Tate Tatew
Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio
(...)
Mia Couto, Solidão (excerto)
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio
(...)
Mia Couto, Solidão (excerto)
E foi na hora em que me recolhia que ouvi um pássaro bem perto chilreando, alegre, quase pueril.
Mas, não é Primavera! Que fará um pássaro sem primavera cantando na noite fria? O Outono leva os pássaros, e só o calor os volta a trazer.
Perdido? Não. Cantava com alegria. Como se tivesse todo o tempo do mundo para atravessar as estações.
Perdido? Não. Cantava com alegria. Como se tivesse todo o tempo do mundo para atravessar as estações.
Não pode ser! E fui até à janela de onde chegou seu canto. Lá estava ele, chilreando, por entre pedaços de chuva como frutos abundantes que o pássaro debicava entre o verde dos ramos das árvores, na obscuridade.
Um dia cinzento-pardo, plantado de tristeza na noite escura. E entrou ele, assim, com seu trinado despreocupado, pelos meus vidros, por trás dos quais a noite se fechava na bruma fria, o céu sem lua.
Solto, leve, esse pássaro encantador continuava, arrancando-me à solidão que me tocava nos dedos.
Solto, leve, esse pássaro encantador continuava, arrancando-me à solidão que me tocava nos dedos.
Sempre me surpreendem, me fascinam estes seres delicados, frágeis, livres, independentemente do(s) tempo(s) das estações.
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra (...)
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra (...)
Mia Couto, Para ti (excerto)
Obrigada meu pássaro-cantador! Puseste um sorriso neste rosto que todo o dia permanecera tão ensombrado quanto o tempo. E me empurraste os olhos para outros limites.
Miosótis (pseudónimo)
02.11.2013
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