapo.pt

Na erva, em tapete de geada branca,
as árvores despidas, iluminadas de luar.


Wang Wei, Pensamentos numa noite de Inverno
Gosto do Verão, indubitavelmente!


E por mais que admire a luxúria dos tons outonais ou a ascese dos tons invernosos que se expandem em sobressalto aos ventos frescos destas estações, eu não consigo fazer frente ao desconforto de um tempo frio, húmido, escurecido, quase sem sol.

Até as tonalidades das folhagens, do firmamento suave tantas vezes acariciador, se desvanecem perdidas, correndo contra as cores plúmbeas de um inverno grosseiro e fosco que não convida ninguém ao deambular sereno em fim de tarde, preso à brisa e à luz dos últimos raios esmaecidos.

Repentinamente, a neve baixou sobre as terras altas. E a beleza natural das paisagens é tão intensa que calei meus queixumes perante o esplendor de tais cenários!

Suspendo o olhar! Na noite fria, aconchego-me no sofá, em frente às vidraças batidas pela chuva que se solta abundante em toques ritmados. E sonho...

"Os sonhos aconteciam, pois, até o sonho cair dentro da vida."

Teolinda Gersão, O Silêncio








Miosótis (pseudónimo)


fragmentos brancos em noite de inverno, som de Ennio Morricone, Cinema Paradiso.


01.12.2008
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