Sunday, February 17, 2013

Ode a Cartas de Amor







créditos: Chaerin Hwang



Domingo

Amor mío, cuento las horas que me faltan para besar tu bocica adorada. Amor, amor, me haces mas falta que el aire y con el mar, aquí, completas lo mas bello del mundo para mí. "

Pablo Neruda, Cartas de Amor a Matilde*


Gosto de cartas de amor. Não, não vou escrever uma carta de amor. E raramente leio cartas de amor dos poetas. 

Acredito nas cartas de amor. É como trocar sentimentos e olhares. A divina abstracção do real. A transcendência no divino.

Não depende de nós, mas da vida. A lua, o céu, as nuvens, o sol posto. Podemos mudar as cores, buscar flores, entrar na noite como se fosse dia. E mar. Ser mar. Infinitamente mar.

É como estar em teus lábios. Por entre teus cabelos. E o tempo corre por entre as ausências.

Alma inquieta. Caminhar sereno. As mãos pousadas no tampo da caixa dos sentimentos, hesitantes, como vagando num campo de malmequeres.

Decididamente. Não, não escrevo uma carta de amor. Chove. A noite está fria. 








Fue tan bello vivir 
cuando vivías! 
El mundo es más azul y más terrestre 
de noche, cuando duermo 
enorme, adentro de tus breves manos.

Pablo Neruda, Cartas de Amor a Matilde*


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

17.02.2013
Copyright ©2013-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

* Pablo Neruda, Cartas de Amor Inéditas | El Cultural.es


Tuesday, January 22, 2013

Seis Sessões: o filme ! A ver !






The Sessions
Ben Lewin, 2012


Há muito não escrevo sobre cinema. E todos sabem como gosto de cinema. É assim como virar-me um pouco mais sobre mim, tempos de acalmia, sentada numa sala, em contra-luz com as imagens e as histórias que saltam para o olhar em completa sincronia. Coisas que me dão prazer.
Muitos filmes em cartaz! Os Oscars estão aí! E quando é assim, de repente, os filmes sucedem-se em ritmo acelerado.

Decidi-me por The Sessions! Lera alguma coisa sobre as personagens e interpretação dos actores, sabia que contava uma história baseada em factos verídicos. 

Precisava mesmo de uma história intimista, de sentimentos, e bem contada. Gosto de filmes de afectos.

As salas de cinema andam mais vazias. É natural. Mas mesmo assim, uma plateia seleccionada e interessada. Pessoas que estavam ali para aquele filme.

Detesto entrar numa sala de multidões, muita pipoca, algum barulho. Ali não, independentemente do nível etário que era variado, todos silenciosos, expectantes, interessados.

Afinal, é para fugir do stresse diário, que sempre que posso, em final de tarde de fim-de-semana, me instalo tranquilamente num lugar silencioso em volta, recolhida, frente ao grande ecrã de som digital. Cinema é mesmo em sala de cinema. 




Seis Sessões
Ben Lewin, 2012


The Sessions, que em português foi traduzido para "Seis Sessões", (não sei muito bem qual a lógica da tradução de títulos de filmes), mas enfim, não é a mais adequada. Pode induzir em erro, porque na realidade não é bem assim. Deixarei que entendam quando forem ver. Aconselho vivamente.

O filme apareceu no Sundance Film Festival (2012) e arrebatou alguns prémios. Se não viu The Sessions, não deixe de ver.

Pelo trailer que vira há umas semanas, fui remetida para dois outros filmes, franceses por sinal, realizados por autores diversos. Intouchables (2011) que no nosso país saiu com o título "Amigos Inseparáveis" com os excelentes actores François Cluzet e Omar Sy e um outro menos recente (2007) mas inolvidável Le Scaphandre et le Papillon com Mathieu Amalric.

Voltemos entáo a The Sessions:

Mark O'Brien (personagem real) interpretada por John Hawkes é um escritor, poeta e cronista, profundamente católico que, ainda criança, contraira poliomielite. Devido à doença, perdeu os movimentos do corpo, com excepção dos da cabeça. Decide tirar um curso universitário. No entanto, tem  uma vida repleta de limitações, entre elas a de sair de sua própria casa, seus pulmões não aguentariam trabalhar sozinhos mais do que três, quatro horas. Daí viver entre uma maca e um aparelho apelidado de "pulmão de aço". 




Cheryl Green | Helen Hunt
The Sessions
Ben Lewin, 2012

É neste mundo limitado que Mark procura uma terapeuta de sexo (Helen Hunt) e contrata seis sessões de terapia sexual.

