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Wednesday, January 20, 2016

Não tem sido fácil...





Não tem sido fácil. Não, não tem sido fácil ser mais assídua no meu canto mais intimista. 

Já escrevi várias vezes em diferentes contextos. Não é só falta de tempo, é essencialmente uma definição do querer, não querer. O silêncio é mais presente nas minhas noites de Inverno. Pesado. Ensurdecedor.

Talvez esteja a fugir da causa mais profunda. O desaparecimento de afectos, de pessoas. A fragilidade de vidas por um fio.

Por muito que se queira olhar com um certo distanciamento, não está a ser fácil. A nossa afectividade está lá.

O Natal, essa época de paz, não trouxe mais apaziguamento. Revelou com maior incidência, a ausência das coisas, dos gestos, dos afectos que nos prendem às pessoas. Silêncios.

E trouxe também outos medos. Outras incertezas.

Ainda assim, quero voltar a estar aqui. E quero estar com mais regularidade. Não posso prescindir deste meu refúgio nocturno. Recolhimento.

De qualquer forma, posso sempre começar por dizer algo sobre alguns temas que se identificam com minha sensibilidade. É ir passando por este cais.

(...)

Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim, (...)

Álvaro de Campos, Ode Marítima

Miosótis (pseudónimo)

19.01.2016
Copyright ©2016-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 


Monday, April 27, 2015

Ah! Mudem-se os tempos




 UNESCO world heritage site of Bhaktapur
Nepal
credits: Omar Havana/Getty Images


Ah, abram-me outra realidade!
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver, como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!

Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro da visões
Aos quatro ventos do Mistério.
O Norte — o que todos querem
O Sul — o que todos desejam
O Este — de onde tudo vem
O Oeste — aonde tudo finda
—Os quatro ventos do místico ar da civilização
—Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo

Álvaro de Campos, Ah, abram-me outra realidade
Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002

in Banco de Poesia, Casa Fernando Pessoa


Não sei o que escrever. Tanta desolação e luto

Mal refeita de uma dor, a dor do mundo. Um olhar sem pensamentos. 


A dor. A tristeza.


Pressentimento de almas ausentes em diferentes paisagens.


Nepal. Mar Mediterrâneo. Paz. Eternidade. Preces.


Ah! Abram-me outra realidade


Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores

26.04.2015

Copyright ©2015-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®


Wednesday, November 03, 2010

Escritos soltos






créditos: Mathias Schrader | AP 2010
via Yahoo.com photos


... eu adoro o final de tarde quando luminoso! É como que o recolher à nossa interioridade, o regresso ao nosso eu absoluto. E os aromas que se mesclam com mais intensidade, trazendo de volta tantas reminiscências... 


E a noite adentra-se e o estar de frente para nós fica translúcido! Como olhar a lua.

Serenidade!


(...)
Porque isto foi só um raio de luar e uma tristeza minha,
E uma suposição de outra coisa,
E o resultado de existir…

(...)


Álvaro de Campos, De la Musique
(17.09.1929)*



Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores
03.11.2010


Copyright ©2010-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®


Álvaro de Campos, De la Musique (17.09.1929)
in Poesia, Assírio & Alvim. ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Casa Fernando Pessoa, Banco de Poesia (digital)




Friday, April 23, 2010

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor 2010




Foto: Maureen Bisilliatt
Instituto Moreira Sales

(À memória de Soame Jenyns,
 lembrado depois do poema escrito)


Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despejam…

Depois de escrever, leio…
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…

Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?



Álvaro de Campos
18.12.1940

in 
Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002



No Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, um desejo profundo para que todos tenham o direito inalianável de Saber Ler num futuro muito próximo.

Miosótis (pseudónimo)


Fragmentos da noite, uma flor por um livro?

23.04.2010
Copyright ©2010-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®


Tuesday, March 23, 2010

O pássaro que anuncia a Primavera !






Beija-flor de topete 
créditos: JQuental (Br)
http://jquental.multiply.com



Começa a haver meia-noite e a haver sossego,
Por toda a parte das casas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida…

Vai tudo dormir…

(...)

Todos os anos, um pássaro-cantor ouve-se da minha janela, mal começa o anoitecer! Que estranho! Tinha ideia que os pássaros só cantavam à luz do raiar do dia, em finais de tarde quentes, com suaves tons azul rosado mesclados de  fiapos de nuvens arrumando-se no firmamento.

Mas este pássaro-cantor reaparece sempre por esta altura, anunciando-me com a sua  exuberante ária a Primavera! 

E eu emudeço, desdobrando-me em mil cuidados, aproximo-me de mansinho, abro num gesto tranquilo, quase terno, a janela, e páro!

Faço um silêncio profundo, mando calar meus tumultuosos pensamentos, e emudecida, imersa em fragrâncias soltas, doces, deixo os meus sentidos inundarem-se daquela melodia cristalina, trinada em tom maior. À noite! E sorrio!

Sorrio de ternura pelo pássaro-cantor que me traz de volta a Primavera. E sorrio de encantamento!

A ternura mescla-se com o encantamento de ter a capacidade de estacar ao som do canto do (meu) livre pássaro, anunciador da Primavera.

(...)
Fico sozinho com o universo inteiro.
Nem quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anti-citadino!...


(...)

Sim, vivo na cidade... no campo! Lembro quando vim para este lado da cidade! Faz alguns anos, fugia do bulício de uma rua barulhenta onde os pássaros não poisavam, apesar de haver árvores! 

Todos os anos, o meu pássaro-cantor reaparece e este silêncio musicado toca-me! Vem aí a Primavera!

(...)
Vai tudo dormir…

Só eu velo, sonolentamente escutando…

Esperando
Qualquer coisa antes que durma…

Qualquer coisa…

Álvaro de Campos, Começa a haver meia-noite e a haver sossego
9 - 8 - 1934 
in Poesia, Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002


... um pássaro me anuncia a Primavera! O (meu) pássaro-cantor! A paz que há nos campos em volta da minha janela citadina, refugia-se em minh'alma! 

O universo debruça-se sobre a cidade longínqua de luzes tremulares. Doces momentos nocturnos. 

Vem aí a Primavera!


Miosótis (pseudónimo)

texto original, 23.03.2010

Copyright ©2010-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 

fragmentos de um pássaro-cantor nas noites em que as flores começam a desabrochar na pequena varanda virada para a imensidão da paisagem nocturna. 


*PoesiaÁlvaro de Campos, Começa a haver meia-noite e a haver sossego
9 - 8 - 1934 
in Poesia, Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002

Sunday, January 11, 2009

Noites de Inverno ouvindo jazz






credits: Vivienne Gucwa
O Melodioso Sistema da Universo

O melodioso sistema do Universo,
O grande festival pagão de haver o sol e a lua
E a titânica dança das estações
E o ritmo plácido das eclípticas
Mandando tudo estar calado.
E atender apenas ao brilho exterior do Universo.



Álvaro de Campos
27 - 11 - 1914

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002

... e porque nestes últimos tempos, não consigo escrever, deixo o que me dá prazer, apesar de todos os contratempos e mordaças. Ler, silêncio oculto, ouvir música.


Esta semana, Patricia Barber acompanha-me... Snow é o tema!






fragmentos da noite, serenos, fugazes, numa gelada madrugada, em que a lua se mostra luminosa companhia.


Miosótis (pseudónimo)


11.01.2009
Copyright ©2009-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®