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Saturday, May 10, 2014

Sem rumo, com sonhos




Meditation

Tenho andado desgarrada, arredia. Dias que nos deixam assim. Sem rumo. Sem querer de coisa alguma. Como quem fala só para si. Ou nem isso.

Sei sempre, mas muitas vezes esqueço. Esqueço vezes demais. 

De quando em quando, a melhor a mais pequena aventura, a maior felicidade do dia é não dizer nada. Apenas estender o olhar. E aquietar, sem medos.

Como quem está a olhar para as flores que se espalham nos jardins. Não longe do rio. Ou do mar.

Hoje vim aqui meditar sobre o que tenho, e gosto. Os dias grandes, meu tempo, o horizonte imenso, desanuviado, profundo no azul. 

Sonho, sim, absorvo o que me rodeia. Ou mais ainda. Mudei, sim. Não podemos permancer os mesmos. Mas não me preocupo em descodificar o significado do que sonho. Ou da mudança. Aparente paradoxo ? Talvez. 

O que sonho não me impede de andar para a frente. Alimento o meu sonho e tento deixar que ele se transforme à medida das mãos com que lhe toco e das com que me tocam. É a mudança. Transformação lenta, pausada, sem sobressaltos.

Continuo sentada, poisada na paisagem, mas apenas a posição é estática, pensamento, esse anda por aí vagueando, sereno, pela vida. 

Amo a vida. Não tenho muitas ilusões. Mas guardo sigilo sobre algumas que não largo. São minhas. Pertencem-me. Com elas cresci, me tornei mulher. E fui caminhando.

E todos os dias olho o que amo incondicionalmente - mesmo quando não tenho ânimo de continuar.

E respiro tudo isto, e o sonho navega em mim, em todo o meu ser, pela pele e pelos cabelos, alma e coração, e à medida que avanço mais, experimento melhor, o sonho altera-se comigo. 

Acarinho a vida, mesmo sendo contra a maré. Só porque sim. 

"Il faut savoir se prêter au rêve lorsque le rêve se prête à nous."

Albert Camus

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

10.05.2014
Copyright ©2014-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com®

Tuesday, April 15, 2014

Páscoa, um tempo sem pássaros





Cherry tree blossom
 Photo: CHSZ Preservation Society/AFP/Getty Images

Gosto do culto de Sakura. A flor de cerejeira associada ao éfemero da vida. A mesma filosofia que vi e me fez gostar do filme Último Samurai

Sei que as cerejeiras se situam perto dos templos budistas. 

Talvez por isso, monges e cientistas se unam em torno do mistério cósmico da cerejeira que cresceu de uma semente. Uma semente que permaneceu a bordo da International Space Station (ISS) durante oito meses. Acaba de florir, alguns anos mais cedo do que natureza prevê. E com flores surpreendentes. 

Falo da cerejeira junto do templo Ganjoji, na cidade de Gifu, Japão.

Porém, um outro mistério se adensa por cá. Que é feito dos pássaros? Esta primavera tardia, pouco segura, está ainda mais triste. Silenciosa! 

Não há pássaros. Os bandos de pássaros que costumavam cruzar bem perto da minha janela, em voos migração. E os pássaros que chilreavam nas madrugadas, nos ramos das árvores.

Que é feito dos pássaros? Por que não cantam eles? Cantaram prematuramente nas noites de Novembro?

Lembram, ainda a noite se mostrava fria, e já os pássaros rondavam por aqui, alta madrugada, chilreando alegres, pueris, perto da minha janela. Tinha mesmo um pássaro cantador que voltava a cada primavera.

Fugiram ao frio ? Emigraram para terras mais aprazíveis? Oh ! Não ! Fazem-me falta. Os pássaros, e os seus chilreios. Traziam-me alegria na noite, davam-me paz ao entardecer, força de viver a primavera pela manhã.

O silêncio prolonga-se. Instala-se. O silêncio é bom, eu sei, por vezes, quando cultivado no momento certo! Ouve-se a alma com tranquildade.

Mas já me perco na minha interioridade ! Sem pássaros, as pausas são ainda mais longas.

Neste tempo de primavera pascal que se anuncia, a ausência dos pássaros faz-nos repensar a vida. É como se a a natureza nos esquecesse, e nos mergulhasse na ausência das coisas belas que enchem o mundo.

