Monday, August 08, 2016

Ode aos Bombeiros de Portugal : os nossos heróis





Quinta da Mouta | Vieira do Minho

Estava-se em pleno almoço familar. No Minho, não muito longe da barragem do Ermelo e da Peneda Gerês. Na Quinta da Moura, um turismo de habitação de familiares por afinidade.

Eram talvez quase três horas da tarde. Esperavam-se outros familiares vindos de Braga e Guimarães. A mesa festiva posta ao ar livre. Por cima, um toldo imenso que protegia do sol abrasador. Festejava-se o aniversário de uma criança. Mas muitas outras se encontravam por ali. À mesa ou soltas pelos jardins ou na piscina. Turistas nacionais e estrangeiros.



Quinta da Mouta | Vieira do Minho

O ar estava cada vez mais irrespirável, quase insuportável. Depois de ter visitado a casa encantadora pelo olhar de quem ama aquele espaço, como obra sua. Tão convidativo, elegante, pequenos recortes de bom gosto. 

Os jardins, a sala de convívio, os terraços envolventes, a piscina. Quinta da Moura, uma situação geográfica, no alto de uma colina, permite uma vista panorâmica das montanhas esplendorosas que a rodeiam.

Os quartos situados no interior da casa ou os quartos independentes, pequenas casa de pedra logo após os portões de ferro de acesso à Quinta, estavam todos ocupados.  Número reduzido, num ambiente intimista.



Quinta da Mouta | Vieira do Minho

Pelo que vi nos sites de booking, excepcionais. Requintes de um turismo rural de habitação muito acima da média. Bom gosto, equilíbrio paisagístico de imensa qualidade. Interior da Quinta intimista.

Sentados à mesa, no terraço posterior à casa, a tijoleira quente e um ar abafado. De repente, varrido por ondas de calor intenso que fizeram voar tudo o que de mais leve se encontrava na mesa. 

As cores que pintavam o céu, no início de uma intensa tarde de sol, tornaram-se cada vez mais escuras, quase negras, muito feias.



Quinta da Mouta | Vieira do Minho

Repentino, como uma folha que se solta, começámos a avistar um fumo denso a alguns metros, numa colina. E num ar de sopro, as chamas quentes romperam da paisagem à nossa frente. Aumentando a cada minuto. Ventos fortes, sem direcção, descontrolados.

Retirámos tudo. Refeição, cadeiras, toldos, espreguiçadeiras penduradas entre árvores. Entrámos em casa. Nem assim estava fácil. À volta tudo ardia. Embora ainda a uma certa distância. 

Telefonou-se para o 112. Antenderam de imediato. Responderam que não tinham mais bombeiros ou meios disponíveis. Os incêndios irrompiam por todo o norte do país.



Quinta da Mouta | Vieira do Minho

E nós, ali tão perto. No silêncio campestre, perturbado pelos fortes ventos que traziam até nós o som das chamas de fogo intenso, do crepitar das árvores e vegetação a arder.

Tão triste. Tão triste aquele silêncio, aquela paisagem serena, perturbados pelo monstro de um incêndio florestal. Houve casas que começaram  a ficar em perigo, ouviram-se os primeiros gritos dos habitantes, no meio daquele inferno que se abriu ali tão perto.

Inquietos, todos nós de nariz no ar, novas tentativas de ligar ao 112, sem resposta. Passados talvez vinte a trinta minutos, ouvimos o barulho de um helicóptero. Ali, na região há água em abundância. A barragem do Ermelo, a cascata do Tahiti, barragem da Caniçada. Até a piscina foi disponibilizada.

Respirámos mais aliviados, as crianças acalmaram, embora recolhidas na casa para evitar fumos tóxicos.



Quinta da Mouta | Vieira do Minho

O helicóptero fez primeiro uma volta de reconhecimento e depois foi um vai-e-vém de cestos de água espalhados ao longo da já grande massa de chamas. Chamas que mal se apagavam, voltavam a reacender pelo poder dos ventos quentes, fortes, que continuavam a soprar.

