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Saturday, December 09, 2017

Rosas de Dezembro





December



"God gave us memories that we might have roses in December."

J. M. Barrie

E entrou Dezembro. De repente se fez frio. E o firmamento se mostrou carrancudo. Deixou de nos aquecer o olhar. Vestem-se agasalhos. 

Cada espaço envolvente é mais árido, mais frio. Transformam-se as emoções em pequenas partículas de chuva, suaves, escondidas na mancha cinza-rato. A paisagem até há dias azul, luminosa, acolhedora, desapareceu.

Deu-se, agora sim, o início de uma nova estação. O Inverno. A natureza já está em hibernação. Os pássaros não se ouvem. As gaivotas, aqui nascidas, dificilmente voltam.

As árvores nuas. As iluminações de Natal tentam dar-lhes cor e algum movimento. 

Depois do café bem fumegante da manhã, olho lá fora. Já sinto falta dos retalhos verde-esperança. 

Os dias são curtos. Tristes. O peso das nuvens sente-se. Desapareceram aqueles cambiantes amarelo-ocre, vermlhos-tijolo e castanhos-terra. Era Outono. Agora tudo é cinzento. Voltou o Inverno.

Os sons já não entram, trazidos pelo cântico da brisa. Dezembro, mês de  eternidade. Dezembro recolhe com seu manto os seres frágeis. E já foram alguns, os que partiram. Rosas de Dezembro.

Miosótis (pseudónimo)

08.12.2017
Copyright ©2017-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Sunday, September 17, 2017

Um dia de domingo em Setembro







E voltou Setembro. Despeço-me com tristeza do verão. A minha estação favorita. Não aprecio o Outono, apesar das tonalidades lindas que nos traz. 

As manhãs estão muito mais frescas, embora o solinho ainda ande por aqui. As noites já pedem um agasalho.

De manhã, acordei com a ideia de dar um passeio, mas ao sair para a varanda, um arrepio me percorreu. Que frio! Nem pensar em tomar pequeno almoço na varanda, como me habituara.

Voltei para dentro. Preparei alguma fruta. E fiz então uma curta prática de Ashtanga yoga.

Sinto-me bem logo pela manhã a praticar yoga. Aproximo-me da janela. Abro-a. Respiro profundamente. Inspiro, expiro com lentidão. Fecho os olhos, deixo o pensamento passar sem o deter. Até que ele quase se esfuma.

Medito um pouco, conecto-me comigo, com a minha respiração. Então numa das dessas inspirações, dei comigo a ter consciência da enorme gratidão pelo momento.

Gratidão por poder respirar. Gratidão por ter saúde. Gratidão por poder observar as manhãs. 

Gratidão, por ver o sol no céu dando inicio a mais um dia. Dando inicio a mais uma oportunidade de Ser.  

Gratidão por ter Tempo. Gratidão por poder sentir o calor do sol, mesmo que mais ténue. Gratidão por poder observar as gaivotas que definitivamente vêm fazer seus ninhos na cidade, nos nossos telhados. Os pássaros voltam ao entardecer. E â noite ouvem-se entre o arvoredo.

Ao longo dos dois últimos meses assisti ao nascer, crescer, aprender a voar de duas crias de gaivota. Um casal de gaivotas veio aqui poisar seu ninho. Os filhotes ganharam asas para a liberdade, mesmo em frente aos meus olhos. Gratidão por ver. Eram o meu bom dia! 

Até que quase no final de Agosto, tomaram o rumo da liberdade. Fiquei grata por elas.

E depois sim. Preparei pequeno almoço, primeiro ritual, fruta. Enquanto se prepara a máquina para um bom café. Bom, o aroma do café que perdura. 

Sentei-me a degustar o meu pequeno almoço. Enquanto isso, fui passando os olhos por algumas redes sociais. Ler notícias do dia. E visitar alguns amigos virtuais ou não. Fiz zapping por alguns instantes.

