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Sunday, August 15, 2021

Verão atípico. Procuro a liberdade no campo !

 



créditos: Herman Wessel


No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
(,,,)

Alberto Caeiro, No entardeceder dos dias de verão
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"

Um verão tão atipico com este, não lembro. Não fora só a pandemia. Também o tempo no norte não condiz com a época estival.

Dias de sol, como o de hoje, sol aberto, acariciador na pele, têm sido muito poucos. 

E as noites, nevoeirentas e húmidas. Sempre necessário um agasalho leve. Reconfortante.

As pessoas, este ano, fogem para o campo. Sim, turismo no campo é, sem dúvida, o mais agradável. Tranquilidade. Brisa suavemente quente, noites mais cálidas. E céu aberto. Sem nuvens. Bem brilhante e cheio de estrelas.

Não há o mar. Eu sei. O mar faz-me falta. O cheiro da maresia, O suave ondular resplandecente em dias de verão, como o de hoje.

Mas temos a água dos rios que correm com lentidão e suave som. Música intemporal, natural.

Não sou fã de praias fluviais. Nem vou até lá. Mas sim, temos a piscina do ambiente turístico. E a música dos pássaros, logo pela manhã e ao final da tarde.

Também temos as árvores. Sombras verdes, amistosas. 

Adoro as árvores. São acolhedoras, quase nos abraçam com suas hastes flexíveis cujo leve movimento, é música doce que invade suavemente o nosso cérebro. Relaxante.

Tivemos as Perseides, esta semana! Estamos em Agosto. A mais impressionante e bela chuva de estrelas que o firmamento nos oferece. E nada melhor do que o céu campestre para apreciar esta chuva estelar deixada para trás por um cometa há muitos anos. Semelhantes a estrelas cadentes. 

Sim, este ano, vou de férias para o campo. Sem esquecer um ou dois livros que sempre me acompanham. 

Paz. Serenidade. Ouvir-me por dentro. Respirar. Sem máscara, quando distanciada.

Miosótis (pseudónimo)

15.08.2018
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Sunday, March 21, 2021

E no Dia Mundial da Poesia

 



Blue bird tulips
Robbin Rawlings


E há poetas que sãp artistas

XXXVI

 

E há poetas que são artistas

E trabalham nos seus versos

Como um carpinteiro nas tábuas!...

 

Que triste não saber florir!

Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro

E ver se está bem, e tirar se não está!...

Quando a única casa artística é a Terra toda

Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

 

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira.

E olho para as flores e sorrio...

Não sei se elas me compreendem

Nem se eu as compreendo a elas,

Mas sei que a verdade está nelas e em mim

E na nossa comum divindade

De nos deixarmos ir e viver pela Terra

E levar ao colo pelas Estações contentes

E deixar que o vento cante para adormecermos

E não termos sonhos no nosso sono.


Alberto Caeiro, E há poetas que são artistas, O Guardador de Rebanhos,

in  Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa, Ática, 1946 (10ª ed, 1993



Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores


21.03.2021

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Saturday, December 30, 2017

Novo Ano : em dias de luz perfeita !





créditos : Casa


Ano Novo! O que é? Uma convenção calendarizada? Ou um ritual ancestral que faz nascer em nós a esperança de um ano mais feliz? 

Tentamos, então, renovar a nossa caminhada, pedindo ao Sol para seja bem luminoso, nesse novo dia que se abre à meia-noite, e que tudo transforme para melhor.

No entanto, é simplesmente mais uma meia-noite que bate as doze badaladas. E cada badalada, a renovação da nossa secreta esperança. 

Pedimos, seguindo a tradição, e a nossa fé mais intimista, um desejo a cada uma das badaladas com vagas de uva ou de româ. Nesses desejos incluimos o agradecimento das coisas boas que atravessaram o ano 2017, e tentamos esquecer, nem que por segundos, os acontecimentos que nos feriram.

Somos pequenas nuvens que se movem levadas pela briza, ou pelo orvalho das manhãs de Inverno.

