Showing posts with label meditação. Show all posts
Showing posts with label meditação. Show all posts

Friday, July 07, 2017

A tristeza junca meus dias






créditos: Autor não identificado


Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
Arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos…

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei: vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem

Antero de Quental, Com os Mortos


Miosótis (pseudónimo)


07.07-2017
Copyright ©2017-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 

Saturday, March 26, 2016

Outro tempo : Páscoa



Easter

O silêncio prolonga-se. Instala-se. Cada dia que nasce traz a esperança de quere escrever. Sons em palavras. Falar de sentimentos, descrever emoções, impressões.

É verdade que a vida não é só um registo de memórias. Há os afectos. Como encontrar a forma simples de partilhar imagens doces, momentos únicos, guardados dentro de mim, num canto em que só eu chego?

Desmbarco aqui, onde posso contar de mim. Acompanho a progressão dos cheiros da primavera, tímida, num desfraldar de folhas secas  que o equinócio de vernal tenta afastar para longe.

Estes lapsos que se instalam no coração das palavras.

E chega a Páscoa. Tento romper a rosa-dos-ventos. Uma nova reflexão.

Busquemos a serenidade que os tempos indisciplinados nos retiram. Diferentes sentimentos surgem. 

Que esta espécie de meditação, entre serenidade e tormenta, nos convide à paz para o encontro diário com o outro. Com a vida.

Quem

Não sei como se ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba
nem se há palavra para voltar
do grande rio do
esquecimento.
Não sei se no terceiro dia
alguém me espera. Ou se
ninguém. (...)

Manuel Alegre, Quem (excerto)


Miosótis (pseudónimo)

26.03.2016
Copyright ©2016-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Thursday, October 16, 2014

Fadas no caminho




Woodland fairy | Viona Art

"L'été qui s'enfuit est un ami qui part ."

Victor Hugo

Pouco a pouco as temperaturas baixam, os casacos voltam a sair dos armários, e as folhas volteiam com abundância pelo ar. O Outono instalou-se. Mais agressivo do que gostariamos.

Que é feito dos outonos doces, tempo de serenidade? Alguma melancolia acompanhava o recolhimento da natureza. Mas era própria do tempo.

Manhãs frescas, e tardes cálidas que aqueciam um pouco o nosso desconforto de uma época do ano em que a luz vai fenecendo, deixando-nos mais sombrios.

Mas este inverno fustigante que se abateu, apaga qualquer tentativa de sorriso, um pensamento mais animador.

Temos apenas um desejo: voltar a casa, afundar no sofá, tomando uma chávena de chá fumegante, aromatizado com uma folha de menta, enquanto ouvimos música, e abrimos um livro.

A noite avizinha-se igual ao dia. Inverno profundo.

Mais tarde, fui à minha pequena biblioteca em busca de uma leitura mais leve, antes de adormecer. Nesse percorrer do olhar, um livrinho apareceu. Sim aqueles mini livros que nos oferecem nas festas, aniversários, pequenas gestos de amizade.

Decidi abrir. Notei que havia um curto pensamento para cada dia, acompanhado do esboço de uma pequena fada. 

Fadas, só me lembrava dos livros de infância, mais tarde, nas tradições da literatura céltica, em tempos de estudos académicos.

E folheei até encontrar o dia 16 de Outubro. Deparei com a Fada da Meditação.

Procure libertar a sua
mente de preocupações
visualize algo que lhe 
agrade e deixe-se ir
simplesmente.
Relaxe!

Divertida, já meio ensonada, disse de mim para mim. Ora ! Nem sabia que existiam fadas da meditação, dos mistérios, da transição, da escolha. Uma infinidade ! Finalmente, um sorriso.

A fada da meditação serenou um pouco minha alma. Talvez que possa abrigar mais alguém que por aqui passe. 

Às vezes as leituras mais despretensiosas encerram algum conhecimento.

Espero que amanhã, o sol brilhe sobrepondo-se às nuvens, luz diáfana, e se levante uma brisa trazida pelo mar, bafejados pela fada do universo.

Miosótis (pseudónimo)

16.10.2014
Copyright ©2014-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 


Tuesday, April 15, 2014

Páscoa, um tempo sem pássaros





Cherry tree blossom
 Photo: CHSZ Preservation Society/AFP/Getty Images

Gosto do culto de Sakura. A flor de cerejeira associada ao éfemero da vida. A mesma filosofia que vi e me fez gostar do filme Último Samurai

Sei que as cerejeiras se situam perto dos templos budistas. 

Talvez por isso, monges e cientistas se unam em torno do mistério cósmico da cerejeira que cresceu de uma semente. Uma semente que permaneceu a bordo da International Space Station (ISS) durante oito meses. Acaba de florir, alguns anos mais cedo do que natureza prevê. E com flores surpreendentes. 

Falo da cerejeira junto do templo Ganjoji, na cidade de Gifu, Japão.

