Monday, June 09, 2014

Direitos humanos : tributo à liberdade de expressão da imprensa !








Tributo a Anna Politkovskaya

créditos: Pavel Golovkin/AP

via The Guardian



Talvez poucos se lembrem do rosto desta mulher. Os anos passam, e à velocidade a que os factos desfilam aos nossos olhos, via média incluindo redes sociais, o que hoje nos horroriza, amanhã quase não lembramos. Perversa esta velocidade.

Mas eu fiquei chocada. Pela solidão de uma mulher que morreu à porta de sua casa, sozinha, sem apoio. Morta apenas porque lutava pela liberdade de expressão. E porque ouvia e dava voz aos que sofriam.

Durante meses a notícia continuou em busca dos que a deixaram sem vida, caída junto de sua casa. Lembro porque na altura escrevi algo muito simples num outro blogue que mantinha. 

Anna Politkovskayajornalista de nacionalidade russa, era defensora da liberdade de expressão. 

A jornalista e investigadora foi galardoada em 2001 pela International Women's Media Foundation pelo seu trabalho de investigação sobre as atrocidades cometidas contra civis durante a guerra da  Tchetchénia.

No dia 7 Outubro 2006 foi encontrada morta a tiro, à porta de sua casa. Os anos passaram, e supus que jamais ouviria falar dos que cometeram este acto brutal.

E até há poucos dias, nunca mais se ouviu falar desta mulher defensora dos direitos humanos. Mas, a semana passada, a SIC passou uma curta reportagem sobre o assunto.





Anna Politkovskaya/ Jornalista
créditos: Sergei Supinsky/AFP 2006
via Yahoo photos


Anna Politkovskaya tinha 48 anos, ficou conhecida pelo seu trabalho de investigação sobre a corrupção do governo no seu país e as violações dos direitos humanos.

Nessa reportagem, a estação televisiva noticiava que os 'culpados' da morte da jornalista e defensora dos direitos humanos, haviam sido julgados e condenados.






Credits : © UNESCO


A UNESCO, nos últimos anos, tem-se debatido pela livre expressão e pela imprensa livre - Freedom of Expression and Press Freedom. E o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa celebra-se anualmente a 3 Maio.

Segundo relatórios dos Reporters Without Borders, em 2012, 89 jornalistas foram assassinados a nivel mundial. Este ano 2014, já foram mortos 26 jornalistas ao serviço dos seus deveres profissionais. Manter-nos informados sobre o que se passa no mundo.

Acredito na poder da luz que, pela mão de seus admiradores ou familiares, mantiveram a chama acesa.

Oito anos depois. Possa Anna Politkovskaya descansar em paz, finalmente.


Eu sabia que tinha de haver um sítio

Onde o humano e o divino se tocassem

Não propriamente a terra do sagrado

Para uma terra para o homem e para os deuses

Feitos à sua imagem e semelhança

Um lugar de harmonia

Com sua tragédia é certo

Mas onde a luz incita à busca da verdade

e onde os homens não têm outros limites

Senão os da sua própria liberdade.

Manuel Alegre, Ilha de Cos, Chegar Aqui
Edições João Sá da Costa, Lisboa 1984, 1ª ed. pág.


Miosótis (pseudónimo)

10.06.2014

actualizado 05-08.2024

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Saturday, May 31, 2014

Rendez-vous aux jardins... com literatura




Le Vallon des Poètes | Parc Floral de la Haute Bretagne

Des milliers et des milliers d'années
Ne sauraient suffire
Pour dire
La petite seconde d'éternité
Où tu m'as embrassé
Où je t'ai embrassée
Un matin dans la lumière de l'hiver
Au parc Montsouris à Paris
à Paris
Sur la terre
La terre qui est un astre.

Jacques Prévert, Le Jardin


Num dia lindo como o de hoje, só poderia escrever sobre jardins, flores e pássaros. Esplendoroso sol, depois de uma manhã semi brumosa, despertou em mim um espaço de 'zenitude' que me levou a escrever. Melhor, partilhar uma ideia que se pratica em França há alguns anos.

Passemos então a admirar jardinsneste sábado luminoso, céu azul tão claro que quase se funde no branco enevoado do horizonte.

