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Saturday, April 04, 2026

Páscoa indecisa

 





via Google Images Archive



QUEM


Não sei como se ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba
nem se há palavra para voltar
do grande rio do
esquecimento.
Não sei se no terceiro dia
alguém me espera. Ou se
ninguém.
Em cada poema levanto a pedra
em cada poema pergunto quem.


Manuel Alegre


Miosótis (pseudónimo)


fragmentosdatadecomflores


04.04.2026

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Saturday, February 14, 2026

Do amor

 


 Cupid's Message
Norman Rockwell
The Saturday Evening Post. ©1924 


Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,


puxaste-me para os teus olhos


transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,


ainda apanhámos o crepúsculo.


As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar


diferente inundava a cidade. Sentei-me


nos degraus do cais, em silêncio.


Lembro-me do som dos teus passos,


uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,


e a tua figura luminosa atravessando a praça


até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,


o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,


continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha


essa doente sensação que


me deixaste como amada


recordação.



Nuno Júdice,
Amor 

via Portal da Literatura


Miosótis (pseudónimo)


fragmentosdodiadoamorcomflores

14.02.2026

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Sunday, September 01, 2024

Chegou Setembro ? Tão cedo !

 




When the winds of change blow... 


As asas da mudança sopram serenamente, Talvez mais serenamente do que as asas de Agosto. Ventosas em extremo.


Mas é verdade que Setembro já sopra melancolia. E eu deixo-me levar sem lutar contra essa melancolia que me arrasta inflexivemente para outras asas mais penosas. Inverno.


Só consigo pensar que o Inverno aí vem. Triste, escuro, e frio. Não gosto do Inverno.


Procuro todos os pedacinhos de luz que vão sendo mais escassos. A noite cai com muita pressa. 


Neste final de tarde que traz aromas outonais,  o sol ainda tenta resistir - depois de uma manhã cinzentona - mas já vai desmaiando em reflexos prateados sem cor definida. Neutra. Sem aquelas tonalidades esfuziantes.


Quieta, medito sem meditar.


E reescrevo os versos do meu poeta... deixou-nos este ano. No silêncio.


Em Setembro a contrução do ser torna-se mais fácil:
o outono, com a sua melancolia, empresta um estranho
perfume de terra ao espiríto.

excerto de "A contrução do ser"

Nuno Júdice, 
Cartografia de Emoções, 

Publicações Dom Quixote, Lisboa 2001, 1ª edição


Miosótis (pseudónimo)

01.09.2024
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Monday, April 24, 2023

Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor : Da poesia, Natália Correia & Eugénio de Andrade

 



créditos: Darwin Vegher / Unsplash


Como todos sabemos, celebra-se hoje, dia 23 Abril, O Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. 

Livros! Tudo o que nos preenhe a alma, em horas de lazer, de tristeza, e até de alegria. O livro é a extensão da nossa alma. Tal como a música.


"Dos diversos instrumentos utilizados pelo Homem, o mais espetacular é, sem dúvida, o livro. As demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação". 

 Jorge Luis Borges, in “Cinco Visões Pessoais”


No Dia Mundial do Livro, evoco dois dos autores portugueses, dos cinco cujo Centenário de nascimento se celebra ao longo de 2023: Natália Correia e Eugénio de Andrade. Dilectos na leitura. 






Natália Correia [1923-1993]
créditos:  Autor não identifcado


Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

Natália Correia, O Livro dos Amantes IX


Lembrar teus carinhos induz
a ter existido um pomar
intangíveis laranjas de luz
laranjas que apetece roubar.

Teu luar de ontem na cintura
é ainda o vestido que trago
seda imaterial seda pura
de criança afogada no lago.

Os motores que entre nós aceleram
os vazios comboios do sonho
das mulheres que estão à espera
são o único luto que ponho.


Natália Correia, Bilhete para o Amigo Ausente

in a O Vinho e a Lira





Eugénio de Andrade [1923-2005]
créditos:  Revista Caliban


Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.

Eugénio de Andrade, “Até Amanhã“,

 in “Até Amanhã”, 1956


O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade, Quase Nada
in “Primeiros Poemas”, 1977 


Há lá dia mais lindo do que este de celebrar os livros! A magia das palavras que se abrem na extensão do sentir.  Livros! Afectos meus!