Que os nossos sonhos sejam briza doce que nos levam mais alto. Que nunca percamos esse imenso dom. Sonhar. 

Que ao começar a tomar notas no livro em branco do Novo Ano, possamos dar relevância à beleza das pequenas coisas que talvez se tranformem em sonhos. E que, ao encerrá-lo no final do ano que vai entrar, sorriamos do balanço harmonioso.

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas. (...)

Alberto Caeiro, Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Bom Ano Novo !

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

30.12.2017
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Monday, November 30, 2015

De Fernando Pessoa






Fernando Pessoa
créditos: Casa Fernando Pessoa, 2013

Pessoa, o poeta imortal, partiu há 30 anos, neste dia 30 Novembro 1935. Faz então oitenta anos. Mas Fernando Pessoa está cada vez mais presente numa obra inesgotável.

"I know not what tomorrow will bring". 

Pessoa escreveu esta frase no dia em que morreu, faz hoje 80 anos. 

Palavras de um outro desassossego pressentido? De uma vida cheia de livros, palavras e outros 'Pessoas' a habitar a cabeça do poeta. Palavras que esta noite se recordam na casa em que Pessoa morou nos últimos 15 anos da sua vida.

A Casa Fernando Pessoa assinala os "80 Anos da Morte de Fernando Pessoa e seus heterónimos" com Dias do Desassossego.




Bernardo Soares, ortónimo, é um dos meus mais íntimos companheiros de vida. Mas Alberto Caeiro, o heterónimo mais bucólico, tem sido a minha companhia nesta sagração de um Outono lindo, com laivos de verão. Doce. Luminoso. Sereno. Sol aconchegante.

Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas

Alberto Caeiro, Há Metafísica em Não Pensar Nada

Miosótis (pseudónimo)

30.11.2015
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Wednesday, April 10, 2013

Como um carícia !





Floresta
créditos: José Oliveira
https://www.facebook.com/joseoliveirajool

II

Está alta no céu a lua e é primavera. 
Penso em ti e dentro de mim estou completo. 

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira. 
Penso em ti, murmuro o teu nome não sou eu: sou feliz. (...) 

Alberto Caeiro

 
Ah! Finalmente a Primavera promete chegar! Como uma carícia! 

Há algum tempo que andava tristonha. Não escapei ao desalento, com a ausência do sol, dos dias serenos, das aragens acaraciadoras, como as que nos presenteou hoje. A Primavera.

O sol brilhou desde a manhã, o céu cobriu-se de azul-claro, intenso, as folhas das árvores espreguiçaram-se mais verdes, e de longe, um ou outro pássaro ouviu-se.

Verdade! meu pássaro-cantador, anunciador da Primavera, passou por aqui há algumas semanas. Tentou uma ou duas madrugadas alertar-me para a Primavera. 

Mas o frio, a chuva, o fustigou tanto, que ele se retirou. Ele e outros que tentaram sobrevoar estes espaços também partiram para paisagens menos inóspitas.

Estou então airosamente prazerosa! Basta um olhar a sul para libertar toda a ansiedade que se acumulou nestes longos longos meses de Inverno. 

Já limpei as folhas secas das poucas flores que me restam, e aguardo que, com a atenção e o carinho prestados hoje, quer por mim quer pelo sol, elas despontem alegremente, de novo. 

E abram suas flores, vistosas, e se deslumbrem com as temperaturas tépidas, para inundar os dias de cores garridas, surpreendendo-nos com aromaterapias soltas da paisagem. 

Então, aguardo. Quem sabe meu pássaro-cantador não muda de rota e passa de novo pela minha janela?

Com o final de tarde a poisar-se sobre os vidros semi-abertos das janelas, vou escrevendo, impressões de Primavera, fruindo dos raios de sol que se espalham ainda, luminosos, pela mesa de trabalho Para que não esqueça que hoje, a Primavera prometeu voltar.

Assim deixo, neste final de dia, o testemunho encantador da simbologia de um novo tempo. A Primavera desceu sobre a cidade.


II 

(...)
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelos campos,
E eu andarei contigo pelos campos a ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Mas quando vieres amanhã e andares comigo realmente a colher flores,

Isso será uma alegria e uma novidade para mim.


