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Sunday, September 01, 2024

Chegou Setembro ? Tão cedo !

 




When the winds of change blow... 


As asas da mudança sopram serenamente, Talvez mais serenamente do que as asas de Agosto. Ventosas em extremo.


Mas é verdade que Setembro já sopra melancolia. E eu deixo-me levar sem lutar contra essa melancolia que me arrasta inflexivemente para outras asas mais penosas. Inverno.


Só consigo pensar que o Inverno aí vem. Triste, escuro, e frio. Não gosto do Inverno.


Procuro todos os pedacinhos de luz que vão sendo mais escassos. A noite cai com muita pressa. 


Neste final de tarde que traz aromas outonais,  o sol ainda tenta resistir - depois de uma manhã cinzentona - mas já vai desmaiando em reflexos prateados sem cor definida. Neutra. Sem aquelas tonalidades esfuziantes.


Quieta, medito sem meditar.


E reescrevo os versos do meu poeta... deixou-nos este ano. No silêncio.


Em Setembro a contrução do ser torna-se mais fácil:
o outono, com a sua melancolia, empresta um estranho
perfume de terra ao espiríto.

excerto de "A contrução do ser"

Nuno Júdice, 
Cartografia de Emoções, 

Publicações Dom Quixote, Lisboa 2001, 1ª edição


Miosótis (pseudónimo)

01.09.2024
Copyright ©2024-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®



Sunday, March 17, 2024

Morreu o meu Poeta !



via Google Images Archive



O meu poeta morreu. O meu poeta de uma linguagem lírica intimista e de profunda introspecção que saboreava em cada poema seu. Se percorrerem este blog, a maior parte da poesia que talvez encontrem, é de Nuno Júdice.


Nuno Júdice. A sua poética transborda de aromas escritos feita de sentimentos que tantas vezes nos percorrem lá no fundo da alma. Não transparecem assim tanto nas nossas palavras, mas o olhar deixa-os fugir, por vezes.  


O meu poeta partiu sem pré-aviso, deixando-me quase orfã dos seus versos poético-melancólicos, reflexões meditativas, algo românticas, feitas de sobriedade e lirismo.





Cartografia de Emoções

Nuno Júdice

Publicações Dom Quixote, 2001


Cartografia de Emoções foi desde sempre o meu livro de cabeceira, juntamente com o Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. 

Leio, releio, salto versos, busco o que no momento me pede o coração...


E hoje, só me apraz reescrever...


Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.(...)


Nuno Júdice, Princípios 


Miosótis (pseudónimo)


17.03.2024

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Saturday, December 30, 2017

Novo Ano : em dias de luz perfeita !





créditos : Casa


Ano Novo! O que é? Uma convenção calendarizada? Ou um ritual ancestral que faz nascer em nós a esperança de um ano mais feliz? 

Tentamos, então, renovar a nossa caminhada, pedindo ao Sol para seja bem luminoso, nesse novo dia que se abre à meia-noite, que tudo transforme para melhor.

No entanto, é simplesmente mais uma meia-noite que bate as doze badaladas. E cada badalada, a renovação da nossa secreta esperança. 

Pedimos, seguindo a tradição, e a nossa fé mais intimista, um desejo a cada uma das badaladas com vagas de uva ou de româ. Nesses desejos incluimos o agradecimento das coisas boas que atravessaram o ano 2017, e tentamos esquecer, nem que por segundos, os acontecimentos que nos feriram.

Somos pequenas nuvens que se movem levadas pela briza, ou pelo orvalho das manhãs de Inverno.

Que os nossos sonhos sejam briza doce que nos levam mais alto. Que nunca percamos esse imenso dom. Sonhar. 

Que ao começar a tomar notas no livro em branco do Novo Ano, possamos dar relevância à beleza das pequenas coisas que talvez se tranformem em sonhos. E que, ao encerrá-lo no final do ano que vai entrar, sorriamos do balanço harmonioso.