Pressente-se a tranquilidade nestes espaços coloridos como telas pinceladas pela natureza, e por mãos que encerram encantamento e amor pela natureza. Espaços onde a serenidade parece estar sempre presente.



foto : Jardin des Paradis
 Association Cordes développement

Há algo de maravilhosa sedução neste apreço pelos jardins. É como que uma natureza acarinhada. Acto e sentimento muito louváveis.

E lembrei quando escrevi Contemos os pássaros do jardim. Tratava-se de Fête de la Nature (2010) que descobrira havia poucos dias. Nesse ano, a actividade mais cativante era Comptons les oiseaux dans les jardins ! Cheguei a propô-la aos amigos deste blogue. E eu própria me dediquei a contar os pássaros que por aqui rondaram. Foi um ano delicioso. Muitos pássaros esvoaçaram por perto.




A Fête de la Nature 2014 já decorreu entre os dias 21 e 25 Maio. Foi criada em 2007 com o objectivo de celebrar a natureza. 

A Fête de la Nature celebra-se desde ai, todos os anos em Maio, numa data próxima do dia 22 Maio. E por que razão este proximidade com o dia 22 ? Por se tratar do Dia Internacional da Biodiversidade.




Fête de la nature 2014 | Mission Coquelicots

A edição deste ano, a 8ª edição, tinha por tema Herbes folles, jeunes pousses et vieilles branches A actividade mais atractiva? Poderia ter sido MissionCoquelicots. Dupla finalidade: assinalar a floração das papoilas para melhor compreender as alterações climáticas !

Não lhe ficaria indiferente, claramente. As papoilas são a minha flor silvestre preferida, as oscilações climáticas preocupam-me.





Jardins de Roquelin | DR
https://fbcdn-sphotos-d-a.akamaihd.net/

Decorre então agora um outro evento tão envolvente quanto o anterior : Rendez-vous aux jardins 2014

Este ano, na sua 12ª edição, Rendez-vous aux jardins começou ontem 30 Maio,  e continua até 1 Junho. O tema L'enfant au jardin, faz todo o sentido. Numa época em que as crianças andam muito pouco ao ar livre, é sempre bem vinda uma iniciativa que as traz de novo para o meio da natureza.


As actividades são muitas, já que se estende por toda a França. E os mais raros espaços verdes abrem-se a todos os visitantes. Alguns só estão acessíveis durante o evento. O programa poderá ser lido aqui.



Le jardin potager | Château de Miromesnil

Um dos jardins que me cativou de imediato, na base da imaginação que a Internet nos permite, já que nos abre as portas a eventos e locais, alguns dos quais não poderemos visitar em espaço real. Mas o espaço virtual, esse passou a fazer parte das nossas viagens.



Château de Miromesnil | Les Amis de Miromesnil

Falo do  Jardin potager du Château de Miromesnil (Haute-Normandie) onde facilmente me perderia na contemplação da beleza.

Qual a razão ? Foi no Château de Miromesnil que nasceu em 1850, o escritor Guy de Maupassant. Considerado um dos criadores do conto moderno. Escreveu mais de 300 contos, seis romances, notícias e outros textos. 

A sua obra mais conhecida, o romance Bel Ami foi publiado folhetim, em 1885. Tantos outros escritores praticaram este tipo de publicação no século XIX. 


"Et, dans la suite des temps, ceux qui ne le connaîtront que par ses œuvres l'aimeront pour l'éternel chant d'amour qu'il a chanté à la vie."

Émile Zola



Bel-Ami conta a história de um ilustre desconhecido que, com muito oportunismo, bem ao estilo arrivista, mesclado de muito descaramento, consegue conquistar Paris e ser aceite pela sociedade da época.


Bel Ami 2012

Um romance que poderia situar-se bem nos dias de hoje. Talvez por isso, tenha sido adaptado ao cinema por Declan Donnellan, Nick Ormerod. Foi exibido na 62ª edição do International Berlin Film Festival 2012, fora de competição. Trailer a ver aqui

Bom, mas entre soljardins e literatura fui divagando. Saborosa esta divagação tão cheia da exuberância dos jardins. Foi uma viagem encantadora entre jardins e literatura.



Rendez-vous aux Jardins 2014 por culture-gouv

Nada melhor do que um dia de sol para nos fazer planar para além do usual estado d'alma. Acho que todos nós sentimos isso.

Fica então o convite virtual para Rendez-vous aux jardins !