Alberto Caeiro, Está alta no céu a lua e é primavera, 
O Pastor Amoroso, 
in Poesia, Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001*



Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da tarde com aromas de flores

14.04.2013

Copyright ©2013-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®


*Referência:

Casa Fernando Pessoa



Thursday, June 07, 2012

Não basta a janela !





créditos: JQuental 

Tenho um pássaro cantador! Sim! O pássaro que anuncia a Primavera. Mas até ele anda espaventado e fugidio. Ainda há duas noites voltara, depois de longos dias silencioso e distante. 

Na noite de quase Lua Cheia, quente, aromatizada de ervas frescas, lá veio alegre, esbanjador de trinados soltos. Acordei, e quedei-me a ouvir, sorrindo,  aquele canto fresco que cheirava a dia quente! 

E eis que de novo, hoje, a chuva e o vento o escorraçaram do sítio onde ele poisa, bem perto da minha janela, levando consigo o sorriso leve que em mim desperta e me leva ao esquecimento de alguns cuidados.

Noite carrancuda, mesquinha, malfazeja que me não deixa abrir de par em par a porta que dá para a varanda. Nela florescem em abundância algumas flores e se estende uma vasta panorâmica sobre a cidade. Em noites serenas, vive nas luzes que salpicam a paisagem.

Logo este ano, os gerâneos (pelargonium) estão lindos! Exuberantes! E na pequena mesa de jardim onde gosto poisar uma vela citronella, em noites tépidas, sento-me na cadeira de ripas de madeira, aspirando o aroma da tisana, enquanto o olhar percorre a paisagem. E esquecida da tisana, tantas vezes, por ali fico largos momentos. Hoje não!

Não, não tenho um jardim, tenho apenas uma varanda suspensa na paisagem, que gosto de enfeitar com coloridas flores, mal desponta a Primavera anunciada pelo meu pássaro cantador. Meu canto recatado, poisado sobre a cidade, onde os aromas que se desprendem dos gerâneos se misturam com os sons da noite.

Cerro a persiana, corro os cortinados, e lastimosa, aguardo que o sol reapareça amanhã. E com ele traga a alegria desse pássaro encantador que teima em visitar-me todas as primaveras.

(...)
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Alberto Caeiro, Não basta abrir a janela, Poemas Inconjuntos
in Poesia Assírio e Alvim, ed, Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

Miosótis (pseudónimo)

07.06.2012
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Saturday, September 15, 2007

Utopias de um sonho





Fotografia: Shizuo Kambayashi/AP 2007


Há imagens que nos seduzem de rompante! Olhámos e já está! É como que mergulhar no nosso próprio "eu" translúcido, sereno ou agitado. Estamos lá tão completamente que nem temos tempo de nos distanciarmos o suficiente para discernirmos.




Fotografia: Manan Vatsyayana/AFP 2007


http://news.yahoo.com/photos


Mas, o que é discernir? Racionalizar, analisar, recuar, travar o que nos vai na alma? Então deixa de ser afecto, passa a sensação ou mesmo nada, se inteiramente recusado.

Sim, eis que os meus sentidos apprenderam sòsinhos:

As cousas que não teem significação: teem existência.

As cousa são o único sentido occulto das cousas.


Alberto Caeiro
, O Guardador de Rebanhos, XXXIX


E lá ando eu mergulhada, deambulando vezes sem conta, revendo em cada cambiante de cor um recanto de minh' alma! E assim viajo, transito, espraio-me com languidez, sem pressas nem brusquidão, deixando refrescar cada pedacinho do meu ser, tão sufocado no dia a dia

Mais um ser solitário, no meio de tantos outros, sempre em busca do paraíso perdido, do lenitivo da alma gémea. Utopia de um sonho!

Afinal a Vida é tão pouco, o Ser é quase nada, só lhe resta mesmo o deambular pela Alma!


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite, Confortably Numb, Pink Floyd

16.09.2007


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Friday, July 21, 2006

Fragmentos da noite com flores : um ano








A Verdade

Tu és bonita.

