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Wednesday, January 20, 2016

Não tem sido fácil...





Não tem sido fácil. Não, não tem sido fácil ser mais assídua no meu canto mais intimista. 

Já escrevi várias vezes em diferentes contextos. Não é só falta de tempo, é essencialmente uma definição do querer, não querer. O silêncio é mais presente nas minhas noites de Inverno. Pesado. Ensurdecedor.

Talvez esteja a fugir da causa mais profunda. O desaparecimento de afectos, de pessoas. A fragilidade de vidas por um fio.

Por muito que se queira olhar com um certo distanciamento, não está a ser fácil. A nossa afectividade está lá.

O Natal, essa época de paz, não trouxe mais apaziguamento. Revelou com maior incidência, a ausência das coisas, dos gestos, dos afectos que nos prendem às pessoas. Silêncios.

E trouxe também outos medos. Outras incertezas.

Ainda assim, quero voltar a estar aqui. E quero estar com mais regularidade. Não posso prescindir deste meu refúgio nocturno. Recolhimento.

De qualquer forma, posso sempre começar por dizer algo sobre alguns temas que se identificam com minha sensibilidade. É ir passando por este cais.

(...)

Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim, (...)

Álvaro de Campos, Ode Marítima

Miosótis (pseudónimo)

19.01.2016
Copyright ©2016-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 


Wednesday, April 10, 2013

Como um carícia !





Floresta
créditos: José Oliveira
https://www.facebook.com/joseoliveirajool

II

Está alta no céu a lua e é primavera. 
Penso em ti e dentro de mim estou completo. 

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira. 
Penso em ti, murmuro o teu nome não sou eu: sou feliz. (...) 

Alberto Caeiro

 
Ah! Finalmente a Primavera promete chegar! Como uma carícia! 

Há algum tempo que andava tristonha. Não escapei ao desalento, com a ausência do sol, dos dias serenos, das aragens acaraciadoras, como as que nos presenteou hoje. A Primavera.

O sol brilhou desde a manhã, o céu cobriu-se de azul-claro, intenso, as folhas das árvores espreguiçaram-se mais verdes, e de longe, um ou outro pássaro ouviu-se.

Verdade! meu pássaro-cantador, anunciador da Primavera, passou por aqui há algumas semanas. Tentou uma ou duas madrugadas alertar-me para a Primavera. 

Mas o frio, a chuva, o fustigou tanto, que ele se retirou. Ele e outros que tentaram sobrevoar estes espaços também partiram para paisagens menos inóspitas.

Estou então airosamente prazerosa! Basta um olhar a sul para libertar toda a ansiedade que se acumulou nestes longos longos meses de Inverno. 

Já limpei as folhas secas das poucas flores que me restam, e aguardo que, com a atenção e o carinho prestados hoje, quer por mim quer pelo sol, elas despontem alegremente, de novo. 

E abram suas flores, vistosas, e se deslumbrem com as temperaturas tépidas, para inundar os dias de cores garridas, surpreendendo-nos com aromaterapias soltas da paisagem. 

Então, aguardo. Quem sabe meu pássaro-cantador não muda de rota e passa de novo pela minha janela?

Com o final de tarde a poisar-se sobre os vidros semi-abertos das janelas, vou escrevendo, impressões de Primavera, fruindo dos raios de sol que se espalham ainda, luminosos, pela mesa de trabalho Para que não esqueça que hoje, a Primavera prometeu voltar.

Assim deixo, neste final de dia, o testemunho encantador da simbologia de um novo tempo. A Primavera desceu sobre a cidade.


II 

(...)
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelos campos,
E eu andarei contigo pelos campos a ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Mas quando vieres amanhã e andares comigo realmente a colher flores,

Isso será uma alegria e uma novidade para mim.


Alberto Caeiro, Está alta no céu a lua e é primavera, 
O Pastor Amoroso, 
in Poesia, Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001*



Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da tarde com aromas de flores

14.04.2013

Copyright ©2013-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®


*Referência:

Casa Fernando Pessoa



Sunday, September 09, 2012

Paisagens narradas




Vista para o mar | Costa do Oeste
Fotografia: Francisco Mendes


"Esse período pode ser muito reconfortante e melancólico. Reconfortante porque todas as lembranças e cicatrizes assentam, são processadas pela memória, narradas a nós próprios devagarinho, encontram um lugar na organização da cabeça. Melancólico exactamente pelo mesmo motivo. Esse é um período em que se contempla um tempo que, ali, se sabe com muita certeza que não voltará."

José Luís Peixoto, O vagabundo regressa a casa*


Depois de umas curtas férias pela Costa Oeste que não revia há algum tempo, eis-me de volta a este espaço que continuo a querer partilhar, embora com pouca assiduidade, eu sei.



Parque D. Carlos I
Foto: Miguel de Azevedo e Castro


Foi bom! Lugares 're'visitados trazem sempre à memória fragmentos de vida que guardamos. E apesar de vivermos num mundo em que informação é uma constante, o nosso cérebro, tal como o poeta escreve, processa essas lembranças. E cada olhar, som, aroma, despoleta de imediato a narrativa poética.

Percorri alguns locais, saltitei entre as imensas praias que esta costa nos oferece,  com paisagens deslumbrantes, quando vistas do alto, e algumas cidades que as autoestradas deixam longe do olhar.

