Naufrágio do Olivia Ribal
créditos: Paulo Octávio
O naufrágio, o desespero, do Olivia Ribal, pelos olhos deste fotógrafo anónimo. Todos vimos. Quase ouvíamos.
A angústia, os gritos das famílias, ali, poisadas na praia, de olhos fixos no mar, - como sói nesta vida ingrata de pescadores.
Esta tragédia magoou-me. Ali tão perto da praia.
Um tempo, outros tempos que a memória evoca. Memórias de infância, férias de verão. Praia piscatória de grande tradição de mar. Póvoa de Varzim.
Vozes nocturnas, sombras vestidas de negro, chorando em circulo, rezavam, em noites de mar bravio, traiçoeiro. Apelavam pela benção de ver de madrugada chegar, os que já tardavam.
Como sofria, aflita, criança, olhando pela varanda virada ao mar. Não entendia muito bem, mas na alma entrava-me a dor de todas aquelas mulheres, quando seus homens - maridos, filhos, pais - não chegavam.
E quando tardavam de mais ou ouvidas novas agoirentas, as mulheres levantavam-se, e fazendo frente ao tenebroso bramido do mar, lançavam pragas - mar impiedoso - que lhes dava o pão, mas lhes tirava os homens.
Erguiam os braços para o infinito, pedindo misericórdia, para que os corpos dos seus entes lhes fossem devolvidos. E por ali ficavam até o mar os trazer.
"nunca mais faltem ao respeito para com aqueles que fazem do mar a sua vida". - ouvi, um destes dias a alguém do mar. Silenciei, como em prece, relembrando essas noites de infância.
Fui reler Miguel Torga. Poiso seus versos aqui, em tributo aos valerosos pescadores da Figueira da Foz. E estendo a todos os homens do mar do meu país.
Mar Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Era um campo macio de lavrar
Ou qualquer sugestão que apetecia...
Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...
Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!
Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!
Mar!
E quando terá fim o sofrimento!
E quando d)eixará de nos tentar
O teu encantamento!
Miguel Torga, in Antologia Poética
Requiem do tempo presente.
Miosótis (pseudónimo)
fragmentos da noite com flores, brancas
11.10.2015
Copyright ©2015-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®
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