Será uma Páscoa mais triste, com certeza . Como se não bastasse viver num país de semblantes cerrrados.

Senhor, trazei os pássaros de volta !

Para que a meditação de Páscoa seja mais doce, para que a serenidade do tempo se refugie na alma, com encantamento, ao som do canto fresco dos pássaros. E a paz se adentre.


Erguei o nosso ser à transparência 
Para podermos ler melhor a vida 
Para entendermos vosso mandamento 
Para que venha a nós o vosso reino 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos (...)

Sophia Mello Breyner, A paz sem vencedores nem vencidos

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores
(introspecção de Páscoa)

15.04.2014
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Sunday, July 14, 2013

Palavras como flores




©Foto: MC



Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?
[...]

Natália Correia, Ricochete


Há dias em que me canso das palavras e me fecho em retiros de silêncios !



Corrida a cortina evanescente, desenrolo com um gesto ténue os pensamentos. E deixo fluir. Lentamente. Como quem vê a paisagem rolar.


Por nevoentos espaços eu vagueio nesta noite, e transfiguro o meu imaginário turbulento, inquieto. Ao som das pausas, rasgo caminhos equidistantes, buscando as sonoridades de minha alma.

Aromas de litanias vão chegando e me envolvem no mistério de meu ser. E poiso os pensamentos. Devagar.


Sei que a vida não chega para o sentimento. Apago então as estrelas que se atrevem a cintilar e calo a voz que na alma quer cantar.


Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores


13.07.2013
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Friday, March 29, 2013

Páscoa, um outro tempo





O silêncio prolongou-se. Instalou-se mais do que o tempo esperado. Mas silêncio é precioso e um dom que devemos saber cultivar! Para deixar que a alma se exprima! 

Há anos que sofro de interioridade. Por vezes, me perco nela! 
É como ouvir as pausas entre os sons. As pausas fazem parte integrante da  música. Então o silêncio é sentimento!

E num tempo de primavera desmedidamente enganoso, frio, desconfortante, o silêncio começa a incomodar perante uma natureza que não reage, não vibra, e nos mergulha ainda mais na ausência das palavras.


A este tempo, um outro tempo se aproxima. Páscoa. Uma outra reflexão.

Nesta Páscoa, tentamos a serenidade que os tempos difíceis não têm permitido. 

Diferentes sentimentos surgem e passam, e cada um apenas expressa a sua própria natureza. 



Que esta meditação, entre a serenidade que nos é pedida, e o silêncio da alma nos convida, nos traga paz para o encontro diário com o nosso eu. E com o outro.

A meu favor tenho o teu olhar 
testemunhando por mim 


(...)

Protege-me com ele, com o teu olhar, 
dos demónios da noite e das aflições do dia, 
fala em voz alta, não deixes que adormeça, 
afasta de mim o pecado da infelicidade. 

Manuel António Pina, Completas

in 'Algo Parecido Com Isto, da Mesma Substância'

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores
(introspecção de Páscoa)

29.03.2013
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Monday, December 20, 2010

Em tempos de soltas paisagens




serie Elogio de la Escrita
Juan Bautista Morán
O murmúrio das gotas de chuva saltitando nas vidraças fazem de volta estas noites invernosas, atravessando tempos de Natal. 

O outono adentrou-se abruptamente e o inverno surgiu! Este impõe-se com um autoritarismo desmesurado, deixando paisagens inóspitas nos olhos ainda cheios dos finais de tarde em que a luminosidade bailava em subjectivas formas de poesia. 

Quando se percorrem dias de sol acariciador, apesar de freso, num grito de vida, recuamos e dizemos Não! - aos brumosos dias de chuva, às frias noites que desconfortam nossa alma e nos perseguem e escorraçam das ruas tingidas pelas luzes dos faróis. 

Carros salpicam de gotas enlameadas os nossos pensamentos já pouco coloridos que se enchem de névoas esparsas. Ventos de um inverno sem limite despojam-se na cidade



serie Manuscrito del horizonte
Juan Bautista Morán

A súbita realidade! Nem o doce quebranto da interioridade nos afaga em fragmentos de emoção!  Inadequação em horas de fraternidade.