E aqui começou a minha dúvida. Como falar ou escrever sobre um filme que fala de sexo sem ser vulgar, perguntava-me! Mas o filme não fala de sexo. E muito menos de sexo vulgar. Fala de afectos.

Pois bem, The Sessions, é um filme feito de sentimentos, e consegue responder à questão, de uma forma natural, com momentos de terno humor, e sem falsos preconceitos. 

Um padre, Father Brendan (William H. Macy), surge também no filme, como a voz de uma consciência 'avaliadora' dos actos e pensamentos de Mark. Uma voz humanizada de um elemento da religião católica que gostei profundamente de ver. E com um bom sentido de humor.




Father Brendan (William H. Macy)
& Mark O'Brien (John Hawkes)
The Sessions
Ben Lewin, 2912

Mark passa os dias entre o trabalho em casa e as visitas à igreja Aí conversa com o padre Brendan (William H. Macy), seu amigo pessoal. Sentindo-se incompleto por desconhecer o sexo, Mark decide finalmente passar por uma terapeuta sexual. Cheryl Cohen Greene (Helen Hunt) é uma especialista em exercícios de consciência corporal, que o vai ajudar a conhecer melhor o seu corpo e a despertar para sensações.






Cheryl Greene (Helen Hunt) 
& Mark O'Brien (John Hawkes)
The Sessions
Ben Lewin, 2012

Um filme onde o sexo é ou parece ser o tema central, mas desengane-se. É muito mais do que isso. É uma história de vida, em que o sexo entra, normal, e é tratado de uma forma tão natural, tão carinhosa e doce, como raramente se tem oportunidade de ver.





Cheryl Greene (Helen Hunt) 
& Mark O'Brien (John Hawkes)
The Sessions
Ben Lewin, 2012


A história da vida de Mark O'Brien é profundamente comovente e, ao mesmo tempo, surpreendentemente divertida. Um homem que contraira poliomielite quando criança, ficando paralisado dos músculos, e que aos 38 anos, decide perder a virgindade.

Mas enquanto as sessões decorrem, vemos que não era só sexo que Mark procurava. Sexo é apenas o começo para o afecto que ele não tinha. Mark busca acima de tudo uma ligação emocional. Este foi provavelmente um dos aspectos mais significativos da sua vida.


A história real do jornalista e poeta Mark O'Brien, é poderosa, comovente e por vezes, extremamente divertida.

Helen Hunt e John Hawkes são dois actores brilhantes que concedem à história a naturalidade necessária e encantadora de um filme de afectos. Uma história de vida.

Hawkes (Mark O'Brien) acabou por confessar que desempenhar uma personagem com tantas restrições físicas o intimidara. 

"Mas a personagem é tão humana, tão cheia de vida, tão engraçada - irresistível  na realidade."


A já premiada actriz Helen Hunt desempenha a personagem Cheryl, a  terapeuta de sexo. Confesso que não sabia da existência desta profissão. 

A qualidade de sua actuação é tão convincente que está nomeada pela Academia para 'Melhor Actriz'.

É surpreendente que John Hawkes não tenha também sido nomeado para 'Melhor Actor' pela sua fantástica interpretação.






O filme é baseado no artigo escrito por Mark O'Brien intitulado "On Seeing a Sex Surrogate." 

Uma história linda, comovente, luminosa, e cheia de humor, interpretada por dois belíssimos actores. O filme é realizado por Michael Lewin

Uma excelente banda sonora que não se sobrepõe à história, permanece discreta, mas interessante.

 
"It's a rare film that emphasises sex and disability, while accepting that they're a normal part of life."

Nicholas Barber, The Independent

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

21.01.2013
actualizado 30.06.2024
Copyright ©2013-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Licença Creative Commons

Thursday, January 03, 2013

"This Is It" ! Michael Jackson : um documentário excepcional !





This Is It
Kenny Ortega, 2009




This Is It
  Michael Jackson
Kenny Ortega, 2009

Foi mágico! Rever Michael Jackson na imensidade da sua criatividade! Um canal de televisão transmitiu, um destes dias, o documentário sobre os últimas imagens de Michael Jackson em palco, durante os ensaios do que teria sido o seu concerto com estreia em Londres. This Is It! O título que Michael escolheu para este show.

"A compilation of interviews, rehearsals and backstage footage of Michael Jackson as he prepared for his series of sold-out shows in London."




This Is It
Michael Jackson | Billy Jean
Kenny Ortega, 2009

Que mágoa! Mágico, mesmo! Ao longo de quase duas horas desfilou a arte deste magnífico cantor, compositor e bailarino pop. A sua música, a voz, os seus inegualáveis 'moonwalk', a sua  simplicidade, diria humildade, junto de músicos, bailarinos, técnicos que partilharam com Michael os últimos momentos da sua arte. 