Alguns dos homens da família partiram afoitos, voluntários, no apoio aos locais e ajudaram alguns a abandonar as casas ou prestaram auxílio aos que tentavam proteger bens.

Até que os rodados de dois tanques de bombeiros se fizeram ouvir na estreita estrada em pedra rural que dava acesso mais aproximado ao foco de incêndio. Mais tarde, mais dois se juntaram.

Aqueles homens e mulheres, voluntários na sua maioria, com um dia de intenso calor às costas. A luta sem esmorecer contra desumanidade de pessoas que não limpam os seus matos. Ou de alguns, bem sabemos, que põem fogo que tem a seu favor os ventos fortes, as altas temperaturas que numa lufada de vento, lavra terrenos,  ameaça pessoas, animais, casas e outros bens.



Quinta da Mouta | Vieira do Minho

Já bem no final da tarde, passado o maior perigo, sentei-me neste recanto lindo que dá para a piscina e para a paisagem, rodeada de alguns familiares e amigos dos mais novos, que entretanto chegaram para um mergulho na água azul-límpido da piscina. Juntaram-se também alguns turistas, hóspedes da Quinta da Mouta. 

O propriétário preparou para todos os familares e amigos um saboroso refresco, cheio de fruta e bem fresco, o que apreciámos, saboreando cada pequeno golo com apreço. Agradecidos.



Quinta da Mouta | Vieira do Minho

Abandonámos a Quinta da Moura ao início do anoitecer, depois de sentirmos que estávamos livres para poder circular. No caminho de regresso, eram muitos os veraneantes que saíam da barragem do Ermelo, da Peneda Gerês. E outros locais paisagísticos onde se pode encontrar arvoredo e água para um dia aprazível em plena natureza. O Minho.

Foi tão triste, no meio de uma paisagem magnífica, onde  o silêncio da natureza reinava, ver o céu azul ofuscado pelos fumos dos incêndios, o cheiro a campo desbravado pelo odor de fumo a queimado. 

É tão doloroso pensar naqueles bombeiros, homens e mulheres, que lutam contra o fogo, tantas vezes, pondo a sua vida em risco. Com pouco descanso, falta de alimentação e o corpo a desidratar. Exaustos, mas não vencidos.



Bombeiros de Portugal | Norte do país
créditos: autor não identificado

Um bem haja a todos os Bombeiros do meu país. A todos aqueles que deixam as suas casas, as suas famílias para ajudarem os outros. Sem críticas. Não abrem a boca contra os possíveis culpados. 

Acredito que fazem o melhor que as forças físicas permitem. Exaustos, o cansaço estampado no rosto, perante tanta adversidade. Força, coragem, abnegação.




Bombeiros de Portugal | Norte do país
créditos: Nelson Garrido


Que sejam encontrados os culpados, que  a justiça legal seja mais severa com os que não limpam os seus terrenos, e depois são atingidos pelo seu próprio erro, pondo em risco também os que cumprem e limpam. 

 sobretudo justiça legal com quem pratica actos criminosos de fogo posto. 

Bem-haja, a todos os bombeiros do meu país! 

Miosótis (pseudónimo)

08.08.2016
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Sunday, July 24, 2016

Relembrando Amy Winehouse





Amy Winhouse
credits: Getty Images


"Love is a losing game."

Amy Winehouse, Love is a Losing Game

Foi em 23 Julho 2011. Nessa noite, ninguém acreditou. Amy Winehouse, algumas vezes com morte anunciada nas redes sociais, morria nessa noite. A notícia era real.

Fiquei chocada. A maldição do 27? Não sei, mas começa a fazer algum sentido. 

Amy Winehousetanto desencanto na voz. o olhar perdido. Entravanha-se em nós. A voz, o olhar.

Fui seguindo a sua carreira. Cedo compreendi que Amy não resistiria por muito tempo.




Amy Winehouse
Mark&NNSP.Okoh/Camera Press

Hoje quero relembrar Amy Winehouse. Na sua página de Facebook, gerida pelo pai, suponho eu, ou familiares, nem uma palavra de saudade, de ternura. Nem uma canção sua. O vazio. 

