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Saturday, April 19, 2025

Páscoa de Inverno ! Quão dificil, assim !

 




credits: Linda Puguese


Um dia de poemas na lembrança
(também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,(...)

Miguel Torga, Páscoa


Esta primavera chuvosa, gelada, tira-nos a alegria de vivenciar a Páscoa. Ventosa, rastros fortes de saraiva de neve... que é isto? Até os pássaros fugiram em silêncio, tentando não alertar a natureza desta intempérie 


Os bandos de pássaros que costumavam cruzar perto das janelas, em voos alegres e chilreantes. As rolas que já andavam a esvoaçar por perto, tudo desapareceu repentinamente. Este ano, nada se vê, mada se ouve. Só a chuva a bater nas janelas rasgadas para o horizonte. Plúmbeo


Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.(...)


Silêncio cortado pelas rajadas de vento. Não se ouvem foguetes, nem sinos a repicar.

Nem a carícia do sol progenitor da Primavera. Não há primavera...


Neste tempo de primavera anuncia-se a ausência do sol, do final de tarde ameno, dos pássaros que recolhem, em outras Páscoas, ao arvoredo.


Ficamos mais tristes. A melancolia penetra-nos. É como se a natureza nos esquecesse, mergulhando-nos na ausência das coisas belas que preechem os momentos ansiosos.


Será uma Páscoa fria. Já se sente. Como se não bastasse viver momentos tão difíceis!

(...)
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!

Miguel Torga, Páscoa
in Diario XVI


Miosótis (pseudónimo)

19.04.2025
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Tuesday, November 15, 2022

Chove. Há tristeza que se solta


 




créditos: Andre Kokn, 1972

... Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se (...)

Fernando Pessoa

Chuva. As últimas semanas têm sido de chuva, chuva que cai intempestivamente, por vezes. Esta madrugada choveram baldes de água. Ó Deus! 

Sei que é necessária. O país estava em seca quase extrema. Mas tantos dias! Tanta água caindo de nuvens espessas e cinzentonas. Um sufoco. 

Outono adentrou-se abruptamente e a chuva surgiu! Esta impõe-se com uma intensidade desmesurada. Os pássaros despareceram espavoridos, tentando sacudir o peso das gotas grossas da chuva, deixando a paisagem ainda mais trostonha.
 
Mas, eis que surigiram dois ou três dias de sol suave em quase final de semana. As inóspitas chuvas desapareceram por breve pausa. E os olhos ainda encharcados de tanta chuva briharam na luminosidade que bailava em subjectivas formas tudo em volta.

Oh! De novo a chuva. Sem remédio.

(...)
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece… (...)

Fernando Pessoa, Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
02.10.1933

in Poesias (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) 
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995) 

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite con flores

15.11.2022
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Sunday, February 17, 2008

Em tarde de chuva



Itália
foto: AP/HO
http://news.yahoo.com/photos

E ela abriu a janela, espreguiçou-se languidamente, e aspirou em profundas sorvedelas, os aromas que subiam do mar cintilante e daquelas árvores frescas,  frondosas, em jeito de orla ao deslumbrante cenário aberto, oceano imenso à sua frente.

O céu estava tranquilo, nuvens soltas como flocos de branca espuma deslizavam sobre o imenso horizonte e seus olhos quedaram-se absortos, como que invadidos por aquela acalmia universal que vinha depositar-se esparsamente.

E então...

Mergulhada
de frente p'ra minha almasolidão, vejo passaras nuvens soltas e leves brancas transparentes como meu coração.
Meus olhos vestidos
d'um azul céu claro pastel
aquele azul doce com
que sempre me visto
quando contigo sonho!

E são tantas tantas as vezes
que me quedo entrada no infinito...

©Miosótis (pseudónimo)


Ficção em jeito de poesia, numa tarde de intransigente cinzento-chumbo, quando o mar pardo de inverno se transmuta para escorraçar meus passos. 

O cheiro a maresia dispersa-se no ar húmido e chuvoso. E assim, permaneço selada, sem espaço ao sonho e ao universo, a não ser esta janela imaginária.

Se o vento ignora o meu sentir por que sopra cenários serenos, imaculados, diluídos nos sons das gotas minúsculas que teimosamente caem desse céu que deveria estar engalanado de azul numa tarde de quase primavera?!

Miosótis (pseudónimo)

texto original, publicado sob pseudónimo em 01.05.2007
(mote escrito em 18.08.2005)






fragmentos  da tarde chuvosa sem flores, com Chuva, Mariza

17.02.2009

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