Thursday, October 01, 2020

Entrou Outubro... com Dia Internacional da Música : Juliette Gréco !

 




Cada coisa

Cada coisa tem o seu fulgor,
a sua música.
Na laranja madura canta o sol,
na neve o melro azul.
Não só as coisas,
os próprios animais
brilham de uma luz acariciada;
quando o inverno
se aproxima dos seus olhos
a transparência das estrelas
torna-se fonte da sua respiração.
Só isso faz
com que durem ainda.
Assim o coração.

Eugénio de Andrade, in "Poesia", Assírio & Alvim, 2017

Outono voltou! Aspira-se o tempo ainda com o aroma de Verão. Torna mais doce esta passagem abrupta de dias quentes, cheios de luz, para uma frescura que já pede algum agasalho.

Um Outono que traz folhas soltas, e árvores quase desnudadas, apesar das cores quentes, ocre, amarelo, à mistura com algum verde. Ainda.





Hai-Kai de Outono

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?


Mario Quintana
Sentiu-o de imediato. Outono, olhando-o pela janela. Sol pálido na paisagem. 

Setembro foi ainda doce, apesar de alguma chuva. Nada de atropelar a vida. Viver o dia que chega. Sem pensamentos do que vem.

Mas hoje é diferente! Outono entra com música. Pois é. Não podemos esquecer que neste dia, 1 de Outubro se festeja a música. A música que nos acompanha sempre, que purifica nossas melancolias, tristezas. 





Música
créditos: Francisco Simões (escultor)

"A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende."

Arthur Schopenhauer
Um dia vivido intimamente. Cada um de nós sente a música, segundo a sua alma.

Dia Internacional da Música, comemorado anualmente a 1 de Outubro, foi instituído em 1975 pelo International Music Council, instituição fundada em 1949 pela UNESCO e que agrega vários organismos e individualidades do mundo da música.

Sempre celebro este dia. Ouvindo música. Escrevendo sobre música. A música apazigua os mais íntimos pesares. Os dias de desassossego.

Celebro a música, portanto. Inspiradora da Vida. Em cada momento.

"A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia.

Ludwig van Beethoven

Mas o Dia Internacional da Música remete-nos para Charles Aznavour que desapareceu, faz hoje um ano. No Dia Internacional da Música. Música que o cantor expressou com tanto talento.





Juliette Gréco [1927-2020]
créditos: Autor não identidicado, 1966
via Bonjour Paris

E para Juliette Gréco, a musa inspiradora do Existencialismo, e da boémia da Rive Gauche. La grande dame de la chanson française:

"JulietteGréco, the singing muse of bohemian postwar Paris who became the grande dame of chanson française..."

New York Times

A cantora e ícone da canção francesa Juliette Gréco, que cantou Léo Ferré, Jacques Prévert e Serge Gainsbourg, entre outros, morreu no passado dia 23 de Setembro.

"She became the musical embodiment of the Existentialist movement. Although she seemed the most modern of performers, Gréco belonged to the grand tradition of Parisian chanteuses."

Patrick O'Connor, The Guardian

Dois nomes incomensuráveis da chanson française. Final de uma época, sem dúvida.

"Ce métier, je le fais pour plusieurs raisons, mais l’une des plus évidentes est que je voulais qu’on m’aime."

Juliette Gréco


Miosótis (pseudónimo)

01.10.2020
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Thursday, August 06, 2020

E voltou... Agosto !



Não fiz o que mais queria.
Nem há tempo de cantar.
Basta que fiquem suspiros
na boca do mar. (...)

Cecília Meireles, Metal Rosicler, 1960

Voltou Agosto. Mês de rias. A caminho do final do ano. Sim, chega Setembro logo a seguir. E Outono. Depois Inverno. E finalmente termina 2020. Muitos de nós respiraremos, aliviados. Um ano tremendo. Como tantos anos, terminados em 20, de décadas passadas.

Agosto é para mim, um mês especial. Sonhador, alegre, nostálgico. O mar, a praia, as viagens curtas. O início deste meu canto. Quatorze anos.


Mas, e este ano? A praia, o mar, de longe. Apenas para perder o olhar, respirar. Inspirar. Expirar. Lembranças de outros lugares, outros mares, outras praias. Outros verões.

Pela memória poética passam, como num filme, imagens, lembranças, pessoas, aromas.

Este ano, um receio de tudo e de todos. Nada é igual. Nada será igual.

O que nos reserva o futuro? Não sabemos. O presente estamos a vivê-lo com cuidados redobrados.

Este ano até nisto é especial. As nossas férias serão diferentes, estranhas. Mas não podem deixar de ser as nossas férias. Em tempos de COVID-19, sim. E por isso, bem diferentes. 


Só a melancia, que se desfaz em água, nos traz a frescura e o sabor de Verão.

Mantenhamos o sorriso. É Agosto!

Miosótis (pseudónimo)

06.08.2020
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Sunday, July 12, 2020

Falando de Pablo Neruda !






Pablo Neruda [1904-1973]
créditos: Autor não identificado


"Depois de tudo te amarei
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim. (...)


