Friday, September 12, 2014

Noites do tempo que passa






créditos: Victor Pachenko


Há pouco mais de uma semana, celebrou-se o Dia Mundial do Blog. O blogue, essa espécie de "diário dos tempos modernos".

Para mim que escrevo espaçadamente, não lhe poderei chamar diário. Mas sim, existe alguma semelhança no acto voluntário de escrever.

Digamos que abro uma página de web de quando em vez, e escrevo do que sinto ou me passa pela alma.

Raramente faço alusão aos aniversários. Foi em Julho 2005.

Quando olho para trás, vejo-me a deixar impressões "digitais", estados de alma, mais ou menos íntimos, segundo me sentia emocionalmente, mas sempre atenta ao resguardar do gesto e da privacidade.

No entanto, é certo que as palavras que usamos, os trechos de autores, as imagens divulgadas, os eventos compartilhados, as músicas ouvidas, deixam transparecer a estética que conduz a vida. 

Fragmentos digitais, feitos flashs. Sentimentos, emoções, afectos, vão soltando-se, deixando emanar a luz interior, como fragrância oculta. 

Quinze anos, quase? Não pensei querer perdurar por aqui. E cada vez que me vem à ideia encerrar o 'diário', logo o coração afoito, indeciso, por vezes, quase pesaroso. Continua. 

Avanço. Há noites que se está mais receptivo à possibilidade de magia.

Comecei com um excerto de Pedro Paixão. Timidamente.

O pseudónimo? Dedicado a minha mãe, que adorava a flor de miosótis. E porque a perdi muito cedo, gosto de a sentir por perto, ao escrever 'Miosótis'. Como quem murmura uma prece antes de adormercer.

Vem depois 'fragmentos de flores', e a 'noite' que sempre me acolhe no turbilhão da esperança. Fragmentos da noite com flores (de miosótis). Ficou.


Quem não quer - quem não precisa - de uma Lua perante a qual se maravilhar, uma cidade de vida e oiro, no outro extremo do oceano? 

Michael Cunningham, A Rainha da Neve,
Gradiva Editora, 1ª edição, Julho 2014


Miosótis (pseudónimo)

12.09.2014
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Thursday, August 21, 2014

Que mal fiz eu a Deus : uma comédia francesa a não perder !




Que mal fiz eu a Deus?
Philippe Chauveron, 2014


Que mal fiz eu a Deus, tradução de Qu'est-ce qu j'ai fait au bon Dieu é uma comédia de costumes bem ao estilo francês, sobre preconceitos e expectativas sociais. Fresca, sofisticada.

Fala dos fantasmas de uma geração que se julga preparada para enfrentar a nova realidade multiracial.

Os tempos mudam, os ideais também, mas isso não significa que se aceite a mudança tão facilmente, assim, sobretudo, se se for francês. 

Uma tradicional família francesa, católica, classe média alta, com quatro filhas. Isabelle, Odile, Ségolène fazem casamentos entre-culturas com Rachid (advogado, origem argelina), David (empresário, família judaica) Chao (gestor de origem chinesa), respectivamente. 




Qu'est-ce qu'on a fait au bon Dieu
Isabelle, Odile, Ségolénne e seus maridos 
Philippe Chauveron, 2014

Claude Verneuil, um notário 'gaulliste' e Marie, sua mulher, depositam agora suas esperanças de um casamento típico francês, em sua filha Laure, que continua solteira. 

Tudo o que queriam era que suas filhas tivessem casado com um francês, católico. E como estariam felizes, se as filhas já casadas o tivessem feito.

Os Verneil ficam então encantados quando Laure anuncia que vai casar com Charles, um católico. Finalmente! 





Qu'est-ce qu'on a fait au bon Dieu
Laure, Charles, pais
Philippe Chauveron, 2014

Mas eis que Laure aparece no restaurante com Charles, africano. E aí tudo se vai complicar. Não só para o lado da família da noiva. Do lado de Charles, o pai também complicará este casamento.

Marie Verneil cai em depressão, Claude Verneil faz tudo para sabotar o casamento de Laure com Charles, encontrando um aliado inesperado. O pai de Charles.






Qu'est-ce qu'on a fait au bon Dieu
Laure na igreja com pai e sogro
Philippe Chauveron, 2014

O humor desta comédia francesa, realizada por realizador francês, Philippe de Chauveron, gira à volta dos fantasmas da xenofobia dos franceses em relação à nova geração multicultural, rindo dos estereótipos da sociedade francesa. E nisso, os realizadores franceses são deveras excepcionais.

