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Tuesday, August 31, 2021

Cheiro a Verão ? Agosto quente ? Não muito, este ano !




illustração : Emmanuelle Teyras 

Veio o Verão. Começava a minha paixão, achava eu. A estação com muito sol, alguma praia, muito calor, e claro, lazer. Quanto bem estar! Sentir-me-ia em sintonia com a natureza.

Mas não. O verão não chegou convidativo. E Agosto, uma decepção. Frios dias. Brumosos. Pouco sol. 

Ah! Mas sim. Belos põr-do-sol, eu vi. Da minha varanda. Raramente. Ao longe, muito lá longe o mar, em tardes límpidas. 

Os dias foram longos. Certo. Tão bom! Mas noites não muito quentes. Para falar verdade, não foram nada quentes. Mas bom! Algumas agradáveis. 

As pessoas saem mais, praias cheias de gente, muita algazarra. Liberdade total. Quase. Não foi tanto assim.

A alegria e as oportunidades de andar ao ar livre, encontrar com amigos, numa esplanada, apanhar sol. Tudo ficou um pouco em suspenso. Na cidade.

Fui algumas vezes a esplanadas em fim de tarde, algum sol. Mas nada de grandes ilusões. Esplanadas, só com agasalho, leve. Muito vento. E a humidade caía rápida.

Tudo é bom para fazer fora de casa, fora de ambientes fechados. Não, este Verão. 

Não foram muitas, as saídas. Com tempo assim?! Pouco apetitoso.

Fui até ao campo. Como sempre, mais quente. 

Esperemos Setembro...

Miosótis (pseudónimo)

31.08.2021
Copyright ©2021-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®


Sunday, September 09, 2012

Paisagens narradas




Vista para o mar | Costa do Oeste
Fotografia: Francisco Mendes


"Esse período pode ser muito reconfortante e melancólico. Reconfortante porque todas as lembranças e cicatrizes assentam, são processadas pela memória, narradas a nós próprios devagarinho, encontram um lugar na organização da cabeça. Melancólico exactamente pelo mesmo motivo. Esse é um período em que se contempla um tempo que, ali, se sabe com muita certeza que não voltará."

José Luís Peixoto, O vagabundo regressa a casa*


Depois de umas curtas férias pela Costa Oeste que não revia há algum tempo, eis-me de volta a este espaço que continuo a querer partilhar, embora com pouca assiduidade, eu sei.



Parque D. Carlos I
Foto: Miguel de Azevedo e Castro


Foi bom! Lugares 're'visitados trazem sempre à memória fragmentos de vida que guardamos. E apesar de vivermos num mundo em que informação é uma constante, o nosso cérebro, tal como o poeta escreve, processa essas lembranças. E cada olhar, som, aroma, despoleta de imediato a narrativa poética.

Percorri alguns locais, saltitei entre as imensas praias que esta costa nos oferece,  com paisagens deslumbrantes, quando vistas do alto, e algumas cidades que as autoestradas deixam longe do olhar.

 

Grande Auditório CCC | Caldas da Rainha




Pela foto, reconheceram de imediato Caldas da Rainha. Uma cidade que cresceu, sem dúvida. Um moderno Centro Cultural e Congressos que visitei,  sem ter acesso a este belíssimo Grande Auditório. Nenhum concerto estava agendado para esta época do ano.



Museu José Malhoa | Parque D. Carlos I


Rumei então até ao Museu José Malhoa perfeitamente enquadrado neste sereno e lindo parque, abrindo portas sobre o lago e mostrar a maior parte da obra do seu patrono, bem como uma colecção importante de pintura e escultura dos séculos XIX e XX. 

É considerado 'o museu do naturalismo português'. Como se pode constatar, não poderia a temática estar mais de acordo com o espaço onde se insere.

Para além da arte, dois aspectos dignos de realce, vindos, para mais, de um museu de 'província': a disponibilização de um vídeo com língua gestual portuguesa, bem como uma brochura em braille.



Mosteiro de Alcobaça
Foto: Autora© (via Android)

É evidente que não poderia deixar de voltar a Alcobaça, percorrer aquelas ruas estreitas, empedradas, bem medievais. E de revisitar o Mosteiro de Cister. Uma sensação de finitude, de recolhimento cai sobre nós. Como se num estado de contemplação meditativo, sem preces. 



Túmulo Dom Pedro | Mosteiro de Alcobaça
Foto: Autora©  (via Android)

Impensável não parar junto de Pedro e Inês. Interessante, jazia Pedro quase abandonado, enquanto Inês, estática, se via rodeada de um enorme grupo de turistas italianos que seguiam atentamente toda a história da infeliz Inês.



Senhora da Assunção | Mosteiro de Alcobaça
Foto: Autora©  (via Android)

Mas foi esta imagem que me deslumbrou. Poisada num dos pedestais laterais, quase por trás do altar central, sobressaia do peso da pedra que a circundava. Uma serenidade nos gestos, a beleza da madeira esculpida, a arte da estatuaria portuguesa do século XVII.

E foi tempo de regressar...

"A casa está exactamente como ficou. (...) Então, antes de desfazer a mala, apetece sentar no sofá, senti-lo. 
(...)

Então, a casa é mesmo casa. O corpo recupera segurança, (...) A casa é como aquele lugar em que não podíamos ser apanhados quando brincávamos à apanhada. A casa é como um abraço."