E andei por aí. Agora no final de tarde, com o sol a entrar pela janela virada para o arvoredo que persiste e bem, reflicto.

Por vezes, queremos muito algo, ficamos presos a isso. E não nos apercebemos que a vida nos traz muitas outras coisas. Aprendi isso e cada vez mais, nestes últimos dois anos. 

A perda de familiares, de amigos, em circunstâncias dolorosas me fizeram tomar a vida de outro jeito.

A alegria de encontrar um grupo de prática de Ashtanga yoga ao ar livre num jardim público, onde reinava a serenidade e o arvoredo entre pássaros e pavões, trouxe-me a cura energética que parecisava, depois daquele triste acontecimento de Julho

Fiquei grata ao grupo, à oportunidade que me foi dada de o encontrar, de partilhar momentos de muita serenidade, bem estar, paz.

Se confiarmos no Universo, as coisas que se cruzam no nosso caminho, são sempre melhores do que pensámos! 

Aceito as leis do Universo. Aceito que existe um plano maior para nós. E deixo fluir a Vida e o que ela te traz no momento.

"A vida não está por ordem alfabética como há quem julgue. Surge... ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são miga­lhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém?"

António Tabuchi, Tristano Muore, 2004

Miosótis (pseudónimo)

16.09-2017
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Monday, February 08, 2016

Feliz e aupicioso Ano Novo Lunar : tradições






Ano do Macaco de Fogo
créditos: Wang Haibin/ZUMA Press/Corbis
Começou hoje o Ano Novo Lunar. O Novo Ano, regido pela lua, encerra uma grande carga simbólica, pelo que dele fazem parte elementos com profundo significado. 

Um exemplo é o caracter fú (em chinês ) que significa bênção, felicidade. 

Este caracter é, com frequência, colocado nas entradas das casas, em vermelho, sendo usualmente pendurado de cabeça para baixo. 

O Novo Ano Lunar vem sob o signo do Macaco de Fogo. Promete trazer emoções fortes e mudanças repentinas. 

Curioso, inteligente e amigável, estas são algumas das características do Macaco no horóscopo chinês. 
Segundo li, o período regido pelo Macaco de Fogo é de muita sorte, boas energias, boas oportunidades a quem planta o bem. 

Símbolo chinês do Macaco

O Macaco de Fogo é justo e cumpre o que está traçado na vida das pessoas. Logo, é necessário termos cuidado com o que andámos a plantar. 

Celebra-se a Festa da Primavera ou Festa das Lanternas. As festividades começam hoje e prolongam-se por quinze dias. 

Elementos ancestrais estão ligados a esta celebração.

A antiga tradição da Árvore dos Desejos, sinónima de boa sorte e fortuna. Diz a lenda que pendurar suas esperanças para o novo ano na árvore dos desejos, é incentivar que nossos sonhos se tornem realidade.

A cor vermelha é uma constante nas celebrações Novo Ano Lunar. É uma cor vibrante, traz sorte, afugenta os espíritos malignos. 

Os chineses e outros povos orientais acreditam que a cor vermelha afugenta os espíritos malignos e a má sorte e, por isso, escrevem poemas e mensagens em papéis vermelhos e colocam em diferentes partes da casa. 



Lanternas vermelhas
creditos: Feng Li/Getty Images

Também as lanternas vermelhas, símbolo maior da festa da Primavera, e os ornamentos doirados, cor que simboliza a riqueza e abundância. 

Com o vermelho, o doirado é também usado nesta altura do ano, na esperança de que o novo ano traga riqueza, sorte, esperança e abundância de comida e dinheiro. 



Golden silver 2016

visita aos templos, é o momento de recolhimento e fé. Incensos gigantes são queimados, acompanhando as orações, pedidos de boa sorte e agradecimentos aos deuses. 

Séculos de existência, inúmeros mitos e tradições, esta é a mais longa e importante festividade do calendário lunar chinês. 

Tudo isto encerra uma certa mística que respeito. Gosto de tradições milenares que a sabedoria oriental encerra.

