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Tuesday, March 20, 2007

Véu Pintado : filme, livro




The Painted Veil
John Curran, 2006
https://www.imdb.com/

"Most people cannot see anything, but I can see what is in front of my nose with extreme clearness; the greatest writers can see trough a brick wall. My vision is not so penetrating."

W. Somerset Maugham


O Véu Pintado, tradução de The Painted Veil, estava já na minha escolha cinematográfica. O actor principal Edward Norton, o facto de ser baseado num livro de W. Somerset Maugham - gosto sempre de reler os livros pelos olhos dos outros - a fotografia que me parecera lindíssima no trailer apresentado, e, como não podia deixar de ser, a banda sonora de Alexandre Desplat. Venceu os Golden Globe Awards 2007, entre outros prémios.





The Painted Veil
W. Somerset Maugham

The Painted Veil de W. Somerset Maugham (1925) é um dos clássicos que fazem parte das minhas referências literárias. 

O autor prima essencialmente pelo retrato que faz da sociedade inglesa da sua época, num estilo sóbrio e cuidado, próprio de um belo contador de histórias. Estas desenrolam-se, regra geral, em ambientes internacionais. 

A sua escrita é clara, sucinta, em tom resignado ou cínico, o que o torna peculiar e inconfundível!

"I have never pretend to be anything but a story teller. it has amused me and to tell stories and I have told a great many."

Somerset Maugham, Creatures of Circumstance, 1947




Kitty & Walter
Naomi Watts & Edward Norton
 The Painted Veil
John Curran, 2006

https://www.imdb.com/


Passada nos anos 20, a história conta-nos a vida de um jovem casal - Walter e Kitty - que casam pelas razões erradas. Uma história clássica para a época. Um casa por amor, Walter, o outro, Kitty, para fugir à autoridade materna.

Walter, colocado em Xangai, faz com que o casal viva momentos de ruptura, quando Walter descobre a infidelidade de Kitty. Decide então voluntariar-se e apoiar como médico bacteriologista, o surto de cólera que varre a China. Parte para uma aldeia remota chinesa, levando consigo a mulher.


Sem se deter demasiado na questão política que envolve um país vivendo já algumas convulsões com o império britânico, a trama centra-se sobretudo nas relações interpessoais, apanágio deste sagaz contador de histórias, Maugham.

Mais do que a história em si, demasiado clássica, embora tipifique uma determinada época, a minha motivação centrava-se bastante na beleza das imagens, em serenas paisagens, feitas em Beijing, numa estética rara do fotógrafo Stewart Dryburgh. O mesmo que se juntou a Michael Nyman no lindíssimo filme The Piano (1993).





Edward Norton
 The Painted Veil
John Curran, 2006
https://www.imdb.com/

Edward Norton
é um actor muito carismático! E embora não aprecie muitas vezes o tipo de personagens que interpreta, não posso deixar de concordar que se trata de um actor de grande qualidade. Sóbrio, quase impermeável, o seu olhar transmite um distanciamento quase absorto de sentimentos. A sua sensibilidade raramente tr
ansparece.

Vira-o há pouco tempo no filme
The Illusionist numa história que me agradou profundamente. Aí, Edward Norton mostra-se mais humanizado.

Também aqui, Norton, apesar de manter aquela postura tipicamente britânica, necessária à personagem que interpreta, acaba por deixar fluir alguns sentires na sua relação com as crianças, no hospital, onde faz investigação.






Naomi Watts

 The Painted Veil
John Curran, 2006

https://www.imdb.com/

Naomi Watts, no papel de uma mulher mimada da alta sociedade londrina, extrovertida, fogosa e pouco adaptada à sua época, deixa transparecer a ligeireza e futilidade próprias à sua personagem.

Mas ao longo do filme, e colocada perante a dura e pungente realidade que vive na aldeia chinesa, altera o seu comportamento. E acaba por se oferecer para apoiar as freiras no convento, ligado ao hospital, onde seu marido, para além das funções de investigador, presta assistência médica aos doentes terminais.

Aí, demonstra uma alegria esfuziante na sua relação com as crianças chinesas, internas no convento, a quem ensina música num piano desafinado. O piano é uma das sonoridades bem em evidência ao longo do filme, em trechos de grande sensibilidade!






 The Painted Veil
John Curran, 2006

https://www.imdb.com/

E revela-se, quando toma conhecimento que seu marido está mortalmente afectado pelo vírus epidémico que tanto ajudou a debelar, demonstrando uma dedicação e carinho ilimitados.