Pablo Neruda, Integrações


Pablo Neruda, pen name, de seu nome, Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, nasceu neste dia, 12 Julho 1904. Poeta chileno, considerado um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX.  

Recebeu o Nobel de Literatura em 1971, enquanto ocupava o cargo de embaixador em França, nomeado pelo então presidente chileno Salvador Allende.

 (…) Senhores e Senhoras

“Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria." (...)
Pablo Neruda, in discurso entrega do Nobel 1971





Pablo Neruda, 19 anos

O seu pseudónimo foi uma homenagem ao escritor checo Jan Neruda. Jan Nepomuk Neruda viveu entre 1834 e 189. É um dos principais representantes do Realismo checo. 

Neruda teria optado pelo pseudónimo aos 17 anos, supostamente para esconder do pai o ofício de poeta.




Crepusculario
Pablo Neruda, 1923

Foi aos 19 anos que publicou suas primeiras obras: Crepusculario (1923) e Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924)





Pablo Neruda Birthday 2009

Em 12 Julho 2009, Google celebrou o seu 105º aniversário com um Doodle representando Neruda em momento de inspiração frente ao mar, já no exílio. 







Il Postino
Michael Radford, 1994

O filme O Carteiro de Pablo Neruda, tradução de Il Postino fala de Neruda, em determinado momento de sua vida, no exílio. Todos vimos. E tantas vezes revemos. Pelo menos eu não me cans. Sempre que passa em algum canal de televisão. A história efabulada do poeta, na Isla Negra, Chile, com sua terceira mulher Matilde. 




O Carteiro de Pablo Neruda
António Skámeta
edições Dom Quixote

O Carteiro de Pablo Neruda é uma adaptação do romance Ardiente Paciencia (1985) traduzido em inglês The Postman, do escritor chileno Antonio Skármeta

Narra a história de um jovem, filho de pescadores que não quis seguir a vida do pai e se torna carteiro. Vem a ser carteiro particular e amigo pessoal do escritor Pablo Neruda, exilado numa ilha em Itália, na década de 50.




O Carteiro de Pablo Neruda
Michael Radford, 1994

No filme, obra de ficção, a acção foi transpostada para Itália, onde Neruda - interpretado pelo excelente actor francês, Philippe Noiret, o Alfredo em Cinema Paradiso estaria exilado. 

Na ilha, torna-se amigo do carteiro que, diariamente, visita a casa do poeta para entregar correspondência e se rende à poesia de Pablo Neruda. Um dia, enche-se de coragem, e pede ao poeta para o ensinar a escrever poesia. Apaixonado por uma bela mulher da ilha, queria conquistá-la pela poesia.




Neruda alimenta o interesse de Mario pela poesia, ensinando-lhe o valor de uma metáfora, e o jovem carteiro começa a praticar essa figura de estilo.

Um filme delicioso, terno e sensível, em que a poesia é personificada pela voz do carteiro, simples, terno. O olhar de Mario Ruoppolo, o carteiro é sonhador. Candura, simplicidade e genuidade sem limites.

Momentos que mostram a magia do cinema. Um filme de emoções. Na ligação da poesia ao amor, profundo de Mario por Beatrice, tal Dante e sua Beatrice.





O Carteiro de Pablo Neruda
Michael Radford, 1994

Na amizade terna, sem pedir nada em troca. Na nostalgia. Na saudade. Na descoberta de lugares mágicos que existem sempre nos sítios em que vivemos. Mas precisamos de outro olhar, esse olhar que vem do sentimento mais íntimo, para os descobrir.

Il Postino celebrou 25 anos em 2019. Deveria voltar às salas de cinema. Suponho que teve uma sessão especial em Lisboa.



Neruda
Pablo Larraín, 2016
Há um outro filme, bem diferente, mas que gostaria de referir. NerudaRealizado por Pablo Larraín e escrito por Guillermo Calderón. Com interpretação do excelente actor Gael Garcia Bernal.

Um inspector apanha o poeta chileno Pablo Neruda, vencedor do Prémio Nobel, que se tornara clandestino, no final da década de 1940, por questões políticas.






Não sei se passou por Portugal. Não lembro. E sou ou era ... muita atenta a filmes. O cinema era um dos meus privilégios, de fuga ao quotidiano, no final das tardes de sábado. 

Tantas coisas nos foram retiradas nesta época pandémica em que vivemos. A música, outro ponto de fuga. Saudades! Tantas!

Filme de produção internacional, foi seleccionado para representar o Chile, nos Oscar 2016, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Mas não obteve nomeações.





créditos: TED ED
 Lição de Ilan Stavans


Pablo Neruda foi um dos mais celebrados poetas do século XX, e também um dos mais lidos, embora também mais polémicos. 

Originalmente escritos em espanhol, seus poemas apresentam uma linguagem simples, do quotidiano, mas que causam um impacto eterno. 


Te amo de uma maneira inexplicável,
de uma forma inconfessável,
de um modo contraditório.
Te amo, com meus estados de ânimo que são muitos
e mudar de humor continuadamente
pelo que você já sabe
o tempo,
a vida,
a morte.(...)