Miosótis (pseudónimo)

23.04.2023
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Sunday, March 12, 2023

Minha amiga, sem aviso, partiste !

 




credits: Peakpx


A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida. (...)

Fernando Pessoa, A morte chega cedo


Dia cinzneto-pardo, um céu sem azul de pranto, os olhos enevoam-se de lágrimas. Tão sentidas! Tempo de murmúrios mudos. Quanta tristeza!

O silêncio poisou na paisagem. Abrupto. Uma nuvem abriu túneis sulcados de lágrimas. E as flores perderam seu encanto. 

E no entanto, dia de tentativa do despertar da primavera, depois de noite chuvosa. Inóspita! Domingo triste.

As primeiras flores que despertam deixaram de ter cor. E as flores perderam a beleza.

A irmã que não tive. A amiga presente em muitos momentos. Companheira as aflições. Mútuas.

Partiu. Sem contar. De mansinho, sem uma palavra. Desfez-se num último suspiro. Na ausência de alguns que tanto amava. Filha, netos. Só o fiho sempre presente. Apanhada de surpresa, partiu.

Sensação desse desconsolo se queda em meu olhar, vago, desolado. 

Minha alma chora, ainda mais orfã, neste domingo de princípio de Primavera. Lacrimosa, procuro algum sentido na ausência de um abraço. Fraterno.

Deambulo de tristeza. Entre passos e pensamentos. Um dia de silêncios. 

Minha amiga, agora distante.


Miosótis (pseudónimo)

12.03.2023
Copyright ©2023-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Sunday, February 12, 2023

Em tempos adversos, pequenas luzes no fundo dos escombros






Destruição em Kahramanmaras, Turquia

 créditos:Yahya Nemah/EPA

via Renascença


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
(...)

Vinicius de Moraes, Natal


As imagens que chegam do terramoto na Turquia e na Síria são absolutamente devastadoras. A tragédia ainda nem sequer está totalmente contabilizada, os abalos ainda se sentem, o pó do trauma ainda não assentou. Os mortos ainda se contam. 


Um balanço confrangedor em paises, já de si tão sofredores. Sobretudo a Síria.


As equipas nacionais e internacinonais de busca e salvamento lutam contra o tempo para tentar salvar o maior número de pessoas presas sob os escombros.


Na minha Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar ---
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar...
(...)

Mário Sá-Carneiro, Recreio


Mas há momentos felizes. O menino que foi salvo na Turquia pela equipa portuguesa de resgate, com auxílio de um dos cães que sinalizou o local.





Criança resgatada pela equipa portuguesa
via YouTube





Família mãe e três crianças resgatadas, Síria
créditos: REUTERS


Ou famíla regastada pelas equipas dos 'Capacetes Brancos' que conseguiram retirar dos escombros, mãe e três crianças, soterradas desde o primeiro sismo na Síria. 


Como a criança que vagueia o canto

Ante o mistério da amplidão suspensa

Meu coração é um vago de acalanto

Berçando versos de saudade imensa.

(...)

Vinicius de Moraes. Soneto da Contrição





Criança resgatada, Turquia
créditos Erdem Sahim/EPA


Não há muito a escrever sobre esta perda inimaginável de pessoas, animais e bens. Mas há muito a sentir e discernir na pequenez de todos nós perante tais forças.

O fim da ilusão que controlamos o nosso amanhã. Em um minuto, tudo mudou. A terra tremeu. Tudo isto de um segundo para outro, sem qualquer aviso.

Nunca deixaremos de ser imensamente pequenos. Vivermos num planeta em que quem manda é definitivamente a natureza. Nunca seremos pouco mais dos que fragmentos impotentes. 

Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados

O esplendor do sentido nenhum da vida... 

(...)


Álvaro de Campos, Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados.

in a A Partida, segundo Álvaro de Campos - Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição Crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite co flores

12.02.2022

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Wednesday, December 28, 2022

António Mega Ferreira [1949-2022] : tanta coisa se poderia escrever !

 





António Mega Ferreira
créditos: DR
via SIC Notícias

"Que não tinha medo da morte, embora tivesse medo de morrer sozinho em casa - espero que tudo tenha corrido bem, que tenha partido acompanhado e com a luz da mesa de cabeceira acesa."