Suponho que a premonição esteve presente ao longo de todos estes momentos. Como quem pressente que será para a eternidade. Por parte de todos. É estranha esta sensação que me percorreu enquanto assitia ao documentário. 





This Is It
Michael Jackson 
Kenny Ortega, 2009

Uma parte da noite vivida no encantamento da criatividade de Michael Jackson! E da sua musicalidade, e sensibilidade no agradecimento e valorização das pessoas que o rodeavam naquela horas. As suas preocupações com o planeta e todos os seres vivos que nele habitam.

O seu sorriso de menino. Um menino que não teve a oportunidade de crescer como criança. Um menino que se fez homem explorado pelo pai. 

Hoje a sua memória continua a ser explorada pela família. Lamentável!

Sei que nos permite reviver Michael Jackson. Mas não deveria, por esse lado menos honesto. O da ânsia de ganhar dinheiro.





This Is It
Michael Jackson 
Kenny Ortega, 2009

As tecnologias são uma fantástica conquista. Permitem dar ernidade à Arte. Arte e criatividade de jovens, homens, mulheres que inovam! A grandiosidade do ser humano, em todas as áreas.






Há seres únicos. Michael Jackson é um deles! O maior! O Rei da Pop!

Miosótis (pseudónimo)

03.01.2013
Copyright ©2013-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 

credits: photos Sony Music

Sunday, December 23, 2012

Natal com flores de macieira





Matt Cardy | Getty Images


É Natal! E que escrever? Que Natal acontece? Ando por aqui. Os dedos poisam no teclado. Paralisados.

Nas noites o silêncio faz-se ainda mais profundo. Percorro as palavras, busco sons, oiço risos de crianças? Não! Nos espaços que percorro, só oiço crianças que choram. O meu país já não tem crianças alegres.

E Natal não é para as crianças? Pois eu então quero falar de crianças. O mundo cresce de maneira anárquica, quase perversa. E as crianças não têm nele um lugar bem definido.

Mães que não são mães. Arrastam crianças como fardos, indiferentes, descuidadas, olham as montras, não olham as crianças.

É como se o coração gelasse. E os dedos não reagem. Que civilização é esta? E recolho-me envergonhada, entristecida, nesta noite quase Natal!

Peço inspiração, medito.

E que escrever perante o olhar dessas vinte crianças que, confiantes, preparavam o Natal entre lápis de cor.

Ergo então uma prece. Peço aos anjos lá no Universo que, nessa noite, desçam mais perto desses pais, e permitam que eles oiçam o riso de seus filhos correndo pela casa, felizes, porque a noite de Natal chegou.

Anoiteceu, apagamos a luz, e depois
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.
(...)


Manuel António Pina, Como se desenha uma casa
Assírio & Alvim, 2011 (excerto)


Para todos que passarem neste lugar de afectos e palavras, votos de um Natal em paz!

Miosótis (pseudónimo)

23.12.2012
Copyright ©2012-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 

Licença Creative Commons

Monday, December 03, 2012

De repente o inverno





Serra da Estrela | Portugal

Fotografia: Nuno Pimenta



Serra da Estrela | Portugal
Fotografia: Nuno Pimenta





Serra da Estrela | Portugal

Fotografia: Nuno Pimenta


Nada me pertence -
só a paz interior
e a frescura do ar

Kobayashi Issa, Verão*


De repente foi inverno. O branco espalhou-se, silencioso, recortando o azul do infinito, embrulhando as nuvens.

Poiso o livro na mesa abstracta do imaginário, enquanto o olhar se afunda nas imagens. 

Abro a caixa da infância. As folhas soltam-se do livro e os aromas das noites de Dezembro, próximas do Natal, pairam na sala. Oiço a música que traz o sinal do tempo dos afectos. Ando à volta deles. Sacudo os cabelos, como quem espanta os pensamentos.

Paro. Na cidade, o ar húmido percorre a noite no instante do recolhimento. Está frio. Ninguém nas ruas. Os pássaros calaram-se. Silêncio. As luzes estão mais brilhantes, a lua que ainda ontem se exibia tão luminosa, recortada na paisagem,  permaneceu hoje recatada.

Volto então a pegar no livro e avanço até ao presente. No entanto, saberás que pensei em ti.