Mas não riem só de si. Fazem neste filme divertidíssimo, a observação das diferenças culturais. E ao vê-las em conflito, compreendemos facilmente que não são só os franceses que sentem uma certa antipatia pelo desconhecido. As famílias dos 'genros' também a exprimem.




Qu'est-ce qu'on a fait au bon Dieu
Chao, David, Rachid

Os actores são todos excelentes. O casal Verneil, uma delícia! Mas os quatro 'genros' também se esmeram. A credibilidade e o empenhamento que põem na criação das personagens é sem dúvida notável.

Bom, no final, tudo acaba em bem. Depois de uma série de cenas hilariantes, estas realidades culturais, com suas tradições, maneiras diferentes de pensar, fazem um esforço par se entender. E percebem que, na verdade, a única coisa que os estava a separar eram eles próprios.





Qu'est-ce qu'on a fait au Bon Dieu?
Philippe Chauveron, 2014

Filme muito divertido, inteligente, criativo, que nunca cai no ridículo, faz-nos rir de uma ponta a outra, pelas cenas magníficas e os gags imparáveis. Não temos tempo de nos refazermos, ao ritmo alucinante com que se e seguem. 

Sai-se da sala de sorriso bem rasgado!

Sofisticado humor francês que tira partido da própria língua, exigindo assim um certo conhecimento da língua francesa 'falada', para não perder pitada das verdadeiras intenções dos diálogos, bem como dos divertidos trocadilhos semânticos.






A não perder este filme de Philippe de Chauveron. Para uma noite bem passada, de final de verão.


Um dos melhores filmes, no género, em exibição! Europeu! 





Qu'est-ce qu'on a Encore fait au Bon Dieu?
Philippe Chauveron, 2019


Está agora em exibição um segundo filme desta comédia. Que Ma Fiz Eu a Deus, Agora?, título original Qu'est-ce qu'on a Encore fait au bon Dieu? 


Fui ver. Tal como pressentira, nada melhor do que Que mal fiz eu a Deus. Estas coisas não têm hipótese de resultar. Um grande sucesso deve ficar por aí. 


Se não viram o primeiro, tudo bem! Se viram, vão ficar decepcionados. Suponho. Como eu fiquei.

Bem melhor, Ibiza (2019) com o mesmo actor, Christian Clavier e Mathilde Seigner. Acreditem!



Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da com com flores

21.08.2014

actualização 25.12.2019
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Thursday, July 24, 2014

Flores nos céus europeus




foto : Getty Images

Não há palavras para dores profundas, sofrimentos que arrancam a alma.

Mais uma vez, não sei o que escrever perante a tragédia. Os céus europeus. Negros.


Negros campos. Verdes campos cobertos de vermelho, cor dos corações abatidos.


Flores campestres não cobrem os seres por lá derramados. Desamparados.

É como se não pudessem tocar a pureza de almas. Aturdidas. Violência de actos dos homens. Impiedosos. Grosseiros.



Espanto? Sim, tanto. Imenso. Repúdio, absoluto. Silêncio estremecido.

Emocionada, rezo. Que descansem em paz. 

Que suas famílias chorem. E possam, um dia, aquietar seus gritos. Rasgados.


"Colha o dia que se inicia como quem
colheu uma  flor que nunca mais
repetirá."

Rubem Alves

Miosótis (pseudónimo)

21.07.2014
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Saturday, June 28, 2014

Tempos frescos, em dias de verão !




Bicicleta | Aguarela 
créditos: Adriana Banfi, 1998
http://www.adrianabanfi.com.br/

Têm sido muito poucas as minhas andanças de lazer por aí. O tempo mantém-se meio fosco, sensaborão, não cheira a calor, nem andam brisas doces no ar.

Gosto de fazer pequenos passeios de bicicleta em final de tarde, de estio convidativo. Mas este ano, têm sido parcas as tardes que me permitam vaguear ao ritmo das duas rodas. 


Assim, peguei no carro, e em jeito de passagem breve, fui até à beira-mar! Precisava respirar! Abrir os olhos para o horizonte.


Estes últimos meses não me têm sido muito amigáveis. O inverno prolongou-se demais, a primavera chegou tardia e curta, o verão teima em não se fazer sentir. 