"Lorsque les premiers beaux jours arrivent, que la terre s'éveille et reverdit, que la tiédeur parfumée de l'air nous caresse la peau, entre dans la poitrine, semble pénétrer au coeur lui-même, il nous vient des désirs vagues de bonheurs indéfinis, des envies de courir, d'aller au hasard, de chercher aventure, de boire du printemps."

Guy de Maupassant, Au Printemps, extrait conte
mai 1881, éditions Havard

Miosótis ( pseudónimo)

31.05.2014
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Saturday, May 10, 2014

Sem rumo, com sonhos




Meditation

Tenho andado desgarrada, arredia. Dias que nos deixam assim. Sem rumo. Sem querer de coisa alguma. Como quem fala só para si. Ou nem isso.

Sei sempre, mas muitas vezes esqueço. Esqueço vezes demais. 

De quando em quando, a melhor a mais pequena aventura, a maior felicidade do dia é não dizer nada. Apenas estender o olhar. E aquietar, sem medos.

Como quem está a olhar para as flores que se espalham nos jardins. Não longe do rio. Ou do mar.

Hoje vim aqui meditar sobre o que tenho, e gosto. Os dias grandes, meu tempo, o horizonte imenso, desanuviado, profundo no azul. 

Sonho, sim, absorvo o que me rodeia. Ou mais ainda. Mudei, sim. Não podemos permancer os mesmos. Mas não me preocupo em descodificar o significado do que sonho. Ou da mudança. Aparente paradoxo ? Talvez. 

O que sonho não me impede de andar para a frente. Alimento o meu sonho e tento deixar que ele se transforme à medida das mãos com que lhe toco e das com que me tocam. É a mudança. Transformação lenta, pausada, sem sobressaltos.

Continuo sentada, poisada na paisagem, mas apenas a posição é estática, pensamento, esse anda por aí vagueando, sereno, pela vida. 

Amo a vida. Não tenho muitas ilusões. Mas guardo sigilo sobre algumas que não largo. São minhas. Pertencem-me. Com elas cresci, me tornei mulher. E fui caminhando.

E todos os dias olho o que amo incondicionalmente - mesmo quando não tenho ânimo de continuar.

E respiro tudo isto, e o sonho navega em mim, em todo o meu ser, pela pele e pelos cabelos, alma e coração, e à medida que avanço mais, experimento melhor, o sonho altera-se comigo. 

Acarinho a vida, mesmo sendo contra a maré. Só porque sim. 

"Il faut savoir se prêter au rêve lorsque le rêve se prête à nous."

Albert Camus

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

10.05.2014
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Tuesday, April 15, 2014

Páscoa, um tempo sem pássaros





Cherry tree blossom
 Photo: CHSZ Preservation Society/AFP/Getty Images

Gosto do culto de Sakura. A flor de cerejeira associada ao éfemero da vida. A mesma filosofia que vi e me fez gostar do filme Último Samurai

Sei que as cerejeiras se situam perto dos templos budistas. 

Talvez por isso, monges e cientistas se unam em torno do mistério cósmico da cerejeira que cresceu de uma semente. Uma semente que permaneceu a bordo da International Space Station (ISS) durante oito meses. Acaba de florir, alguns anos mais cedo do que natureza prevê. E com flores surpreendentes. 

Falo da cerejeira junto do templo Ganjoji, na cidade de Gifu, Japão.

Porém, um outro mistério se adensa por cá. Que é feito dos pássaros? Esta primavera tardia, pouco segura, está ainda mais triste. Silenciosa! 

Não há pássaros. Os bandos de pássaros que costumavam cruzar bem perto da minha janela, em voos migração. E os pássaros que chilreavam nas madrugadas, nos ramos das árvores.

Que é feito dos pássaros? Por que não cantam eles? Cantaram prematuramente nas noites de Novembro?

Lembram, ainda a noite se mostrava fria, e já os pássaros rondavam por aqui, alta madrugada, chilreando alegres, pueris, perto da minha janela. Tinha mesmo um pássaro cantador que voltava a cada primavera.

Fugiram ao frio ? Emigraram para terras mais aprazíveis? Oh ! Não ! Fazem-me falta. Os pássaros, e os seus chilreios. Traziam-me alegria na noite, davam-me paz ao entardecer, força de viver a primavera pela manhã.

O silêncio prolonga-se. Instala-se. O silêncio é bom, eu sei, por vezes, quando cultivado no momento certo! Ouve-se a alma com tranquildade.

Mas já me perco na minha interioridade ! Sem pássaros, as pausas são ainda mais longas.