Tu és feita de sol.

Eu amo-te.


José Luís Peixoto, A Casa, a Escuridão, Temas & Debates, 1ª ed. Outubro de 2002


Um ano passou, desde a noite de 21 de Julho 2005 em que iniciei este meu espaço mais intimista. E foi assim...

Fiquei preso a ti pelos teus olhos doces, um pouco tristes, pelo teu sorriso do tamanho do mundo. 

Pedro Paixão, Ladrão de Fogo, Prime Books, 1ª ed., Abril 2005

Do mesmo livro, retirei a inspiração para a frase de apresentação que escrevi. Corresponde ao que pretendia e continuo a querer passar de mim.

Atravessava um desespero feito de mágoas que deixaram marcas desalentadas na alma.

Um ser que amava partiu em grande sofrimento, apesar da luta guerreira que travei para o agarrar à vida. Não quis! Desistiu. E, no entanto, fora um inigualável lutador toda a sua vida!

Um amor verdadeiro, sereno, infinito, escrito na memória dos tempos afastava-se. Aí, parei! Deixei de escrever. Calei.

Sofri em mim, comigo passearam , à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram fazendo-o, o que as almas foram e ninguém disse - de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar.


Bernardo Soares, O Livro do Desassossego, ed Ática, 1ª ed., 1982

Até que de mansinho, com a lentidão própria das almas recatadas, fui escrevendo alguns sentires.

Guardo a minha privacidade, bem precioso! É a minha essência! Não quero abrir mão.

Vamos deixando palavras que escolhemos para escrever, excertos que seleccionamos para exprimir alguns estados d'alma, imagens que visualizam a sensibilidade que nos toca. Deixamos, sem querer, passar pequenas résteas do que somos e do que sentimos.

São as impresssões digitais feitas de centelhas de sentimentos, afectos que teimamos resguardar, mas a força maior emanada da luz interior faz-nos soltar reflexos das fragrâncias do ser que somos. 

Transmitem a inteligência, as vivências, os afectos, mesmo que transfigurados. E, como tal, seja qual for a época e as circunstâncias, o importante é o pensamento que se solta, que reflecte a personalidade do ser.


Certo é. Não tento ser ou mostrar-me diferente do que sou, não forjei um arquétipo para fazer sonhar quem passa.

Tudo o que deixei entrever, eu Sou!

Vivo de utopias sim! E sou sempre eu, apesar das travessias de desertos. Longos.



Mesmo sabendo que o mundo acabaria amanhã, plantaria hoje a minha macieira.

Lutero, Sonhar! Ter fé! Helen Exley Giftbook, Editorial Estampa, 2002


Não quero terminar sem agradecer from the bottom of my heart a todos aqueles que poisaram palavras e o olhar em "fragmentos da noite com flores"


aos que deixaram suas pegadas ou não


aos que me dedicaram palavras de beleza sem par porque brotadas da alma


aos que me acolheram carinhosamente em seus espaços


aos que me amam sem me conhecerem nos caminhos que percorro


ao ser que é a sombra de meu ser e que afectuosamente vem, de vez em quando, poisar 
versos, escritos nos silêncios das noites lua de prata


O amor é uma companhia.

Já não sei andar só pelos caminhos,

porque já não posso andar só.
(...)

Alberto Caeiro, O amor é uma companhia, O Pastor Amoroso
, 10-07-1937


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores, um ano, ao som de Ben Webster, Tenderly, Jazz Ballads, Membran Musics Ltd., 2004

21.07.2006

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Sunday, August 21, 2005

Fernando Pessoa & Heteronimia : Alberto Caeiro






O Poeta
caricatura: Costa Pinheiro


Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr-do-sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

(...)


E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

(...)


Saúdo todos que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva 8é precisa.
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.


Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, 8-3-1914

Ao Encontro de Fernando Pessoa, Antologia, Francisco Martins, 

Edições Asa, 1ª edição 1987

Miosótis (pseudónimo)

21.08.2005

actualizado 16.06.2024
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