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Sunday, April 04, 2021

Páscoa ! Reflexão de um tempo sem fim !

 




"Não se pode dizer para a primavera: tomara que chegue logo e dure bastante.

Pode-se apenas dizer: venha, me abençoe com sua esperança, e fique o máximo de tempo que puder."

Paulo Coelho

O silêncio prolongou-se. E a contratemo, instalou-se mais do que o esperado. Silêncio é precioso. Um dom que devemos saber cultivar!

E num tempo de Primavera, soa ainda mais forte. Desmesuradamente longo.

Continuo por aqui. Mas não tão optimista. 

Valha-nos a Primavera que chegou luminosa, em tempos soltos, para os pássaros e para as flores.

Uma natureza vibrante que nos ensina o poder da renovação, na ausência das palavras.

Perante a sustentação do afastamento dos que amamos, das coisas que nos dão alegria, serenidade no gesto do pensamento, recebe-se o leve poisar da Primavera. E ficamos assim a ouvir esse silêncio mais cordato, harmonioso.

A este tempo, um outro tempo chegou. Páscoa

Reflexão. Tentamos a serenidade que os tempos difíceis não nos têm permitido. 

Que esta meditação perfeita, entre a beleza do olhar e o silêncio da alma, nos traga paz para o encontro diário com o nosso confinamento.

Miosótis (pseudónimo)

04.04.2021
Copyright ©2021-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com



Friday, January 29, 2021

Continuo por aqui em tempo sombrio

 



Lembras-te quando era tudo diferente, 1975
Ana Hatherly*


"Criar é organizar, lutar contra a potência do espírito desordenado. Criar beleza é opor a graça à força caótica da fealdade. [...] a beleza se acha confundida na desordem do caos que se mistura ou se misturou à criação divina. [...] Quem sabe se o caos não é se não a memória dos homens, a sua multiplicidade, as diferenças abissais que separam uma alma de outra e todas do conhecimento supremo. Esquecemos?"

Ana Hatherly, excerto A beleza e o caos
in 57, ano IV, n.° 9, Lisboa, Set. 1960, p. 6 e 10.


Espírito desordenado... Tempo feio. Triste. Macilento. Chuva. Chuva. Sempre chuva. Não posso ir  à varanda. O silêncio fica por trás da janela, olhando um horizonte sufocante de  nevoeiro. Observo as plantas que vão morrendo nos vasos. Flores derramadas pela tijoleira, espalhadas, sem vida. Tudo mudou depois daquele Estou por aqui.


O Inverno tem descido rigoroso. Pesado. Já basta não se poder sair de casa. Nem há horizonte para se mergulhar o olhar. Só nuvens espessas, embrenhadas no nevoeiro. 


Se por um lado obriga as pessoas a ficarem em casa, por outro, a vitamina sol faz falta. E a tristeza, o desconforto descem.


Bem gostaria de estar na varanda a olhar o mar lá longe em dias de horizonte limpo. Luminoso. Mesmo com Sol de Inverno.


A minha rua está cheia de carros estacionados, adormecidos, como que sem dono. Não há crianças nas ruas. Nem por trás das janelas. Não há os risos de adolescentes, vozes de adultos. Silêncio absoluto na praceta. 


Não vejo a luz ao fundo do túnel perdida no nevoeiro denso que não deixa vislumbrar um pouco de azul. Como criar beleza sem azul?


Inspiro-expiro, 1959-1969
Ana Hatherly*

Gosto muito de estar em casa. Adoro o meu cantinho, tiro proveito dele, faço o que me apetece. E por vezes nada. Não tem sido fácil.


Lá me entrego ao meu treino dentro de casa. A minha prática de yoga. Não posso deixar que a falta de vontade supere o que tanto gosto de fazer.


Venha o Sol, meu Deus! Criação divina.


Miosótis (pseudónimo)


28.01.2021

Copyright ©2021-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com


* Obras de Ana Hatherly sem referência de origem.

Sunday, November 29, 2020

A propósito de René Magritte : Ode a minha mãe no céu azul-claro

 




The Palace of Curtains III
René Magritte, 1928-1929

"In this work Magritte presents the equivalent visual and verbal signs for the concept ciel (French for "sky") in two identically shaped panels."

MoMA

Céu! O conceito visual ciel de Magritte preencheu o domingo de confinamento. Obrigatório.

A manhã comecou linda. Luminosa. Céu limpo, num tom azul-claro próprio do Outono, quase Inverno. Mas, azul! 

E foi esse céu azul, enquanto não se esbateu em nuvens cinza-claro que deu vida a este entre paredes. 

Lá alto, por entre esses tons pastel, busquei como que o afago do sorriso de minha mãe. E daqueles olhos seus, azul-claro.

Dia do seu aniversário. Veio mais viva a lembrança de seu sorriso doce. A falta de seu olhar azul-claro, poisado no meu rosto. Quanta ternura acolhedora!

Silêncios marejados de lágrimas de saudade. Fugi deste encerramento entre paredes, buscando seu rosto. No azul-claro do céu.

E o céu azul-claro, enquanto não varrido pelas nuvens cinza-claro, - tudo em tons pastel, tal como Magritte pintou- trasmitiu-me paz.

(...)

Small clouds are sailing,
Blue sky prevailing;
The rain is over and gone!

Maya Angelou, Written in March

Miosótis (pseudónimo, dedicado a minha mãe)

29.11.2020
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