Porém, um outro mistério se adensa por cá. Que é feito dos pássaros? Esta primavera tardia, pouco segura, está ainda mais triste. Silenciosa! 

Não há pássaros. Os bandos de pássaros que costumavam cruzar bem perto da minha janela, em voos migração. E os pássaros que chilreavam nas madrugadas, nos ramos das árvores.

Que é feito dos pássaros? Por que não cantam eles? Cantaram prematuramente nas noites de Novembro?

Lembram, ainda a noite se mostrava fria, e já os pássaros rondavam por aqui, alta madrugada, chilreando alegres, pueris, perto da minha janela. Tinha mesmo um pássaro cantador que voltava a cada primavera.

Fugiram ao frio ? Emigraram para terras mais aprazíveis? Oh ! Não ! Fazem-me falta. Os pássaros, e os seus chilreios. Traziam-me alegria na noite, davam-me paz ao entardecer, força de viver a primavera pela manhã.

O silêncio prolonga-se. Instala-se. O silêncio é bom, eu sei, por vezes, quando cultivado no momento certo! Ouve-se a alma com tranquildade.

Mas já me perco na minha interioridade ! Sem pássaros, as pausas são ainda mais longas.

Neste tempo de primavera pascal que se anuncia, a ausência dos pássaros faz-nos repensar a vida. É como se a a natureza nos esquecesse, e nos mergulhasse na ausência das coisas belas que enchem o mundo.

Será uma Páscoa mais triste, com certeza . Como se não bastasse viver num país de semblantes cerrrados.

Senhor, trazei os pássaros de volta !

Para que a meditação de Páscoa seja mais doce, para que a serenidade do tempo se refugie na alma, com encantamento, ao som do canto fresco dos pássaros. E a paz se adentre.


Erguei o nosso ser à transparência 
Para podermos ler melhor a vida 
Para entendermos vosso mandamento 
Para que venha a nós o vosso reino 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos (...)

Sophia Mello Breyner, A paz sem vencedores nem vencidos

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores
(introspecção de Páscoa)

15.04.2014
Copyright ©2014-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Friday, March 29, 2013

Páscoa, um outro tempo





O silêncio prolongou-se. Instalou-se mais do que o tempo esperado. Mas silêncio é precioso e um dom que devemos saber cultivar! Para deixar que a alma se exprima! 

Há anos que sofro de interioridade. Por vezes, me perco nela! 
É como ouvir as pausas entre os sons. As pausas fazem parte integrante da  música. Então o silêncio é sentimento!

E num tempo de primavera desmedidamente enganoso, frio, desconfortante, o silêncio começa a incomodar perante uma natureza que não reage, não vibra, e nos mergulha ainda mais na ausência das palavras.


A este tempo, um outro tempo se aproxima. Páscoa. Uma outra reflexão.

Nesta Páscoa, tentamos a serenidade que os tempos difíceis não têm permitido. 

Diferentes sentimentos surgem e passam, e cada um apenas expressa a sua própria natureza. 



Que esta meditação, entre a serenidade que nos é pedida, e o silêncio da alma nos convida, nos traga paz para o encontro diário com o nosso eu. E com o outro.

A meu favor tenho o teu olhar 
testemunhando por mim 


(...)

Protege-me com ele, com o teu olhar, 
dos demónios da noite e das aflições do dia, 
fala em voz alta, não deixes que adormeça, 
afasta de mim o pecado da infelicidade. 

Manuel António Pina, Completas

in 'Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância'

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores
(introspecção de Páscoa)

29.03.2013
Copyright ©2013-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Licença Creative Commons



Wednesday, November 03, 2010

Escritos soltos






créditos: Mathias Schrader | AP 2010
via Yahoo.com photos


... eu adoro o final de tarde quando luminoso! É como que o recolher à nossa interioridade, o regresso ao nosso eu absoluto. E os aromas que se mesclam com mais intensidade, trazendo de volta tantas reminiscências... 


E a noite adentra-se e o estar de frente para nós fica translúcido! Como olhar a lua.

Serenidade!


(...)
Porque isto foi só um raio de luar e uma tristeza minha,
E uma suposição de outra coisa,
E o resultado de existir…

(...)


Álvaro de Campos, De la Musique
(17.09.1929)*



Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores
03.11.2010


Copyright ©2010-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®


Álvaro de Campos, De la Musique (17.09.1929)
in Poesia, Assírio & Alvim. ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Casa Fernando Pessoa, Banco de Poesia (digital)




Wednesday, October 20, 2010

Tempo das palavras

Há um tempo para as palavras? Não sei! Este vídeo poema de José Luís Peixoto deixou-me introvertendo as palavras! É que em tantos momentos queremos falar e não abrimos as palavras com receio de importunar o outro. 


E na noite elas instalam-se baixinho, num doce toque dos lábios que se entreabrem só para... respirar.

