E a chuva, quando falta muito, pede-se (...)
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece… (...)
Tout ce que je connais de moi c'est ce que me raconte le vent: la médiunnité des branches qu'il agite. Natália Correia
XXXVI
E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...
Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.
Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira.
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.
Alberto Caeiro, E há poetas que são artistas, O Guardador de Rebanhos,
in Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa, Ática, 1946 (10ª ed, 1993
Miosótis (pseudónimo)
fragmentos da noite com flores
21.03.2021
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(À memória de Soame Jenyns,
lembrado depois do poema escrito)
Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias E nas palavras em que naturalmente se despejam…
Depois de escrever, leio…
Porque escrevi isto? Onde fui buscar isto? De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos? Álvaro de Campos |

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