E a noite instala-se. Chuva solta nos vidros da janela. Apagam-se as luzes. Ponho estas reflexões no prato da imaginação e a sua voz apazigua as paredes da alma em um tempo discordante das paisagens intimistas.

O silêncio e a poesia por companheiros, numa música de fundo sem acordes.

"o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,"

José Luís Peixoto, poesia


Miosótis (pseudónimo)

30.10.10
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Saturday, January 12, 2008

Secret smile






Magnolia after de rain

Fotografia: Yoshiko


When you are flying around and around the world
And I'm lying alonelyI know there's something sacred and free reservedAnd received by me only

Semisonic, Secret Smile, lyrics

E porque esta noite apenas desejo permanecer no silêncio, deixo espaços que preenchem a minha essência de desolação.


Um novo Ser seguiu seu caminho, reintegrando-se no Universo! Tinha 13 anos...

Hoje, minha alma me dói... tanto!





Para Catarina, Mafalda, Manuel...



Miosótis (pseudónimo)

fragmentos de dor partilhados, no espaço presente, onde se ouviu, entre lágrimas, silêncios Secret Smile
Semisonic

11.01.2008

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Saturday, May 19, 2007

Das paisagens





Foto: Peter Djonj/ AP 2007
http://news.yahoo.com/photos



"O maior erro do ser humano, é tentar tirar da cabeça aquilo que não sai do coração."

Autor desconhecido


É bom regressar a casa, em final de tarde com cheiro a calor!

Decidi afoitar-me naquela explosão de cor. O vento expulsara as nuvens e meus passos crepitavam por entre um lago de flores, amarelo cor-de-oiro, num silêncio atordoado e límpido. Aspirei com vontade de sorver as fragrâncias de um tempo que se comprometia duradoiro e quente.

Atraída e ofuscada pela cor forte, luminosa, viva, daquele campo povoado de campestres essências, caminhei!

Meus pensamentos repoisavam puros, como quem reza, num caminhar aspirado passo a passo, ritmado, leve, na terra esbatido.

A vida parecia mais tranquila. Mas eles, os pensamentos troavam, deixando-me como um bando de pássaros. Envolta numa aragem deliciosa e solta, trazia comigo o mar, poisando-o num lago. Divino espaço!

Entrara para a minha intimidade, na minha respiração. Erguera-me para a invisibilidade.

Inundados os olhos de litanias, aturdida no silêncio bucólico. A vida parecia mais tranquila! Os pássaros tilintavam em redor.

A melancolia abatia-se, mesclada de aromas de açafrão e ervas raras, numa acalmia polvilhada de sentires, naquele caminhar suspenso.

Na minha cesta poisara o lago, o mar, o ideal encantado de uma paisagem. Parecia em paz por respirar o ar de verão!

Parei. E levantei os olhos cor de canela. O céu, como uma tenda de veludo azul, estendia-se por cima da minha cabeça, cor das flores. Survi, mais uma vez, todos os sentires imersos no universo...


Subi, meti a chave à porta. Corri as cortinas transparentes verde-musgo. Da pequena mas rasgada varanda airosa, pude ainda despedir-me do sol cor de sonhos que atravessava o horizonte!

Debruçada no alto da nuvem, virada para o infinito, movi os céus, a terra para chegar até ali...


"A lua subiu à minha janela, onde permaneceu sonhadora até partir. Olhei para o canto do céu iluminado pela sua passagem. Lentamente foi-se apagando e as estrelas apareceram." *

O que sonhas? - perguntei.


Miosótis (pseudónimo)

Com humildade, gostaria de pedir a Art of Love que me perdoasse por responder tardiamente ao seu sensível "thinking blogger award".

E só posso agradecer tal gesto, dedicando-lhe esta divagação de afectos, mesclada de realidade e fantasia.


fragmentos da noite com flores

19.05.2007
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Shan Sa
As Quatro Vidas do Salgueiro

Casa das Letras, 2005, 1ª edição

Sunday, May 14, 2006

Sombra de mulher





fotografia: Lucy Permoni/Reuters


"To love another person is to see the face of God."


Victor Hugo, Les Misérables


Sonhos leves

perfumes distantes

sons de ternura

se espalham em meu corpo.

Ventos cálidos,

macios, suaves

quais dedos transparentes

como em pétalas poisados.

Meus lábios em silêncios constantes

cerram nostalgias puras

feitas de esperança.