 
Anda
Vamos ver a neve
até que ela nos tape os olhos.
Matsuo Bashô, Inverno*

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

03.12.2012
Copyright ©2012-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

 Licença Creative Commons

Referências:

*As Cigarras vão morrer, Haiku, uma antologia
Editora Casa do Sul, 2008

Fotografias Nuno Pimenta


Sunday, November 25, 2012

Até que a morte os separe ?



 créditos. APAV


Para assinalar o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, 25 Novembro, a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) lançou uma campanha de sensibilização sobre violência contra mulheres.


A campanha inclui dois retratos de mulheres vítimas de violência doméstica que apresentam marcas de vitimação. 

"Estas mulheres estão vestidas de noiva, segurando ramos de flores e ostentam um anel de noivado e aliança de casamento."



Acompanha-as a frase 'Até que a morte nos separe', que remete para a existência de um crescente número de mulheres vítimas de violência doméstica que são assassinadas pelos seus maridos ou companheiros conjugais, explica a associação em comunicado.


Desde Janeiro 2012 já morreram 36 mulheres e registaram-se 49 tentativas de femicídios, segundo o "Observatório das Mulheres Assassinadas".


Toda de branco vae, n'esse habito de opala, 
Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou, 
Mas para um outro, horror! que tem por nome Valla, 
D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!... 

O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella, 
Que a perseguia sempre, em palacio e na rua, 
Vede-o, coitado! mal pode suster a vela... 

(...)

António Nobre, Enterro de Ophelia (excerto)
in Só

Miosótis (pseudónimo)

25.11.2012
Copyright ©2012-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 


Friday, November 16, 2012

Sítios que não sei








Farol do Cabo da Roca
Fotografia: Nuno Trindade

Não! Aquele fio de paixão pela escrita que me levou a criar fragmentos da noite com flores não recomeçou a emaranhar-se nestes dedos inquietos que desafiam o ritmado pensamento!

Mas as mãos que poisaram mansamente, nas tardes quentes de sabores a maresia com brilho azul-céu, tempos esparsos de acalmias, percorrendo as folhas de alguns livros de lugares de interioridades, seguem por vezes, poisando por aqui.

Verdade! Hoje o Inverno baixou mesmo na cidade, adentrando obscuras e pálidas paisagens. 

Foi quando me apeteceu reler o poeta que deixou de escrever há tão pouco tempo...


Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia..."

Manuel António Pina, Coisas que não há que há, O Pássaro na Cabeça,
Quasi Edições, 2006


Miosótis (pseudónimo)

15.11.2012

fragmentos da noite com flores

Copyright ©2012-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Créditos: Fotografia Nuno Trindade | Facebook

Licença Creative Commons

Monday, October 29, 2012

O poisar da noite com aromas




Foto: José Oliveira


Penso no inverno: a estação que ocupa
o centro do espírito. Nas árvores mais altas
que o outono despiu.

Nuno Júdice, Inverno*

Não! Eu sei! O inverno ainda não se adentrou. O outono ainda não despiu completamente as árvores mais altas. As folhas vestem os matizes ocre alaranjado mesclando os castanhos e os amarelos cor de açafrão.

Os dias mantêm-se luminosos, límpidos, numa tranquilidade atravessada pelas aves que continuam a percorrer as nuvens em bandos alegres, volteando de lá para cá, despertando a curiosidade da minha gata e o meu encantamento. 

Deixo-me seduzir por essa alegria à solta. Sigo com olhar sem fim nesse desejo de flutuar na mais imprecisa das emoções.

Coisas simples quando o que está em causa é o poisar do sol que não acontece. De rompante este celebrar da natureza quebra-se.



Foto: José Oliveira

A noite entra já pelos vidros das janelas. Poisa-se o silêncio na casa. A hora de inverno chegou, num manto de treva prematura. 

Esse limite empurra-me o olhar para outros horizontes que vão para além da linha  do firmamento, desaparecido no anoitecer brusco. O outro lado do dia. A noite.

Não que não goste da noite. Gosto sim! Mas é a cidade que morre, a natureza que prepara a longa hibernação. É o outono que cai. E me obriga a recolher.

Dir-me-ão que é o ciclo da natureza que habita também em nós. Pois será. Mas poderia ser de outro modo?

Eis que interrompo este quadro que arrasta a melancolia. Os aromas da erva doce nas castanhas assadas, da canela nas maçãs quentes saídas do forno espalham-se pela casa. 

Os sabores do tempo. 

E para além disso, o quê? A respiração do vento da minha alma.

Miosótis (pseudónimo)

28.10.2012

(glosa sobre poema de Nuno Júdice)

Copyright ©2012-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 

Licença Creative Commons

Referências:


Créditos: Fotografias de José Oliveira | Facebook

Nuno Júdice, Inverno, Cartografia de Emoções,
Publicações Dom Quixote, 2001