 

Grande Auditório CCC | Caldas da Rainha




Pela foto, reconheceram de imediato Caldas da Rainha. Uma cidade que cresceu, sem dúvida. Um moderno Centro Cultural e Congressos que visitei,  sem ter acesso a este belíssimo Grande Auditório. Nenhum concerto estava agendado para esta época do ano.



Museu José Malhoa | Parque D. Carlos I


Rumei então até ao Museu José Malhoa perfeitamente enquadrado neste sereno e lindo parque, abrindo portas sobre o lago e mostrar a maior parte da obra do seu patrono, bem como uma colecção importante de pintura e escultura dos séculos XIX e XX. 

É considerado 'o museu do naturalismo português'. Como se pode constatar, não poderia a temática estar mais de acordo com o espaço onde se insere.

Para além da arte, dois aspectos dignos de realce, vindos, para mais, de um museu de 'província': a disponibilização de um vídeo com língua gestual portuguesa, bem como uma brochura em braille.



Mosteiro de Alcobaça
Foto: Autora© (via Android)

É evidente que não poderia deixar de voltar a Alcobaça, percorrer aquelas ruas estreitas, empedradas, bem medievais. E de revisitar o Mosteiro de Cister. Uma sensação de finitude, de recolhimento cai sobre nós. Como se num estado de contemplação meditativo, sem preces. 



Túmulo Dom Pedro | Mosteiro de Alcobaça
Foto: Autora©  (via Android)

Impensável não parar junto de Pedro e Inês. Interessante, jazia Pedro quase abandonado, enquanto Inês, estática, se via rodeada de um enorme grupo de turistas italianos que seguiam atentamente toda a história da infeliz Inês.



Senhora da Assunção | Mosteiro de Alcobaça
Foto: Autora©  (via Android)

Mas foi esta imagem que me deslumbrou. Poisada num dos pedestais laterais, quase por trás do altar central, sobressaia do peso da pedra que a circundava. Uma serenidade nos gestos, a beleza da madeira esculpida, a arte da estatuaria portuguesa do século XVII.

E foi tempo de regressar...

"A casa está exactamente como ficou. (...) Então, antes de desfazer a mala, apetece sentar no sofá, senti-lo. 
(...)

Então, a casa é mesmo casa. O corpo recupera segurança, (...) A casa é como aquele lugar em que não podíamos ser apanhados quando brincávamos à apanhada. A casa é como um abraço."

José Luís Peixoto, O vagabundo regressa a casa*


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

09.09.2012
Copyright ©2012-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®  

* Textos de José Luís Peixoto: blogue do autor

Licença Creative Commons

Saturday, August 13, 2011

Em noites de verão





Felicidade feita dos momentos, esses 'instantâneos' que a vida nos oferece como quem poisa em nós pedaços de ternura!

Silêncios, momentâneos, são bons, logo que saibamos partir de novo, sempre que sintamos que se podem tornar infinitos...

Afectos, pequenos bagos que vamos saboreando devagar para que perdurem.

Num 'tempo' de viagens há papéis e memórias! Efémeros somos, sim. E vamos ao reencontro de outros 'viveres'...




Tu entendes!

O amor eterniza, a alma avança. Pelo caminho, vamos aspirando a beleza do que alcançamos...


Seis anos se passaram desde que poisei as primeiras palavras, timidamente, neste espaço, em jeito de fragmentos ténues, quase esquivos.


Nas noites cálidas, gostava de me sentar aqui. O silêncio instalava-se na casa. Eu debruçava-me sobre o teclado  e, numa descuidada harmonia, deixava escorrer por entre os dedos fragmentos de curtos instantes, sob uma lua brilhante, cúmplice, como a de hoje.

O vento esta noite respira e sopra pela janela entreaberta. Lembra-me que não sou a única acordada. 

Ao longo destes últimos dois anos, essencialmente, tenho-me questionado com frequência, se devo continuar.

Por vezes, sinto que cheguei ao fim de uma passagem, mas outros momentos há que sinto vontade de continuar a vir refugiar-me neste secreto abrigo onde as harmonias, contradições, afectos se envolvem nas palavras cúmplices.

E continuo...

Miosótis (pseudónimo)

Fragmentos da noite com flores
13.08.2011

Copyright ©2011-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

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Monday, May 03, 2010

Fragmentos




Foto: Oleg Oprisco


Não se sabe como acontece, nem quando..[...] A vontade de anular todo o intervalo entre as coisas.

Pedro Paixão, Sem fôlego
 
Todo o Ser se encontra solitariamente contido no cabo bojudo dos dias de tormentas. E na dança dos gestos não contidos, ele avança sem véus  nem máscaras.

Todo o Ser espera com olhos levantados, muito para além do quebrar das fendas de seu âmago, pela acalmia em sabores de maresia musical.

Vibrações do tempo ora crescendo ora pianissimo que se espraiam pelos gestos soltos e desanuviadores de um corpo que grita sua alma  em aromas de jardins de sons intensos.

Fragrâncias onde a vida repousa e se abriga.


Te vi há quanto tempo? Não sei! A memória das coisas belas é esfrangalhada pelos intervalos da vida.


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores
02.05.2010
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Saturday, April 22, 2006

Dia da Terra 2006



Fotografia: 7-how-7 (USA)
Earthday 2006

http://www.flickr.com/photos/7-how-7


Pastoral


A terra inocente

abre-se ao ardor

de oiro de uma flauta

- será que o pastor

ou a primavera

desperta e se exalta?


Eugénio de Andrade, Escrita da Terra e Outros Epitáfios, 
Editora Limiar


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos no Dia da Terra


Copyright ©2006-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®