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas. (...)

Alberto Caeiro, Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Bom Ano Novo !

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

30.12.2017
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Sunday, June 18, 2017

Portugal, eu choro !








Fogo florestal centro Portugal
créditos: Miguel A. Lopes/ Expresso






Fogo florestal centro Portugal
créditos: Miguel A. Melo/ EPA



A paisagem cobriu-se de cinza. Há silêncio. O céu está de luto. A alma chora do que vai vendo. É o luto.

Tão calmo está o firmamento. Pesado. Nem parecem nuvens de fumo. Apenas morte.

Não paira vento, não há céu azul. Os pássaros que das árvores circundantes calaram seu chilrear.

Tudo em mim chora. A natureza reza.


A morte chega cedo, 
Pois breve é toda vida 
O instante é o arremedo 
De uma coisa perdida.

(...)

 E tudo isto a morte 
Risca por não estar certo 
No caderno da sorte 
Que Deus deixou aberto. 


Fernando Pessoa, A Morte Chega Cedo
in Cancioneiro


Miosótis (pseudónimo)

18.06.2017
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Monday, April 27, 2015

Ah! Mudem-se os tempos




 UNESCO world heritage site of Bhaktapur
Nepal
credits: Omar Havana/Getty Images


Ah, abram-me outra realidade!
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver, como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!

Depois encerrem-me onde queiram.
Meu coração verdadeiro continuará velando
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro da visões
Aos quatro ventos do Mistério.
O Norte — o que todos querem
O Sul — o que todos desejam
O Este — de onde tudo vem
O Oeste — aonde tudo finda
—Os quatro ventos do místico ar da civilização
—Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo

Álvaro de Campos, Ah, abram-me outra realidade
Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002

in Banco de Poesia, Casa Fernando Pessoa


Não sei o que escrever. Tanta desolação e luto

Mal refeita de uma dor, a dor do mundo. Um olhar sem pensamentos. 


A dor. A tristeza.


Pressentimento de almas ausentes em diferentes paisagens.


Nepal. Mar Mediterrâneo. Paz. Eternidade. Preces.


Ah! Abram-me outra realidade


Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores

26.04.2015

Copyright ©2015-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®


Tuesday, March 18, 2014

Entre paisagens e poesia




Queens | New York
foto: Carlos Esteves

O quieto resplendor do azul sobre este cais mítico despoleta em mim a corrente poética que atravessa.

Será pelo amanhecer? Apenas uma figura humana dando um sentido emocional. 

Tantos os filmes que fazem de Gantry Park quays Queens o lugar privilegiado de muitas das cenas, quase sempre de amor. Nem sempre felizes.

Falar de amor? Não, não vou falar de amor. Fica bem aos poetas.

Falo sim de sonhos. Eu sei. Poetas sonham. Mas não sendo poeta, também tenho sonhos.

É sonho meu este de conhecer Nova Iorque. Percorrer o cais, amorosa maravilha, ali, sentar-me num tranquilo banco, só de poetas.

Influências ! O cinema tem um lugar mágico na minha vida. Como que um ritual que me mantém viva e em harmonia com o meu mundo real. Infinitamente.

Não nego. O cinema despertou-me o sonho de visitar Nova Iorque. E Queens imprescindível peça desse imaginário. Uma pura emoção original.

Seria a constelação do meu sorriso. E a eternidade a meu lado.


Mas sabem-no, no limiar do impossível.

Noites assim, sabe bem sonhar. Noite calma, lua cheia. Sonhos. Com  Gantry Plaza State Park, Long Island, Queens.

Il ne faut au poète
que le chant pur de son ignorance
pour prendre audacieusement
mesure de toutes les distances.