Apenas publicidade a tee-shirts a favor da Fundação Amy Winehouse. Na página Facebook Amy Winehouse Foundation, mais publicidade. E só mais abaixo, uma mensagem, talvez ali deixada amigos ou admiradores.




"It doesn’t feel possible that it’s been 5 years since we lost our Amy, but sadly it has. The only thing that makes the loss remotely bearable is that we are able to help so many beautiful young people across the world in her name." 

O retrato familiar do documentário Amy, do realizador Asif Kapadia, baseado apenas em testemunhos, fotografias, vídeos, não mente em relação à família. Especialmente ao pai que tudo fez para que o documentário não saisse.

Mais uma criança, tal como Michael Jackson, muito talentosa, explorada pelo pai e uma mãe passiva?




Amy/ Asif Kapadia
Oscar 2016/ Documentário

Amy, do realizador Asif Kapadia é um testemunho de vida chocante. Grito surdo que poucos ouviram. Saimos da sala de cinema constrangidos. Magoados.

A voz que tanto me enche a alma? Sim continuo a ouvir. A sua essência perdura em cada canção que oiço. 

"Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos."

Miguel Esteves Cardoso, Último Volume

Miosótis (pseudónimo) 
fragmentos da noite com flores 
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24.07.2016

Friday, July 15, 2016

A Baia dos Anjos





La Baie des Anges
ilutração: Jean-Charles de Castelbajac
via Loreleï Mirot

... ...
La lune de ses mains distraites
A laissé choir, du haut de l’air,
Son grand éventail à paillettes
Sur le bleu tapis de la mer.

Théophile Gautier, Au bord de la mer, Espana 

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

15.07.2016
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Sunday, June 26, 2016

Domingo é dia de sol






Domingo é dia de preguiça gostosa, de um jeitinho de fazer nada, fazendo alguma coisa. Menina de novo, invento lazeres ao ar livre, fruindo do Verão acabadinho de chegar. 

Poderia escrever sobre o solstício de Verão que trouxe consigo a 'strawberry moon' que este ano coincidiu com o solstício de verão, facto que só voltará a acontecer em 2062.

A 'lua de morango' ou 'Strawberry moon' é o nome comum dado à Lua Cheia de Junho por algumas tribos da América do Norte. É uma lua cheia igual a todas as outras, mas segundo essas tribos, marca o início da época em que a fruta está pronta para ser colhida.

Mas, apetece-me escrever coisas simples. Como esta época de verão. Minha paixão. A estação do Sol, a época das frutas coloridas, gostosas. Saciantes.

Praia, calor, flores, fruta. Ar livre. Noites de lua cálida, bem vistosa. Quanto bem estar. Estou em sintonia com a natureza.

Dia de família, de risos escapando nas arestas do ar quente. Dia de leveza, até nas palavras que se soltam do teclado. 


O dia amanheceu sorrindo. Ao abrir a janela, recebo nos olhos a luz da manhã, deixo que ela se instale.

Aqui ao sol que irrompe, cedo com alegria. E a cada passo que dou, novas surpresas. Ando encontrando coisas lindas, flores de delicadeza. Saúde, paz.

Pequeno almoço, no final da manhã preguiçosa. Na varanda que já não é muito grande. E que se vai tornando mais estreita com o alvorecer dos pelargónios e da trepadeira que inventa espaço para se encher de flores rosa-bombom. E que o sol intenso faz virar rosa-pálido. 

Verão! Ah! Finalmente chegou, Tempo quente. Dia de juntar as mãos em preces. Agradeço ao universo por este sol lindo. Tanta chance à vida.


Preciso genuinamente de aproveitar estes dias que se alongam na luminosidade do sol. Intenso. Preciso aproveitar. Apenas. Com alegria, tranquilidade. 

De sentir a passada das horas, dos minutos que se acotovelam e galgam e se fazem ouvir. Quero reter a estação que me faz sentir mais solta. Alma mais serena. Rumo ao mar.