Luís Osório TSF


Esquece-te de Mim, Amor

Esquece-te de mim, Amor
das delícias que vivemos
na penumbra daquela casa,
Esquece-te.
Faz por esquecer
o momento em que chegámos,
assim como eu esqueço
que partiste,
mal chegámos,
para te esqueceres de mim,
esquecido já
de alguma vez
termos chegado.



António Mega Ferreira, Os Princípios do Fim


Um dos mais cultos protugueses dos últimos anos. Adorava a vida, adorava apaixonar-se por pessoas, adorava perder-se em livros, em quadros, em óperas e teatros, em viagens. Muitas viagens não pode fazer por razões de saúde. Nasceu em Lisboa. Morreu em Lisboa, cidade que tanto amava. 


"Não sou capaz de escrever um livro sobre Lisboa, é demasiado íntimo, demasiado próximo; não tenho recuo nem distância."

António Mega Ferreira,

in entrevista/ Visão


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite con flores

28.12.2022

actualizado 05.08.2024
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Tuesday, November 15, 2022

Chove. Há tristeza que se solta


 




créditos: Andre Kokn, 1972

... Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se (...)

Fernando Pessoa

Chuva. As últimas semanas têm sido de chuva, chuva que cai intempestivamente, por vezes. Esta madrugada choveram baldes de água. Ó Deus! 

Sei que é necessária. O país estava em seca quase extrema. Mas tantos dias! Tanta água caindo de nuvens espessas e cinzentonas. Um sufoco. 

Outono adentrou-se abruptamente e a chuva surgiu! Esta impõe-se com uma intensidade desmesurada. Os pássaros despareceram espavoridos, tentando sacudir o peso das gotas grossas da chuva, deixando a paisagem ainda mais trostonha.
 
Mas, eis que surigiram dois ou três dias de sol suave em quase final de semana. As inóspitas chuvas desapareceram por breve pausa. E os olhos ainda encharcados de tanta chuva briharam na luminosidade que bailava em subjectivas formas tudo em volta.

Oh! De novo a chuva. Sem remédio.

(...)
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece… (...)

Fernando Pessoa, Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
02.10.1933

in Poesias (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) 
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995) 

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite con flores

15.11.2022
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Saturday, October 08, 2022

Fim de tarde, em tempo outonal !

 




créditos: Autor não identificado
via Google Images

Outono, tempo preguiçoso. O dia mantém um ar morno, quase doce, sob sol semi envoado. A noite esfria. Leva-nos a abandonar a letargia e procurar agasalho aconchegante, leve. 

Outono é uma nova dança da natureza. O vento espalha as folhas que bailam no  ar. E mesmo quando caem, a dança continua até finalmente poisarem, quietas, nos passeios, jardins, ou ruas. 

Nesse bailado, não perdem a leveza, apenas nos distraiem a alma. 

Paz? Nem por isso. Outono é tempo de mudança. Tempo de repensar a vida.

Outono chega. Nessas cores tão coloridas, apenas nos perdemos na reflexão intimista. A natureza muda. E com ela, mudam os nossos ritmos. E rumos.

É tempo de espiritualidade


Tarde pintada

Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga, in Diário X


Miosótis (pseudónimo)

09.10.2022

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Thursday, June 10, 2021

O Mar & o Dia Mundial dos Oceanos





credits: Andre Kohn


"Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade."

Sophia de Mello Breyner Andersen, Mar Sonoro

«É o meu lugar. O lugar que me devolve as energias, e o relaxamento que preciso. O lugar onde me sinto em paz. Entrego as pesadas energias ao mar. Volto leve. Energias renovadas.

A beleza do mar enche-me de paz. A ver o mar. Como se fosse meu leito. Tranquilidade.  

O marulhar da água no vai-e-vem traz-me serenidade. É a minha terapia maior. Revitalizada.

Gosto de murmurar ao mar os meus segredos, as angústias, as alegrias. E as tristezas. Venho de alma lavada.

Adoro caminhar ao longo da praia, no verão. Gosto de ver o reflexo do sol espelhado no mar, a luz difusa que se espraia entre o firmanento e o mar.