Se pensar bem, suponho que só fui até à praia, mesmo, dois ou três dias, rarefeitos, enfiados em semanas brumosas ou de ventos muito desconfortáveis.


Cansada deste tempo fora do tempo, e das paisagens citadinas, peguei em mim, e fui ver o mar.


O mar! Esse reduto de temperança, minha paz. Meu recanto de universo!

Esplendoroso, inquietado pelo vento forte, assim o fui encontrar! Revolto, lançava suas ondas largas espraiando-se em véus de espuma até ao areal.

A brisa visível, agreste quase cortante, um céu azul esbatido, e as temperaturas baixas, acolhiam mal os poucos afoitos que por ali buscavam descanso e força para recomeçar uma semana.


De um gesto sereno, protegi-me, cerrando um pouco mais o ligeiro agasalho, e olhei bem fundo o mar, juntando minhas inquietações à sua intranquilidade.


Veio um arrepio mais forte. Era a agressividade do vento que revoltava ainda mais o mar, já de si pouco sereno, trespassando-me sem trégua.


Puxei de novo o agasalho, tentando fazer frente aquela fria, despropositada ventania, para uma tarde que se pretendia ser de verão. 
Olhei uma vez mais a distância azulada sem fim, virei o carro e vim embora. Mesmo assim, meu olhar notava-se menos irrequieto.

De volta a casa, cruzei ainda os sons finais deste dia de S. Pedro, numa praça da cidade, sorri. O manjerico ainda se mantêm viçoso, lá em casa - pensei, agradada.






Quarto | Óleo sobre tela
créditos: Adriana Banfi, 1998

É que os seus aromas - antes de deitar, gosto de passar os dedos soltos, suavemente pelas folhas - acompanham-me até adormecer.

Trazem odores de infância, de família buliçosa, numa miscelânea de paisagens soltas como folhas de um álbum visual imaginário.


Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores


29.06.2014

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Wednesday, June 18, 2014

Jimmy Scott : tributo



Jimmy Scott
www.google.com/images 

"As singers we all deal in pain. (...) We're all trying to push the pain through the music and make it sound pretty. Jimmy Scott has more pain and prettiness in his voice than any singer anywhere." 

Ray Charles, in RollingStone, Music*


A primeira vez que ouvi a sua voz, supus tratar-se de uma mulher. Tinha voz de soprano. E o modo como cantava, lânguido, comovente, solitário, frágil, mais me confundia. Billie Holiday tinha esse queixume na voz. Sabia que não era Billie.

Fui à procura daquela voz que me tocara na alma, pela tristeza envolvente, aquele arrastar das sílabas. E encontrei. Claro.

Era um homem franzino de baixa estatura, olhar perdido. E fiquei a saber a razão do timbre da sua voz. Comprei o CD over the rainbow.

Ouvia-o nas noites calmas, quase devotamente. Como que respeitasse a sua dor, e a fizesse quase minha.

Over the rainbow, é uma das minhas canções favoritas. E cantada por Jimmy era ainda mais nostálgica. Embora a versão que melhor se cola ao que a canção me desperta, seja a de Eva Cassidy. Inconfundível. Inolvidável. 





Informei-me. Jimmy era um clássico da música de jazz. Actuou com Louis Armstrong, Charlie Parker, Lester Young, tudo nomes grandes do jazz. Mais tarde com Ray Charles

A sua voz peculiar devia-se a uma doença genética rara - síndrome de Kallmann - que o impediu de mudar de voz, na fase de adolescência, mas não o impediu de ser um músico grande no jazz. Suponho que a única voz masculina digna de cantar jazz.



E foi com David Lynch que Jimmy Scott voltou, no tema do último capítulo da série Twin Peaks (1990-1991). 

Quem era fã da série, e na altura eram muitos, se não a maior parte, ficava  suspenso do ecrã de televisão, nas noites de um novo capítulo de Twin Peaks. Cinema de culto em formato serial, naquele jeito tão característico de David Lynch.




Billie Holiday considerava Jimmy Scott o seu cantor de eleição. E em  2010, o norte-americano Sufjan Stevens escrevia no The Guardian que Jimmy Scott era 'único', com aquela  'voz do outro mundo' que nos faz sentir vivos.