Preciso de saber que não faço nada, além de sentir o ardor do sol. Abunda a esperança. Soltam-se mais naturalmente lindos sorrisos. O verão assinala o despontar de novos horizontes.

Verão és tão bem vindo! Por favor! Demora-te. Muito. 

Passo a passo
pelas montanhas de verão -
subitamente o mar!

Kobayashi Issa, Haiku Uma Antologia

Miosótis (pseudónimo)

26.06.2016
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Sunday, June 12, 2016

Eric Clapton : tears in heaven ?






Eric Clapton
Créditos : Getty Images

Foi com muita tristeza que hoje li no The Telegraph que Eric Clapton padece de doença irreversível do sistema nervoso que o impede de tocar.

O lendário Eric Clapton, um dos meus guitarristas preferidos, e um dos mais famosos da história da música, luta para conseguir tocar o instrumento que lhe conferiu fama. A guitarra.
Clapton vive de novo um grande drama. Ninguém esquece a terrível morte de seu filho, há uns anos atrás. Para Conor, escreveu Tears in Heaven que comoveu o mundo. E que continua a ser um tema muito querido de muitos de nós. 


Numa entrevista à revista Classic Rock, ontem dia 11 Junho, o músico britânico revelou que sofre de danos irreparáveis do seu sistema nervoso que o impossibilitam de tocar guitarra como antes.


Eric Clapton
credits: Eric Clapton site
"It started with lower back pain, and turned into what they call peripheral neuropathy - wich is where you feel like you electric shocks going down your leg. It's hard work to play the guitar and I've had to come to terms with the fact that it will not improve."
Eric Clapton, Classical Rock
Fiquei chocada. Não esperava, até porque Clapton editou há pouco tempo um novo CD  I Still Do, Maio 2016.





Apelidado de “Deus”, nos anos 60, o guitarrista afirmou, apesar do drama, que aceita as novas dificuldades e que sua saúde não vai melhorar.
”Como estou a recuperar do alcoolismo e do vício em de drogas químicas, considero uma coisa fantástica estar vivo. Pela lógica, eu deveria ter morrido há muito tempo atrás. Por algum motivo, fui retirado das garras do inferno e me deram uma nova chance."
Clapton esquece que tem um anjo da guarda lindo, zelando por ele. Seu filho Conor.



Eric Clapton

credits: Larry Busacca/ Getty Images

Depois dessa fase mergulhado na droga, Clapton reapareceu na banda mítica dos Dire Straits. Aos poucos reabilitou-se e conseguiu criar uma sólida carreira  a solo. 


Nest final de tarde, em que o nevoeiro se adensou sobre a cidade, e as gotas de chuvam caem silenciosamente para além da vidraça que se abre sobre o horizonte, estas se confundem no meus olhos, ouvindo a música, enquanto escrevo.

Como é possível um músico que toca tão divinamente ser impedido de o fazer sob pena de sofrer dores insuperáveis? 




Eric Clapton, que acaba de lançar I Still Do, seu 23º álbum, considera, mesmo assim, que o novo CD está longe de ser um adeus à sua carreira. E considera-se privilegiado pelo tempo de vida que tem tido. Vêmo-lo aqui em conversa quase intimista sobre rock & blues.
I Still Do é uma homenagem aos amigos, aos familiares e aos músicos que tocaram com Clapton nos últimos anos, segundo o que disse à imprensa,

Pude ouvrir vários temas no YouTube, mesmo o álbum completo. Optei Catch the Blues. Adoro blues. E este tema tocou-me profundamente. 





A música apazigua-nos a alma, o olhar vê mais além, os pensamentos soltam-se, deixando de lado tormentas de alguns momentos de desassossego.

Uma homenagem a todos os músicos, seres quase 'divinos', inspiradores do nosso quotidiano. Da vida. Mesmo em tempo de Primavera que teimosa não se afasta do longo Inverno.


 "Non impedias musicam"

Paul Claudel/ L'Ecclésiastique


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

12.06.2016
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