Pablo Neruda, in Te Amo


Miosótis (pseudónimo)

12.07.2020
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Thursday, June 11, 2020

Yoga, filosofia ancestral






via Casa da Alma
''A espiritualidade não vem da religião.
Vem da nossa alma.''
🌈🙏 


 "Yoga does not transform the way we see things, it transforms the person who sees."

B.K.S. Iyengar

O Dia Mundial do Yoga celebra-se este mês, a 21 de Junho. A palavra Yoga significa união.

Tranquilidade, sintonia corpo e alma, bem estar infindável, associado a uma respiração fluida. Pranayama.
A união estabelece-se entre a alma individual e a alma universal. Tentamos ir de encontro, buscando no nosso íntimo, o divino que há em nós.






"O primeiro dos bens, depois da saúde, é a paz interior."

François La Rochefoucauld
O Yoga é uma filosofia ancestral que teve origem há 5,000 anos na India. Trabalha corpo, mente e espírito. 

A prática do Yoga potencializa o equilíbrio, a força, purificação física e energética, flexibilidade muscular e articular, concentração, foco e equilíbrio emocional, potencializado pela meditação.


E foi a prática que me levou a um grupo de yoga ao ar livre. Pessoas que não conhecia, sem ligações a nenhum dos elementos. Muito menos ao casal dinamizador das sessões e sua filha, 4 anos, Alma. Supunha eu...

Que me teria levado até eles? O acaso. Mas há acasos? Não. Acho que não. A lei da atracção da universalidade da alma 'humana'. Talvez.

Se o yoga leva ao crescimento da nossa consciência. E é um caminho de auto-conhecimento cujo destino é a união com tudo e todos. Aqui estava o acaso.

O yogi, vim a saber depois, é amigo de um familiar próximo. A yogy, filha de uma colega de curso da faculdade que deixara de ver há muitos anos, após terminarmos o curso. E Alma, a pequenina yogy que participava à sua maneira, das nossas práticas, seguindo os pais, sua neta.

Soube desta ligação há um ano, em reencontro de celebração aniversário de final de curso. Matilde com quem pouco contacto tivera, durante o curso, passou a ligar-me quase diariamente. Compreendi o que nos uniu naquele momento da vida. Um mês depois. Matilde, avó de Alma morreu. Faz um ano. 

Om Shanti! 
Sanskrit: ॐ संस्कृतम्

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores para Matilde

11.06.2020
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Saturday, May 23, 2020

Tarde de sábado : Hidden Figures, um filme a rever !





Hidden Figures
Theodore Melfi, 2016

Elementos Secretos, tradução de Hidden Figures (2016), o filme que preencheu parte da minha tarde de sábado. O dia estava ventoso, mas o sol mantinha-se desde manhã. Não aquele dia de calor anunciado. Aventurei-me. E sentei na varanda para fruir deste dom precioso. O sol!

Ao voltar à sala, passava na televisão um filme que já vira, mas que me marcou. 
De imediato me rendi ao conforto do sofá. Um filme que permaneceu na minha memória cinematográfica. Pela força dos factos, pela excelência das interpretações.

Hidden Figurestraduzido como Elementos Secretos, é baseado em factos verídicos, como foi amplamente divulgado na altura. A NASA dedica-lhe várias referências nos seu site oficial.




Hidden Figures
Theodore Melfi, 2016

Elementos Secretos conta a incrível história de três mulheres cientistas, afro-americanas que trabalharam na NASAKatherin JohnsonMary JacksonDorothy VaughanKatherin Johnson morreu este ano.

Estas três mulheres, engenheiras, hábeis matemáticas, estiveram na génese do lançamento do astronauta John Glenn para a órbita, um incrível feito que restaurou a confiança da nação, e agitou a corrida espacial.






Elementos Secretos é um filme que deve ser visto, pelos factos verídicos narrados, e pela diversidade do elenco. É um filme sem grandes rasgos, mas de grande importância histórica.

Interessante sim, pelo lado informativo da história da NASA, numa época em que os direitos dos negros não eram ainda reconhecidos integralmente. Muito menos o direito de igualdade de mulheres afro-americanas, licenciadas. E vale claramente pela excelente interpretação das três actrizes que personficaram as três cientistas ao serviço da NASA.

O filme merceu a nomeação para Melhor Filme nos Oscars 2017, nos Bafta e nos Golden Globes 2017. Venceu na mesma categoria nos Prémios do Sindicato de Actores de Hollywood.






Hidden Figures
Theodore Melfi, 2016

As actrizes Taraji P. HensonOctavia Spencer e Janelle Monae levaram para casa o Prémio pelo "desempenho excepcional de elenco num filme" atribuído  no Screen Actors Guild Awards. Um troféu equivalente ao Oscar de Melhor Filme. Merecido.




Hidden Figures
Theodore Melfi, 2016

Elas enchem o ecrã. De tal modo que actores como Kirsten DunstKevin Costner quase se eclipsaram.


Uma tarde de sábado de cinema em casa, com aromas de Verão.

Miosótis (pseudónimo)

23.05.2020
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