Os rituais são gestos que aprecio. Pratico alguns. Luzes, aromas,  incensos, preces de silêncio.

Novo Ano Lunar com energias muito auspiciosas acaba de chegar

De lanterna apagada
estrelas frescas
deslizam pela janela.

Natsume Sôseki
in Haiku Uma Antologia

Miosótis (pseudónimo)

08.02.2016
Copyright ©2016-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Saturday, May 31, 2014

Rendez-vous aux jardins... com literatura




Le Vallon des Poètes | Parc Floral de la Haute Bretagne

Des milliers et des milliers d'années
Ne sauraient suffire
Pour dire
La petite seconde d'éternité
Où tu m'as embrassé
Où je t'ai embrassée
Un matin dans la lumière de l'hiver
Au parc Montsouris à Paris
à Paris
Sur la terre
La terre qui est un astre.

Jacques Prévert, Le Jardin


Num dia lindo como o de hoje, só poderia escrever sobre jardins, flores e pássaros. Esplendoroso sol, depois de uma manhã semi brumosa, despertou em mim um espaço de 'zenitude' que me levou a escrever. Melhor, partilhar uma ideia que se pratica em França há alguns anos.

Passemos então a admirar jardinsneste sábado luminoso, céu azul tão claro que quase se funde no branco enevoado do horizonte.

Pressente-se a tranquilidade nestes espaços coloridos como telas pinceladas pela natureza, e por mãos que encerram encantamento e amor pela natureza. Espaços onde a serenidade parece estar sempre presente.



foto : Jardin des Paradis
 Association Cordes développement

Há algo de maravilhosa sedução neste apreço pelos jardins. É como que uma natureza acarinhada. Acto e sentimento muito louváveis.

E lembrei quando escrevi Contemos os pássaros do jardim. Tratava-se de Fête de la Nature (2010) que descobrira havia poucos dias. Nesse ano, a actividade mais cativante era Comptons les oiseaux dans les jardins ! Cheguei a propô-la aos amigos deste blogue. E eu própria me dediquei a contar os pássaros que por aqui rondaram. Foi um ano delicioso. Muitos pássaros esvoaçaram por perto.




A Fête de la Nature 2014 já decorreu entre os dias 21 e 25 Maio. Foi criada em 2007 com o objectivo de celebrar a natureza. 

A Fête de la Nature celebra-se desde ai, todos os anos em Maio, numa data próxima do dia 22 Maio. E por que razão este proximidade com o dia 22 ? Por se tratar do Dia Internacional da Biodiversidade.




Fête de la nature 2014 | Mission Coquelicots

A edição deste ano, a 8ª edição, tinha por tema Herbes folles, jeunes pousses et vieilles branches A actividade mais atractiva? Poderia ter sido MissionCoquelicots. Dupla finalidade: assinalar a floração das papoilas para melhor compreender as alterações climáticas !

Não lhe ficaria indiferente, claramente. As papoilas são a minha flor silvestre preferida, as oscilações climáticas preocupam-me.





Jardins de Roquelin | DR
https://fbcdn-sphotos-d-a.akamaihd.net/

Decorre então agora um outro evento tão envolvente quanto o anterior : Rendez-vous aux jardins 2014

Este ano, na sua 12ª edição, Rendez-vous aux jardins começou ontem 30 Maio,  e continua até 1 Junho. O tema L'enfant au jardin, faz todo o sentido. Numa época em que as crianças andam muito pouco ao ar livre, é sempre bem vinda uma iniciativa que as traz de novo para o meio da natureza.


As actividades são muitas, já que se estende por toda a França. E os mais raros espaços verdes abrem-se a todos os visitantes. Alguns só estão acessíveis durante o evento. O programa poderá ser lido aqui.



Le jardin potager | Château de Miromesnil

Um dos jardins que me cativou de imediato, na base da imaginação que a Internet nos permite, já que nos abre as portas a eventos e locais, alguns dos quais não poderemos visitar em espaço real. Mas o espaço virtual, esse passou a fazer parte das nossas viagens.