Natália Correia, Inéditos V, (1955-1957)

Miosótis (pseudónimo)

18.03.2014
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Saturday, March 08, 2014

Dia Internacional da Mulher : Elas





créditos: Autor não identificado
via Google Images


Hoje, 8 Março, Dia Internacional da Mulher, as mulheres celebram os avanços feitos no feminino a nível económico, social e político. Mas as estatísticas ainda revelam dados preocupantes de desigualdades.

Elas

Elas
iludem as escurezas
dos rostos
a negrura das nódoas

do corpo

Desatam os nós que lhes
atardam, atam e algemam
a alma e os pulsos

Conversam entre si
coisas de enredo
lançam Luz nos recantos

das vagas

Trocam receitas de venenos
murmuram palavras escusas
desejos inolvidáveis

«Oh, que dureza ruim!
Ataduras e debruns
missanga de muita estrela

Cassiopeia, raízes
sangrantes
das próprias veias»

Elas
inventam a mata
na clareira assombrada
embrenhadas na vigília

recriam, criam, dominam

Viram pombas, profetisas
com uma alvura de cera
pálidas rosas da China

«Oh, tormenta amendoada
solidões e desespero
enquanto de madrugada

Cavam, enterram, devassam
pespontando com o riso
as dobras de calamento»

Elas
bradam, elas buscam
sibilas e amazonas
emudecem as camélias

e as roseiras nervosas

Feiticeiras ardilosas
filhas da harmonia
partilham as tempestades

derrubam, suturam, fiam

«Oh, doçuras sigilosas
no aço do destempero
de incêndios e desesperos

Virados pelo avesso
a paixão e a razão
entre si tão divididas»

Elas
recusam, derrubam
dominam as próprias vidas
com a sua inteligência

Tornam-se donas do tempo
a semearem agruras
pelos meandros do vento

Maria Teresa Horta
Lisboa, 8 de Março 2014


Neste dia, o poema que a poetisa dedica as todas as mulheres !


Feliz Dia para todas !


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos do dia com flores

08.03.2014
Copyright ©2014-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Sunday, July 14, 2013

Palavras como flores




©Foto: MC



Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?
[...]

Natália Correia, Ricochete


Há dias em que me canso das palavras e me fecho em retiros de silêncios !



Corrida a cortina evanescente, desenrolo com um gesto ténue os pensamentos. E deixo fluir. Lentamente. Como quem vê a paisagem rolar.


Por nevoentos espaços eu vagueio nesta noite, e transfiguro o meu imaginário turbulento, inquieto. Ao som das pausas, rasgo caminhos equidistantes, buscando as sonoridades de minha alma.

Aromas de litanias vão chegando e me envolvem no mistério de meu ser. E poiso os pensamentos. Devagar.


Sei que a vida não chega para o sentimento. Apago então as estrelas que se atrevem a cintilar e calo a voz que na alma quer cantar.


Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores


13.07.2013
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Tuesday, May 07, 2013

Poesia na paisagem





«Não há-de voltar o verão em que ouvi
cair os ramos naquele bosque de fetos
e eucaliptos; nem o pássaro que por
um instante apagou o sol voltará a
cantar antes de se perder no horizonte. (...)


Nuno Júdice, Nós*


Poderia colar-me a estes versos de Nuno Júdice. O verão não pensa mesmo em voltar, este ano.

O sol raramente brilha, o céu cobre-se de cinza-pardo, quão difícil tem sido à luminosidade furar a intensa bruma, as folhas das árvores nem se espreguiçam para melhor mostrar seu verde-água-fresco e de longe a longe, um ou outro pássaro teima em chilrear nas madrugadas bem frias.

Meu pássaro-cantador, anunciador da Primavera, não voltou. Com mágoa minha. Ele me traz poesia.


O tempo!  Talvez que o poema nos faça entender com a alma o tempo! Mas temos quase sempre pressa em fruir melhores dias, instantes mais doces, aromas frequentes, sons de alegria. Como o do meu pássaro-cantador. 

