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Saturday, March 05, 2016

Desligue-se o Inverno !






A bird flies amid plum blossoms in a garden in Wuxi
credits: Xinhua / Barcroft Media


Por favor desliguem o Inverno. E façam a chuva parar ! Deixem irromper o sol. 

Qual pássaro livre, quero voar rumo ao horizonte. O que me guiará? O desejo de encontrar um lugar onde possa dar asas à minha imaginação. 

Primeiro a medo, depois corajosa, quero construir um lugar só meu. Escavarei meus queixumes, importarei meus anseios. 

E vou erguer a alma, bem alto, lá no céu azul, onde nuvens brancas flutuantes me darão guarida, sempre que precisar de decansar minhas asas de aventura.

Mas também tenho os jardins. São lugares que prendem o coração. As recordações se reunem ao ritmo dos aromas.

Gosto de jardins. Alguns me deixam sonhar. Aqueles espaços que nos levam a murmurar: Sinto-me bem aqui!

Quem não teve um jardim público ou privado? O meu jardim de infância era um roseiral, de deslumbrante beleza que meu pai cultivava com mãos de artista. Minhas memórias de família estão lá presas.

Instantes de devaneio, fragmentos de poesia. Embora não seja poeta. 

Apenas um pássaro que tenta romper o silêncio, tão docemente, que não chega a ser ouvido.


"Votre âme est un paysage choisi!"

Paul Verlaine, Aphorisme


©Miosótis (pseudónimo)


05.03.2016

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Sunday, June 15, 2008

Tarde de chuva em tons rosa-acinzentado




Jacquelyn Martin
/AFP 2008

http://news.yahoo.com/photos

E ela abriu a janela, espreguiçou-se languidamente, aspirou em profundas sorvedelas, os aromas que subiam do rio cintilante e daquelas árvores frescas, fragrantes, coloridas em tons rosa-bombom, em jeito de orla veneradora do deslumbrante cenário aberto, sereno, ondulante, imenso, à sua frente.

O céu estava tranquilo, nuvens soltas como flocos de branco algodão-doce deslizavam sobre o imenso horizonte e seus olhos quedaram-se absortos, como que invadidos por aquela acalmia universal que vinha depositar-se em si, esparsamente. E então...

Mergulhada de frente
p'ra minha alma solidão,
vejo passar as nuvens soltas
leves brancas translúcidas
como meu coração.
Meus olhos vestidos
de um céu rosa-pastel claro

aquele rosa-claro pastel

com que sempre me cubro

quando contigo sonho!

E são tantas tantas as vezes
que me quedo no infinito

azul celeste.



foto: António Paulo (2006)



Ficção em dia de intransigente silêncio, quando o firmamento vestido de pardo inverno e lacrimoso tempo se transmuta para escorraçar meus pensamentos.

O cheiro a nostalgia dispersa-se no ar húmido e chuvoso. E assim, permaneço selada, trancada, sem espaço ao sonho e ao universo.

Se o vento ignora o meu sentir por que sopra cenários serenos, imaculados, diluídos nos sons das gotas minúsculas que teimosamente caem desse céu que deveria estar engalanado de tons quentes numa tarde de quase verão?!~

Miosótis (pseudónimo)
(reescrito a partir de um mote, 18.08.2005)



fragmentos em tarde chuvosa

15.06.2008
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Wednesday, April 05, 2006

Aromas de Primavera





créditos: Omar Torres|AFP
https://news.yahoo.com/photos/


"O perfume do sonho envolvia-a, debaixo do
docel de folhas da árvore," (...)

Luisa Dacosta, O Perfume do Sonho, na Tarde, Ed. Asa, 2004

Ontem, cheirei a Primavera!


Saí já tarde, depois de ter passado o dia enclausurada numa espécie de capela, de amplos tectos e sombrios espaços frios.

O sol apenas batia nas janelas altas, de onde vislumbrava pedaços de azul por entre os ramos de uma magnolia branca completamente em flor.

Sempre que levantava a cabeça para respirar, o ar que me chegava em jeito de lufada fantasiada pela força do espaço austero, fechado, visivelmente pintava em meu olhar o mar... ali tão perto! Liberdade! Nostalgia! Azul!

Alguns cantos alegres de pássaros eclodiam em meus ouvidos! Aí me refugiava, distanciando-me do vozear em surdina como gralhas sem asas que se amontoavam em meu redor!

Finalmente pus o pé fora do edifício, passavam poucos minutos das seis da tarde.

A luminosidade a que já me desabituara, depois de um inverno tão austero e gélido, bateu-me em cheio na alma! Calor?! Sol?! Cheiro a terra e flor?!

Parei! E olhei o firmamento azul claro, da cor de miosótis! Estava belo, sedutor, apetecível ao toque sereno e frágil de dedos de pétalas inundados de poesia.

Sorvi cada pedacinho de ar morno, cálido. Em passo largho, aspirava com profundo e requintado prazer. O final de tarde pairava à minha volta, tal flor perfumada e desperta pelo odor das ondas quentes, trazido em pequenas lufadas de aragem em festa ritmada e bafo solto.

Tudo ali ao alcance da mão e do olhar!

"Fica sentado aí onde estás, Poeta,
e não mexas os lábios nem os braços" (...)

Sebastião da Gama, Poesia, Serra-Mãe, Ática, 1996


Miosotis (pseudónimo) ©2006

fragmentos da noite com aromas de poesia, pairando nas palavras soltas

5.04.2006
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Sunday, February 12, 2006

Sonhos em noite de lua





foto: Fethi Belaid/AFP



Da minha janela, vizinha do firmamento, assisti ao nascer do sol!


Ao longe o mar, envolto em névoas esparsas, irisadas, espraiavam-se em ritmo largho de movimentos sonolentos, feiticistas!


As últimas estrelas faziam lucilar seu oiro-prata num azul aguado e o perfume da noite desfragmentava-se em mil aromas!

Temendo sobressaltar os seres de alma vagueante, absortos e perdidos tantas vezes de seu caminho, envoltos de de aspirações delicadas não vividas, o Sol abriu a porta do hemisfério, muito de mansinho...

- Assustaste-me! Não dei pelo passar da noite! - exclamei ainda na fronteira do sonho e do sono.

- Vim fazer-te companhia... Sentemo-nos ainda um pouco! Tenho uma surpresa para ti! Abre as tuas mãos para eu depor nelas o meu presente! Vê tu mesma...

- Para mim?... mesmo para mim?!

Na minha mão um pássaro! Seu peito desenhado em penas de um vermelho quente.

- Parece um coração...



- E é um coração... o meu! Cheio de amor por ti! Trouxe-o para que ele possa poisar na noite terna dos teus cabelos de nuvens brancas irisadas em raios de oiro!


Então, sacudi meus cabelos com doçura! E o sol afogou sua luza ternura cálida que apagava todas as imagens. Fechou-se também o sonho da mulher que, finalmente adormeceu.


Miosótis (pseudónimo)
©texto original

fragmentos da manhã de um outro dia, 11 Fev. 2006
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