Château de Miromesnil | Les Amis de Miromesnil

Falo do  Jardin potager du Château de Miromesnil (Haute-Normandie) onde facilmente me perderia na contemplação da beleza.

Qual a razão ? Foi no Château de Miromesnil que nasceu em 1850, o escritor Guy de Maupassant. Considerado um dos criadores do conto moderno. Escreveu mais de 300 contos, seis romances, notícias e outros textos. 

A sua obra mais conhecida, o romance Bel Ami foi publiado folhetim, em 1885. Tantos outros escritores praticaram este tipo de publicação no século XIX. 


"Et, dans la suite des temps, ceux qui ne le connaîtront que par ses œuvres l'aimeront pour l'éternel chant d'amour qu'il a chanté à la vie."

Émile Zola



Bel-Ami conta a história de um ilustre desconhecido que, com muito oportunismo, bem ao estilo arrivista, mesclado de muito descaramento, consegue conquistar Paris e ser aceite pela sociedade da época.


Bel Ami 2012

Um romance que poderia situar-se bem nos dias de hoje. Talvez por isso, tenha sido adaptado ao cinema por Declan Donnellan, Nick Ormerod. Foi exibido na 62ª edição do International Berlin Film Festival 2012, fora de competição. Trailer a ver aqui

Bom, mas entre soljardins e literatura fui divagando. Saborosa esta divagação tão cheia da exuberância dos jardins. Foi uma viagem encantadora entre jardins e literatura.



Rendez-vous aux Jardins 2014 por culture-gouv

Nada melhor do que um dia de sol para nos fazer planar para além do usual estado d'alma. Acho que todos nós sentimos isso.

Fica então o convite virtual para Rendez-vous aux jardins !

"Lorsque les premiers beaux jours arrivent, que la terre s'éveille et reverdit, que la tiédeur parfumée de l'air nous caresse la peau, entre dans la poitrine, semble pénétrer au coeur lui-même, il nous vient des désirs vagues de bonheurs indéfinis, des envies de courir, d'aller au hasard, de chercher aventure, de boire du printemps."

Guy de Maupassant, Au Printemps, extrait conte
mai 1881, éditions Havard

Miosótis ( pseudónimo)

31.05.2014
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Sunday, January 19, 2014

Paisagens de Inverno






Pitões das Júnias | Montalegre 
créditos: António Cunha





Serra | Montalegre 
créditos: António Cunha





Serra | Montalegre 
Foto: António Cunha


"depois do Outono, o inverno por que eu esperava;
a neve crepuscular em que vivemos há alguns dias tornou-se o fundo da minha incerteza por eu não saber o que cabe (...) em mim; "

Maria Gabriela LLansol, Contos do mal errante

Não, desta vez o inverno não entrou de repente. Há muito se instalou. O branco tem pintado as paisagens mais altas, espalhando em silêncio este branco-anilado, recortando a paisagem local. 

O azul nem sempre se abre. Permanece muito mais embrulhando nas nuvens plúmbeas. 

Eu olho, sob o impulso de viver. E quando os ventos frescos sopram, névoas invadem a minha nostalgia das noite quentes.

Sinto os aromas do frio agressivo que não tem poupado a cidade. Não neva. Mas faz frio. Desaconchegante.

O ar gélido pairou o dia inteiro e desceu pela noite. Tanto frio. As luzes ilumninaram-se, cobrindo a armosfera que se exibe lá fora. Sei que o frio não fundirá o gelo.

E se vos disser que o pássaro sem primavera teima em chilrear pela madrugada, quando a chuva não o fustiga com braveza? Bem pela madrugada. 

Ilusão? Não! Posso garantir que ele vem, algumas noites, mal se adentrou Janeiro.


"Já estou calma. Não menos triste; 
tentar dizer o que uma coisa é, é viver;"

Maria Gabriela LLansol, contos do mal errante,
edições rolim, 1986

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

19.01.2014
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