Neste tempo de primavera pascal que se anuncia, a ausência dos pássaros faz-nos repensar a vida. É como se a a natureza nos esquecesse, e nos mergulhasse na ausência das coisas belas que enchem o mundo.

Será uma Páscoa mais triste, com certeza . Como se não bastasse viver num país de semblantes cerrrados.

Senhor, trazei os pássaros de volta !

Para que a meditação de Páscoa seja mais doce, para que a serenidade do tempo se refugie na alma, com encantamento, ao som do canto fresco dos pássaros. E a paz se adentre.


Erguei o nosso ser à transparência 
Para podermos ler melhor a vida 
Para entendermos vosso mandamento 
Para que venha a nós o vosso reino 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos (...)

Sophia Mello Breyner, A paz sem vencedores nem vencidos

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores
(introspecção de Páscoa)

15.04.2014
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Tuesday, March 18, 2014

Entre paisagens e poesia




Queens | New York
foto: Carlos Esteves

O quieto resplendor do azul sobre este cais mítico despoleta em mim a corrente poética que atravessa.

Será pelo amanhecer? Apenas uma figura humana dando um sentido emocional. 

Tantos os filmes que fazem de Gantry Park quays Queens o lugar privilegiado de muitas das cenas, quase sempre de amor. Nem sempre felizes.

Falar de amor? Não, não vou falar de amor. Fica bem aos poetas.

Falo sim de sonhos. Eu sei. Poetas sonham. Mas não sendo poeta, também tenho sonhos.

É sonho meu este de conhecer Nova Iorque. Percorrer o cais, amorosa maravilha, ali, sentar-me num tranquilo banco, só de poetas.

Influências ! O cinema tem um lugar mágico na minha vida. Como que um ritual que me mantém viva e em harmonia com o meu mundo real. Infinitamente.

Não nego. O cinema despertou-me o sonho de visitar Nova Iorque. E Queens imprescindível peça desse imaginário. Uma pura emoção original.

Seria a constelação do meu sorriso. E a eternidade a meu lado.


Mas sabem-no, no limiar do impossível.

Noites assim, sabe bem sonhar. Noite calma, lua cheia. Sonhos. Com  Gantry Plaza State Park, Long Island, Queens.

Il ne faut au poète
que le chant pur de son ignorance
pour prendre audacieusement
mesure de toutes les distances.

Natália Correia, Inéditos V, (1955-1957)

Miosótis (pseudónimo)

18.03.2014
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Saturday, March 08, 2014

Dia Internacional da Mulher : Elas





créditos: Autor não identificado
via Google Images


Hoje, 8 Março, Dia Internacional da Mulher, as mulheres celebram os avanços feitos no feminino a nível económico, social e político. Mas as estatísticas ainda revelam dados preocupantes de desigualdades.

Elas

Elas
iludem as escurezas
dos rostos
a negrura das nódoas

do corpo

Desatam os nós que lhes
atardam, atam e algemam
a alma e os pulsos

Conversam entre si
coisas de enredo
lançam Luz nos recantos

das vagas

Trocam receitas de venenos
murmuram palavras escusas
desejos inolvidáveis

«Oh, que dureza ruim!
Ataduras e debruns
missanga de muita estrela

Cassiopeia, raízes
sangrantes
das próprias veias»

Elas
inventam a mata
na clareira assombrada
embrenhadas na vigília

recriam, criam, dominam

Viram pombas, profetisas
com uma alvura de cera
pálidas rosas da China

«Oh, tormenta amendoada
solidões e desespero
enquanto de madrugada

Cavam, enterram, devassam
pespontando com o riso
as dobras de calamento»

Elas
bradam, elas buscam
sibilas e amazonas
emudecem as camélias

e as roseiras nervosas

Feiticeiras ardilosas
filhas da harmonia
partilham as tempestades

derrubam, suturam, fiam

«Oh, doçuras sigilosas
no aço do destempero
de incêndios e desesperos

Virados pelo avesso
a paixão e a razão
entre si tão divididas»

Elas
recusam, derrubam
dominam as próprias vidas
com a sua inteligência

Tornam-se donas do tempo
a semearem agruras
pelos meandros do vento

Maria Teresa Horta
Lisboa, 8 de Março 2014


Neste dia, o poema que a poetisa dedica as todas as mulheres !


Feliz Dia para todas !


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos do dia com flores

08.03.2014
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