Wednesday, June 18, 2014

Jimmy Scott : tributo



Jimmy Scott
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"As singers we all deal in pain. (...) We're all trying to push the pain through the music and make it sound pretty. Jimmy Scott has more pain and prettiness in his voice than any singer anywhere." 

Ray Charles, in RollingStone, Music*


A primeira vez que ouvi a sua voz, supus tratar-se de uma mulher. Tinha voz de soprano. E o modo como cantava, lânguido, comovente, solitário, frágil, mais me confundia. Billie Holiday tinha esse queixume na voz. Sabia que não era Billie.

Fui à procura daquela voz que me tocara na alma, pela tristeza envolvente, aquele arrastar das sílabas. E encontrei. Claro.

Era um homem franzino de baixa estatura, olhar perdido. E fiquei a saber a razão do timbre da sua voz. Comprei o CD over the rainbow.

Ouvia-o nas noites calmas, quase devotamente. Como que respeitasse a sua dor, e a fizesse quase minha.

Over the rainbow, é uma das minhas canções favoritas. E cantada por Jimmy era ainda mais nostálgica. Embora a versão que melhor se cola ao que a canção me desperta, seja a de Eva Cassidy. Inconfundível. Inolvidável. 





Informei-me. Jimmy era um clássico da música de jazz. Actuou com Louis Armstrong, Charlie Parker, Lester Young, tudo nomes grandes do jazz. Mais tarde com Ray Charles

A sua voz peculiar devia-se a uma doença genética rara - síndrome de Kallmann - que o impediu de mudar de voz, na fase de adolescência, mas não o impediu de ser um músico grande no jazz. Suponho que a única voz masculina digna de cantar jazz.



E foi com David Lynch que Jimmy Scott voltou, no tema do último capítulo da série Twin Peaks (1990-1991). 

Quem era fã da série, e na altura eram muitos, se não a maior parte, ficava  suspenso do ecrã de televisão, nas noites de um novo capítulo de Twin Peaks. Cinema de culto em formato serial, naquele jeito tão característico de David Lynch.




Billie Holiday considerava Jimmy Scott o seu cantor de eleição. E em  2010, o norte-americano Sufjan Stevens escrevia no The Guardian que Jimmy Scott era 'único', com aquela  'voz do outro mundo' que nos faz sentir vivos.


Jimmy Scott 1925-2014
Foto: Ebet Roberts/Redferns

Veio ao nosso país há uns anos a um Festival de Jazz (2003). Só podia ir ouvir
Jimmy ao vivo. Uma silhueta que na imensidão do palco se perdia. Mas, mal começava a cantar, crescia e chegava até nós, vibrante, intenso, e sempre tão nostálgico.

Li que Jimmy Scott morrera esta semana.  E foram tantas as memórias das suas canções, ouvidas em noites de interioridade contemplativa. Acalmia. Parecia que absorvia os nossos sentimentos mais solitários. Aqueles que nos vêm da alma. E as horas passavam ao som da sua voz queixosa, sensível.





Miguel Esteves Cardoso escreveu R.I.P Jimmy Scott, hoje, no Público:

"Sempre foi difícil para mim não chorar um bocadinho quando ouvia Jimmy Scott a cantar My Foolish Heart...."

É mesmo um pouco isso. 

R.I.P. Little Jimmy .


Miosótis (pseudónimo)

19.06.2014
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*RollingStone | Music
The Triumph of Jimmy Scott

2 comments:

Lilá(s) said...

Fiquei por aqui ouvindo-o!maravilha!
Bjs

Lune Fragmentos da noite com flores said...

Olá Lilás,

Tem uma voz linda, mesmo. E pensar que quase sempre ficou mais na sombra pelo timbre, que afinal é magnífico.

Foi muito bom, sua visita.
Beijos