World Oceans Day 2021



Por isso, respeito e venero o Dia Mundial do Oceanos tem lugar no dia 8 Junho, decretado pela pela ONU em 2008..

Mas é celebrado em inúmeros países, desde 1992, após a realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, no Rio de Janeiro.

Os oceanos cobrem mais de 70% do nosso planeta. É a nossa fonte de vida, o sustento da humanidade e de todos os outros seres vivos.





Os oceanos são a paz para a nossa alma, mas também a subsistência da Humanidade.

Ligados ao nosso bem-estar e à nossa própria sobrevivência, a conservação e o uso sustentável dos nossos oceanos é mais do que nunca uma necessidade vital.


"A day for humanity celebrate the ocean."

UN 


Miosótis (pseudónimo)

09.06.2021

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Sunday, March 21, 2021

E no Dia Mundial da Poesia

 



Blue bird tulips
Robbin Rawlings


E há poetas que sãp artistas

XXXVI

 

E há poetas que são artistas

E trabalham nos seus versos

Como um carpinteiro nas tábuas!...

 

Que triste não saber florir!

Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro

E ver se está bem, e tirar se não está!...

Quando a única casa artística é a Terra toda

Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

 

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira.

E olho para as flores e sorrio...

Não sei se elas me compreendem

Nem se eu as compreendo a elas,

Mas sei que a verdade está nelas e em mim

E na nossa comum divindade

De nos deixarmos ir e viver pela Terra

E levar ao colo pelas Estações contentes

E deixar que o vento cante para adormecermos

E não termos sonhos no nosso sono.


Alberto Caeiro, E há poetas que são artistas, O Guardador de Rebanhos,

in  Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa, Ática, 1946 (10ª ed, 1993



Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores


21.03.2021

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Friday, January 29, 2021

Continuo por aqui em tempo sombrio

 



Lembras-te quando era tudo diferente, 1975
Ana Hatherly*


"Criar é organizar, lutar contra a potência do espírito desordenado. Criar beleza é opor a graça à força caótica da fealdade. [...] a beleza se acha confundida na desordem do caos que se mistura ou se misturou à criação divina. [...] Quem sabe se o caos não é se não a memória dos homens, a sua multiplicidade, as diferenças abissais que separam uma alma de outra e todas do conhecimento supremo. Esquecemos?"

Ana Hatherly, excerto A beleza e o caos
in 57, ano IV, n.° 9, Lisboa, Set. 1960, p. 6 e 10.


Espírito desordenado... Tempo feio. Triste. Macilento. Chuva. Chuva. Sempre chuva. Não posso ir  à varanda. O silêncio fica por trás da janela, olhando um horizonte sufocante de  nevoeiro. Observo as plantas que vão morrendo nos vasos. Flores derramadas pela tijoleira, espalhadas, sem vida. Tudo mudou depois daquele Estou por aqui.


O Inverno tem descido rigoroso. Pesado. Já basta não se poder sair de casa. Nem há horizonte para se mergulhar o olhar. Só nuvens espessas, embrenhadas no nevoeiro. 


Se por um lado obriga as pessoas a ficarem em casa, por outro, a vitamina sol faz falta. E a tristeza, o desconforto descem.


Bem gostaria de estar na varanda a olhar o mar lá longe em dias de horizonte limpo. Luminoso. Mesmo com Sol de Inverno.


A minha rua está cheia de carros estacionados, adormecidos, como que sem dono. Não há crianças nas ruas. Nem por trás das janelas. Não há os risos de adolescentes, vozes de adultos. Silêncio absoluto na praceta. 


Não vejo a luz ao fundo do túnel perdida no nevoeiro denso que não deixa vislumbrar um pouco de azul. Como criar beleza sem azul?


Inspiro-expiro, 1959-1969
Ana Hatherly*

Gosto muito de estar em casa. Adoro o meu cantinho, tiro proveito dele, faço o que me apetece. E por vezes nada. Não tem sido fácil.


Lá me entrego ao meu treino dentro de casa. A minha prática de yoga. Não posso deixar que a falta de vontade supere o que tanto gosto de fazer.


Venha o Sol, meu Deus! Criação divina.


Miosótis (pseudónimo)


28.01.2021

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* Obras de Ana Hatherly sem referência de origem.