Desassossego em mim!

Só, em meu contemplativo caminhar

busco ouvir-te em passos

lentos a par dos meus.


© Miosótis (pseudónimo)

texto original© 

fragmentos da noite com flores


14.05.2006

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Wednesday, April 05, 2006

Aromas de Primavera





créditos: Omar Torres|AFP
https://news.yahoo.com/photos/


"O perfume do sonho envolvia-a, debaixo do
docel de folhas da árvore," (...)

Luisa Dacosta, O Perfume do Sonho, na Tarde, Ed. Asa, 2004

Ontem, cheirei a Primavera!


Saí já tarde, depois de ter passado o dia enclausurada numa espécie de capela, de amplos tectos e sombrios espaços frios.

O sol apenas batia nas janelas altas, de onde vislumbrava pedaços de azul por entre os ramos de uma magnolia branca completamente em flor.

Sempre que levantava a cabeça para respirar, o ar que me chegava em jeito de lufada fantasiada pela força do espaço austero, fechado, visivelmente pintava em meu olhar o mar... ali tão perto! Liberdade! Nostalgia! Azul!

Alguns cantos alegres de pássaros eclodiam em meus ouvidos! Aí me refugiava, distanciando-me do vozear em surdina como gralhas sem asas que se amontoavam em meu redor!

Finalmente pus o pé fora do edifício, passavam poucos minutos das seis da tarde.

A luminosidade a que já me desabituara, depois de um inverno tão austero e gélido, bateu-me em cheio na alma! Calor?! Sol?! Cheiro a terra e flor?!

Parei! E olhei o firmamento azul claro, da cor de miosótis! Estava belo, sedutor, apetecível ao toque sereno e frágil de dedos de pétalas inundados de poesia.

Sorvi cada pedacinho de ar morno, cálido. Em passo largho, aspirava com profundo e requintado prazer. O final de tarde pairava à minha volta, tal flor perfumada e desperta pelo odor das ondas quentes, trazido em pequenas lufadas de aragem em festa ritmada e bafo solto.

Tudo ali ao alcance da mão e do olhar!

"Fica sentado aí onde estás, Poeta,
e não mexas os lábios nem os braços" (...)

Sebastião da Gama, Poesia, Serra-Mãe, Ática, 1996


Miosotis (pseudónimo) ©2006

fragmentos da noite com aromas de poesia, pairando nas palavras soltas

5.04.2006
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Thursday, March 02, 2006

Pensamento budista



Foto: autor não identificado



«A boca só fala do que o coração está cheio, verifique sempre o conteúdo do seu coração»

Mahatma Gandhi


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores, no silêncio da chuva


2.03.2006
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Sunday, February 12, 2006

Sonhos em noite de lua





foto: Fethi Belaid/AFP



Da minha janela, vizinha do firmamento, assisti ao nascer do sol!


Ao longe o mar, envolto em névoas esparsas, irisadas, espraiavam-se em ritmo largho de movimentos sonolentos, feiticistas!


As últimas estrelas faziam lucilar seu oiro-prata num azul aguado e o perfume da noite desfragmentava-se em mil aromas!

Temendo sobressaltar os seres de alma vagueante, absortos e perdidos tantas vezes de seu caminho, envoltos de de aspirações delicadas não vividas, o Sol abriu a porta do hemisfério, muito de mansinho...

- Assustaste-me! Não dei pelo passar da noite! - exclamei ainda na fronteira do sonho e do sono.

- Vim fazer-te companhia... Sentemo-nos ainda um pouco! Tenho uma surpresa para ti! Abre as tuas mãos para eu depor nelas o meu presente! Vê tu mesma...

- Para mim?... mesmo para mim?!

Na minha mão um pássaro! Seu peito desenhado em penas de um vermelho quente.

- Parece um coração...



- E é um coração... o meu! Cheio de amor por ti! Trouxe-o para que ele possa poisar na noite terna dos teus cabelos de nuvens brancas irisadas em raios de oiro!


Então, sacudi meus cabelos com doçura! E o sol afogou sua luza ternura cálida que apagava todas as imagens. Fechou-se também o sonho da mulher que, finalmente adormeceu.


Miosótis (pseudónimo)
©texto original

fragmentos da manhã de um outro dia, 11 Fev. 2006
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