José Luís PeixotoO vagabundo regressa a casa*


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

09.09.2012
Copyright ©2012-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®  

* Textos de José Luís Peixoto: blogue do autor

Licença Creative Commons

Thursday, July 14, 2011

A essência da paisagem



Vivia numa casa grande. Quatro andares mais um andar assotado. A casa dava para um parque ladeado de seculares tílias. No Inverno, o barulho que faziam nas noites de temporal, assustava-me. Mas, mal chegava a Primavera, cobriam-se de verde. E no Verão eram sombras acolhedoras! 

Escolhi o sótão como quarto, lá no topo, para não incomodar a família, nas longas horas de estudo de piano. Por sinal, o meu sótão era bem luminoso!

Todas as tardes, depois de regressar do colégio, subia para o quarto. Fechava a porta - só possível enquanto não chegava o calor - e sentava-me ao piano. Começava com o aquecimento: escalas, exercícios. Entrava então na repetição de compassos, passagens difíceis, criteriosamente assinaladas pela minha professora de piano. E só depois passava à execução integral de uma peça ou outra. A que me desse mais prazer.

Em final de tardes amenas, cansada, escapulia-me para o telhado, através da janela rasgada que abria de par em par, e lá ficava olhando os fios das nuvens, trauteando em silêncio as partituras deixadas. 

Seguiam-se momentos de imaginação afoita diante de tanta imensidão. Estava tudo tão perto! Era dona de um espaço só meu, inexplorado, e deixava correr o pensamento ao sabor do infinito na transcendência do real. Pura adolescência! 

Uns anos mais tarde, a casa foi vendida, e impiedosamente demolida. No trajecto que fazia para a faculdade, o autocarro passava mesmo ao lado da casa. E o meu olhar quedava-se no desmoronar do telhado, da janela, daquele quarto assotado. A tristeza caiu-me na alma.

Esta foto, via-a no espaço de um amigo que cultiva a fotografia. Eis então o que define este sentimento intimista! Um intervalo do tempo. O meu quarto assotado não teve tempo de envelhecer.

Miosótis (pseudónimo)
 
fragmentos da noite com flores, texto original 2011©

14.07.2011
Copyright ©2011-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Licença Creative Commons


Sunday, November 18, 2007

Tempo de mudar...





Pavel Rahman/AP 2007



Rafiqur Rahman/Reuters 2007




AFP/Farjana Khan Godhuly 2007
http://static.guim.co.uk/



O sofrimento alheio também nos incomoda. Incomoda-nos quando o presenciamos e nos deixamos tocar por ele. Incomoda-nos quando nos pomos no lugar dos outros e imaginamos o seu sofrimento.

Tsering Paldron


Nada me ocorre acrescentar, tal a devastação e as fragilidades...




Miosótis (pseudónimo)

fragmentos de uma tarde cinza-cor-de-chuva, sons Sacrifice, Lisa Gerrard & Pieter Bourke

18.11.2007

Copyright ©2007-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 

Saturday, September 15, 2007

Utopias de um sonho





Fotografia: Shizuo Kambayashi/AP 2007


Há imagens que nos seduzem de rompante! Olhámos e já está! É como que mergulhar no nosso próprio "eu" translúcido, sereno ou agitado. Estamos lá tão completamente que nem temos tempo de nos distanciarmos o suficiente para discernirmos.




Fotografia: Manan Vatsyayana/AFP 2007


http://news.yahoo.com/photos


Mas, o que é discernir? Racionalizar, analisar, recuar, travar o que nos vai na alma? Então deixa de ser afecto, passa a sensação ou mesmo nada, se inteiramente recusado.

Sim, eis que os meus sentidos apprenderam sòsinhos:

As cousas que não teem significação: teem existência.

As cousa são o único sentido occulto das cousas.


Alberto Caeiro
, O Guardador de Rebanhos, XXXIX


E lá ando eu mergulhada, deambulando vezes sem conta, revendo em cada cambiante de cor um recanto de minh' alma! E assim viajo, transito, espraio-me com languidez, sem pressas nem brusquidão, deixando refrescar cada pedacinho do meu ser, tão sufocado no dia a dia

Mais um ser solitário, no meio de tantos outros, sempre em busca do paraíso perdido, do lenitivo da alma gémea. Utopia de um sonho!

Afinal a Vida é tão pouco, o Ser é quase nada, só lhe resta mesmo o deambular pela Alma!


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite, Confortably Numb, Pink Floyd

16.09.2007


Copyright ©2007-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®  


Wednesday, September 14, 2005

Meditação : Outono






credits: Yoga Vidya


Pela manhã, percorro o caminho solitariamente. Cada espaço envolve a minha consciência e transforma minhas emoções em pequenas partículas de raios de sol timidos, suaves, que se escondem na mancha azul desbotada, mesclada de nuvens de algodão, dando início a uma nova estação. A Natureza prepara-se para hibernar. Outono adentra-se.


Ao final do dia, na minha prática de yoga em grupo, sento-me de frente para os pequenos postigos semi-abertos de uma cave, virada para o arvoredo de um quintal. Recolho-me. Poiso o meu olhar transparente nesses minúsculos retalhos de verde, antes de me afastar. Cerro os olhos. O verde continua lá, no meu pensamento.

Um verde que já não é tão alegre. Mais suave. Começam a aparecer os cambiantes de amarelo e castanho.


Os sons da prática entram, trazidos pelo cântico da brisa, doces, em final de tarde, acompanhados de aromas de eternidade.


O Outono prepara seu manto para recolher os seres mais delicados. 


Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores

14.09.2005

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