Uma meditação sobre as palavras que se não ouvem 






sob o poema "Não há motivo para te importunar a meio da noite" de José Luís Peixoto.


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

20.10.10
Copyright ©2010-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®



Monday, July 12, 2010

Interioridade




'...e o silêncio cresce e é fundo e é total, de tal modo que poucos notam que é apenas silêncio...'


Teolinda Gersão, O Silêncio, pág. 110
Bertrand, 1981, 1ª edição



Sim, esta curta passagem encaixa-se profundamente em mim! Vivo momentos de grandes silêncios! E nem sempre me afasto deles!


É como que uma segunda natureza que poisa diariamente e se adentra, tal como as noites frescas de verão.


Também poderia senti esses silêncios como grandes viagens de interioridade espiritual que não gostaria ver transformados em sagração.


Talvez sejam travessias... mas estas travessias vêm-se repetindo com prazos longos. Leio, suspendo, deixo de ouvir as vozes, os sons que me rodeiam são pequenas distracções, um carro solitário que passa lá em baixo, na rua. 


A noite está demasiado quieta. Fico apenas atenta ao pensamento que me percorre, nesta madrugada.


'...O tempo passa, as estações deslizam diante da janela,...'

Teolinda Gersão, O Silêncio, pág. 20
Bertrand, 1981, 1ª edição

É tarde! Não olho o relógio. Sinto-o pela quietude da natureza! Tempo de recolhimento. Preciso descansar. Amanhã, quem sabe? - um novo ciclo se rasga em diferente paisagem! 


Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores

12.07.2010
Copyright ©2010-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®
Licença Creative Commons

Saturday, April 03, 2010

Silêncios !





via União Budista 


O silêncio é o mais precioso dom do ser humano! Deixa que oiçamos a voz da alma! Não é a essência a mais profunda partícula do Ser? 

O estar só pode sentir-se bem, quando a pressente pelo silêncio que se faz em  volta. E mais do que nada, dentro de nós! 

Há anos que venho contactando com o meu silêncio ... e sinto-me bem! 

As pausas não são música? Então o silêncio só pode ser música! A mais bela, porque a interioridade está lá por inteiro.

Sei o que é o contacto com a fragilidade física de um ser a quem amamos! 

Esses momentos nos fazem reflectir ainda mais, se possível, na trivialidade do quotidiano da vida. E, por vezes, nessa reflexão, ouvimos os nossos gritos mudos.

Perante a serenidade do gesto que aceita o leve poisar da flor, emudecemos. E ficamos assim a ouvir esse silêncio harmonioso.

Que esta meditação perfeita entre a beleza do olhar e o silêncio da alma nos traga paz para o encontro diário com o nosso eu.


Miosótis (pseudónimo)

Fragmentos da noite com flores
(introspecção de Páscoa)

03.04.2010
Copyright ©2010-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Monday, December 12, 2005

Intimité & amour







crédits: Dolores Ochoa/AP
via Yahoo photos



«Je veux qu'ils vivent de confiance et d'intimité avec celui qu'ils aiment et qui les aime...»

Jésus Christ à Soeur Josefa


(trouvé dans la petite église Trinità dei Monti, à Rome, en haut de l'escalier de la Piazza di Spagna, un samedi soir, le 20 novembre 2004.


Dans ma solitude, parmi la foule et la bruit, je suis montée là haut pour écouter mon âme en silence profond.

Sur le banc où je venais de m'asseoir, cette petite phrase était écrite sur un petit papier vert, juste à côté de moi. Un ange l'avait déposé!



Miosótis (pseudónimo)

©texto original


fragmentos da noite com flores, tempo de intimidade

12.12.2005

Copyright ©2005-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®


Licença Creative Commons



Wednesday, September 14, 2005

Meditação : Outono






credits: Yoga Vidya


Pela manhã, percorro o caminho solitariamente. Cada espaço envolve a minha consciência e transforma minhas emoções em pequenas partículas de raios de sol timidos, suaves, que se escondem na mancha azul desbotada, mesclada de nuvens de algodão, dando início a uma nova estação. A Natureza prepara-se para hibernar. Outono adentra-se.


Ao final do dia, na minha prática de yoga em grupo, sento-me de frente para os pequenos postigos semi-abertos de uma cave, virada para o arvoredo de um quintal. Recolho-me. Poiso o meu olhar transparente nesses minúsculos retalhos de verde, antes de me afastar. Cerro os olhos. O verde continua lá, no meu pensamento.

Um verde que já não é tão alegre. Mais suave. Começam a aparecer os cambiantes de amarelo e castanho.


Os sons da prática entram, trazidos pelo cântico da brisa, doces, em final de tarde, acompanhados de aromas de eternidade.


O Outono prepara seu manto para recolher os seres mais delicados. 


Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores

14.09.2005

Copyright ©2005-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com