Anne Deguelle "Yvette Guilbert on Divan"
Le Tapis de Sigmund (exposition 2011)
Hoje acordei com vontade de ouvir o meu pássaro cantador. Mas ele não veio poisar no beiral da minha janela. Retirou-se.
Há umas duas ou três noites, ouvira o seu canto anunciador da primavera, altas horas. E meu corpo gritou feliz: Vem aí a Primavera!
Como é possível que um pássaro passe todas as primaveras perto da minha janela para me anunciar a Primavera! Encanto insondável. Como lhe estou grata!
A chuva reapareceu. Dias de sol me trouxeram serenidade. E meu pássaro cantador calou-se de novo.
Vive por aí, entre o arvoredo vizinho, espreitando a primeira oportunidade de exibir seu canto provocador voando por perto da minha janela.
Domingo! Lazer! Decidi aguardar, e reclinei-me no sofá. Um livro, ao acaso, abro e leio:
Na sua vida poisam
como aves ao fim do dia as formas do mundo
e nos seus sentidos derrama-se a literalidade das coisas
tão sem tempo e tão sem pensamento
que dir-se-ia que olhar algum
perturba sua solidão. (...)
Manuel António Pina, Os preceitos dos poetas*
Nesta tarde já alta, desfito do livro e adentro o olhar na janela, para lá da distância do instante.
Afago as palavras, enquanto lá fora o vento sopra, entre um raio de sol indeciso, afoitando-se atrevido por entre nuvens que flutuam em elegantes formas de um branco cinza, salpicando o azul do firmamento que tanto amo.
Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também fossemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.
Manuel António Pina, As Coisas
E assim permaneço, afagando o bem estar de uma tarde de interioridade.
Miosótis (pseudónimo)
04.03.2012
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Referências:
Manuel António Pina, Como se Desenha uma Casa, Assírio & Alvim, Outubro 2011
* Poema "Auraceipt na n-Éces" ou Os preceitos dos poetas, pág.39