Jimmy Scott 1925-2014
Foto: Ebet Roberts/Redferns

Veio ao nosso país há uns anos a um Festival de Jazz (2003). Só podia ir ouvir
Jimmy ao vivo. Uma silhueta que na imensidão do palco se perdia. Mas, mal começava a cantar, crescia e chegava até nós, vibrante, intenso, e sempre tão nostálgico.

Li que Jimmy Scott morrera esta semana.  E foram tantas as memórias das suas canções, ouvidas em noites de interioridade contemplativa. Acalmia. Parecia que absorvia os nossos sentimentos mais solitários. Aqueles que nos vêm da alma. E as horas passavam ao som da sua voz queixosa, sensível.





Miguel Esteves Cardoso escreveu R.I.P Jimmy Scott, hoje, no Público:

"Sempre foi difícil para mim não chorar um bocadinho quando ouvia Jimmy Scott a cantar My Foolish Heart...."

É mesmo um pouco isso. 

R.I.P. Little Jimmy .


Miosótis (pseudónimo)

19.06.2014
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*RollingStone | Music
The Triumph of Jimmy Scott

Monday, June 09, 2014

Direitos humanos : tributo à liberdade de expressão da imprensa !








Tributo a Anna Politkovskaya

créditos: Pavel Golovkin/AP

via The Guardian



Talvez poucos se lembrem do rosto desta mulher. Os anos passam, e à velocidade a que os factos desfilam aos nossos olhos, via média incluindo redes sociais, o que hoje nos horroriza, amanhã quase não lembramos. Perversa esta velocidade.

Mas eu fiquei chocada. Pela solidão de uma mulher que morreu à porta de sua casa, sozinha, sem apoio. Morta apenas porque lutava pela liberdade de expressão. E porque ouvia e dava voz aos que sofriam.

Durante meses a notícia continuou em busca dos que a deixaram sem vida, caída junto de sua casa. Lembro porque na altura escrevi algo muito simples num outro blogue que mantinha. 

Anna Politkovskayajornalista de nacionalidade russa, era defensora da liberdade de expressão. 

A jornalista e investigadora foi galardoada em 2001 pela International Women's Media Foundation pelo seu trabalho de investigação sobre as atrocidades cometidas contra civis durante a guerra da  Tchetchénia.

No dia 7 Outubro 2006 foi encontrada morta a tiro, à porta de sua casa. Os anos passaram, e supus que jamais ouviria falar dos que cometeram este acto brutal.

E até há poucos dias, nunca mais se ouviu falar desta mulher defensora dos direitos humanos. Mas, a semana passada, a SIC passou uma curta reportagem sobre o assunto.





Anna Politkovskaya/ Jornalista
créditos: Sergei Supinsky/AFP 2006
via Yahoo photos


Anna Politkovskaya tinha 48 anos, ficou conhecida pelo seu trabalho de investigação sobre a corrupção do governo no seu país e as violações dos direitos humanos.

Nessa reportagem, a estação televisiva noticiava que os 'culpados' da morte da jornalista e defensora dos direitos humanos, haviam sido julgados e condenados.






Credits : © UNESCO


A UNESCO, nos últimos anos, tem-se debatido pela livre expressão e pela imprensa livre - Freedom of Expression and Press Freedom. E o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa celebra-se anualmente a 3 Maio.

Segundo relatórios dos Reporters Without Borders, em 2012, 89 jornalistas foram assassinados a nivel mundial. Este ano 2014, já foram mortos 26 jornalistas ao serviço dos seus deveres profissionais. Manter-nos informados sobre o que se passa no mundo.

Acredito na poder da luz que, pela mão de seus admiradores ou familiares, mantiveram a chama acesa.

Oito anos depois. Possa Anna Politkovskaya descansar em paz, finalmente.


Eu sabia que tinha de haver um sítio

Onde o humano e o divino se tocassem

Não propriamente a terra do sagrado

Para uma terra para o homem e para os deuses

Feitos à sua imagem e semelhança

Um lugar de harmonia

Com sua tragédia é certo

Mas onde a luz incita à busca da verdade

e onde os homens não têm outros limites

Senão os da sua própria liberdade.

Manuel Alegre, Ilha de Cos, Chegar Aqui
Edições João Sá da Costa, Lisboa 1984, 1ª ed. pág.


Miosótis (pseudónimo)

10.06.2014

actualizado 05-08.2024

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