Mudam-se os tempos, é verdade,

mas não mudamos quando o tempo
corre por entre nós com a sua lenta
música, e num abraço o perdemos
para que o tempo corra sem tempo.(...)

Nuno Júdice, Nós*




Tordo-músico

Não! Meu pássaro-cantador não voltou. Seria um tordo-músico? Mas que encantador! Saber que existem tordos-músicos! Desconhecia.

E mesmo nos poucos dias que se fizeram luminosos, cheios de sol e azul, o tordo-músico não voltou. Fez bem! Pressentiu que a Primavera não passaria por aqui, este ano.

Em seu lugar, ao final da tarde, quando o tempo se faz aprazível, os melros-pretos espalham-se pelos espaços verdes que me rodeiam, saltitando nos relvados em busca de algum alimento. Não lembrava tantos melros-pretos na cidade. Paravam mais pelos campos.

Gosto de os ver! Diz-se que anunciam que o tempo quente vai chegar. Não tem sido o caso, mas fruo desses instantes e olho-os com afecto. Porque aguardo que o verão se adentre, mesmo tendo desviado a primavera.

(...)
Assim, os nós que o tempo desata
com os seus dedos são os nós que
nos prendem, e com os dedos do verão
os fazemos atar-nos mais ainda,
soltos nós que nesse nó nos solta a voz.


Nuno Júdice, Nós (excertos)

in Fórmulas de uma luz inexplicável, Dom Quixote 2012


Foi este tempo contemplativo verbalizado em palavras escritas, um tributo a Nuno Júdice. Um  dos poetas portugueses que cito com muita frequência neste espaço. 



Nuno Júdice | O Estado dos Campos
Dom Quixote, 2003

Nuno Júdice foi recentemente galardoado pelo conjunto da sua obra com o "Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana", um dos mais apetecidos galardões das Letras.

"Vai dar projecção à minha obra, mas mais importante que isso, mostra que a poesia portuguesa continua a ter um papel importante neste contexto [ibero-americano]",

Nuno Júdice, Lusa


Mas o poeta tem já livros traduzidos em  Itália, Inglaterra e França. E a obra de Nuno Júdice já foi distinguida com vários prémios. Um deles, ser finalista do Prémio Europeu de Literatura (1994).

Muito mérito, o deste poeta! E tanta poesia.

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da tarde com flores

09.06.2013
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Sunday, December 23, 2012

Natal com flores de macieira





Matt Cardy | Getty Images


É Natal! E que escrever? Que Natal acontece? Ando por aqui. Os dedos poisam no teclado. Paralisados.

Nas noites o silêncio faz-se ainda mais profundo. Percorro as palavras, busco sons, oiço risos de crianças? Não! Nos espaços que percorro, só oiço crianças que choram. O meu país já não tem crianças alegres.

E Natal não é para as crianças? Pois eu então quero falar de crianças. O mundo cresce de maneira anárquica, quase perversa. E as crianças não têm nele um lugar bem definido.

Mães que não são mães. Arrastam crianças como fardos, indiferentes, descuidadas, olham as montras, não olham as crianças.

É como se o coração gelasse. E os dedos não reagem. Que civilização é esta? E recolho-me envergonhada, entristecida, nesta noite quase Natal!

Peço inspiração, medito.

E que escrever perante o olhar dessas vinte crianças que, confiantes, preparavam o Natal entre lápis de cor.

Ergo então uma prece. Peço aos anjos lá no Universo que, nessa noite, desçam mais perto desses pais, e permitam que eles oiçam o riso de seus filhos correndo pela casa, felizes, porque a noite de Natal chegou.

Anoiteceu, apagamos a luz, e depois
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.
(...)


Manuel António Pina, Como se desenha uma casa
Assírio & Alvim, 2011 (excerto)


Para todos que passarem neste lugar de afectos e palavras, votos de um Natal em paz!

Miosótis (pseudónimo)

23.12.2012
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