O filme desenrola-se num ambiente de grande tranquilidade, onde até os momentos mais dramáticos são vividos com distanciamento e alguma frieza, o que o torna desagradável, por vezes. E o final aparece assim, quase que abruptamente.

É uma história de amor, sim, mas que não chamará o grande público. Aliás, a sala estava quase vazia!


Realizado por John Curran que com Edward Norton fez um trabalho de grande maturação e estudo aprofundado da época, denota uma intenção comum de dar a conhecer um país e sua civilização, a China, nos anos 30.

Um filme de qualidade! Sem dúvida!

"This is one of the finest films of the year"
Chicago Sun-News


Miosótis (pseudónimo)


20.03.2007
Copyright ©2007-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 

Sunday, November 05, 2006

O Ilusionista : filme





The Illusionist
Neil Burger, 2006
https://www.imdb.com/


"He's a Magic Man."

Karen Durbin (
ELLE,fr)


Sábado chuvoso. Nada melhor do que uma sessão de cinema. Entre música, livros e cinema, eis as três sombras por onde divago nestes silêncios da vida.

Apressadamente, passei os olhos pelo sítio web oficial do filme The Illusionist e logo dois actores - Edward Norton e Paul Giamatti - me convenceram de imediato. Sem hesitação!

Paul Giamatti, intérprete do bem recente The Lady of the Water, Edward Norton em papéis controversos, de grande qualidade e nobreza de interpretação. Um porte esplendoroso!

Uma fábula elegante baseada na obra Eisenheim The Illusionist do premiado Pulitzer Stephen Millhauser por onde perpassa a arte, o amor e a intriga política na Viena Barroca dos Habsburgs, no virar de 1900.

Uma alquimia latente desde o primeiro encontro de um ilusionista de origem humilde com uma jovem duquesa. Um e outro vão deixar seus corações irremediavelmente presos num amor proibido.





Edward Norton
The Illusionist
Neil Burger, 2006

https://www.imdb.com/

Afastados durante anos, voltam a cruzar-se mais tarde, quando ele volta à cidade, numa trama que ultrapassará toda a previsibilidade dos espectadores pelo tom convincente, majestoso, enigmático que Edward Norton imprime tão naturalmente à personagem.

O jovem ilusionista de quem se desprende um imenso magnetismo, obtido segundo uma das lendas, ao cruzar-se com um mago, durante um passeio campestre, consegue convencer o ambicioso inspector policial - Paul Giamatti - para quem a magia e o ilusionismo são, ao mesmo tempo, um forte atractivo e fonte de entretenimento nas horas de ócio.

Um filme cativante, numa adaptação talentosa de Neil Burger, realizador de Entrevista com o Assassino (2002) construída num elo que gira em volta de ingredientes tão fascinantes como romance, intriga política palaciana, mesclados de hipnose, com muitos conceitos freudianos, e suspense, numa senda de pistas habilmente encadeadas, e encontros sabiamente forjados.





Edward Norton
The Illusionist
Neil Burger, 2006

A noção de tempo que este mágico apresenta a partir de uma laranja que depois de extraída a semente, se transforma numa laranjeira em pleno representação é espantosamente filosófica e deixa-nos pensativos sobre o que todos nós fazemos do tempo ou sentimos acerca dele.

O lenço de mão que esvoaça seguro por duas cintilantes borboletas - a simbólica da borboleta tem uma forte incidência amorosa na trama - até à espada do herdeiro, em incursão sobre Excalibur que já mereceu um filme, ligado às lendas arturianas, Tudo isto faz deste filme um incrível momento de magia, beleza, atravessado sempre pelo mistério e magnetismo que passa da audiência do teatro local, e para a sala de cinema, já que filmado, subtilmente, em luz muito ténue e difusa, até ao momento do desvendar da verdade.






Edward Norton & Jessica Biel
Edward Norton
The Illusionist
Neil Burger, 2006

Aí, a tela inunda-se de luz num ambiente contrastante, campestre, chamando à realidade os espectadores, como se despertados fossemos de um sono hipnótico onde o encantamento prevaleceu num toque de magos.

De assinalar a banda sonora do renomado compositor de música contemporânea, Philip Glass, sóbria, minimalista, realçando mais o suspense que atravessa todo o filme. Sem esquecer a fotografia esplendorosa de Dick Pope num jogo contrastante de claro/escuro.

"Romantic... smart... gorgeous!"

Bob Mondello,
NPR


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

4/5.11.2006

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