Monday, June 11, 2018

Tivesse eu esse tempo !





créditos: Delphine Soucail (ilustradora)

Tivesse eu tempo. Tempo para o tempo que gostaria de ter. Tempo para as manhãs luminosas e o sol das tardes de Junho, nos final-dos-dias do tempo tépido, acariciador, próprio da estação do ano. Sim! É Primavera! 

Tempo? Eu tenho. O tempo é que não me dá esse privilégio. Continuam as temperaturas baixas, o céu cinzentão, o sol emigrado, a chuva insistente.

Que é feito da Primavera? As flores que se atreveram a desabrochar, airosas, coloridas, fenecem com a água das chuvas.

Os pássaros regressados com seu alegre chilrear, voltaram a emigrar.

Tempo para viver com alegria os dias luminosos que em vão persigo. As roupas leves, os recantos aromatizados dos jardins batidos pelo sol. Tivesse eu esse tempo. 

Tempo para me lembrar que há tempo para viver a Primavera que, talvez, chegue. No Verão?

Tempo para olhar para o calendário e aguardar que o dia em que hoje estou, chuvoso, pasmacentonão é o dia em que vou estar daqui a uma semana. 

Para aceitar que a noite chegue sorrateira, muito mais cedo do que é usual, nesta época do ano.

Para me deleitar nas ruas banhadas de sol num anoitecer tardio. Tivesse eu esse tempo 

Tempo para olhar para este tempo. Resignada. É quase Verão! Já repararam?

Tempo para aspirar devagar, viver devagar a atmosfera cálida. E aproveitar com deleite esse tempo que me aquece a alma.

Para reparar em tudo. E tanto que me passa por perto. Tivesse eu esse tempo. 

Tempo para ter o meu tempo de experienciar um renovado tempo com aroma a maresia. Como que por magia.

No fundo, o tempo tem-me tido a mim. E eu não tenho tido o tempo que gostaria de fruir. Todos nós, não?

A desforra há-de chegar. Quando houver tempo para isso tudo. Quando eu me esquecer que há tempos enfadonhos que nos roubam a esperança de dias leves.

Quando o tempo tiver mais tempo para mim. E eu menos tempo para ele...

Miosótis (pseudónimo)

11.06.2018
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Monday, April 23, 2018

São os livros... esses extensos afectos !





créditos: Autor não identificado



São os Livros

- São os livros!
- São os livros!
*
digo eu sobressaltada
*
Com lentidões de sumiço
olhando
as suas lombadas
*
nas estantes
sobre a cama
gemendo de madrugada
*
A despi-los devagar
das suas
histórias, poemas
*
com sussurros e prazeres
que dão
as suas palavras
*
- São os livros!
- São os livros!
*
Grito eu apaixonada

Maria Teresa Horta, São os livros
( Inédito - 23 de Abril de 2018)


Dia lindo, este dos Livros !

‘despi-los devagar/ das suas/ histórias, poemas’ ... imagética sensorial que deslumbra quando adquirimos um livro e o vamos ‘despindo’ lentamente, contendo a magia das palavras que se abrem em extensos afectos.  Livros! Tecedores de sonhos.


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

23.04.2018
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Sunday, March 18, 2018

Não vem aí a Primavera ? Lady Bird !





Autor não identificado

Voltou domingo. Frio, embora o sol tentasse aquecer-me um pouco, como recompensa de dias, semanas de desconforto. Chuva, tempestades de vento. 

No meio de tanta chuva e vendaval, ainda encontramos coisas boas? Claro que sim! 

Um dia que convida a preguiçar. Tudo se faz sem pressas. Tentativa de abrir varanda. Recuo. Impossível. Um frio cortante, vento de inverno. Março de desalinhado tempo. Não vem aí a Primavera?

Camisolas quentes. Lãs. Manta acolhedora em cima do sofá. É nela que procuro o conforto de uma tarde, enquanto saboreio um café vegan bem aromático.

E solto-me até outras margens. Vêm algumas imagens do filme que fui ver ontem.





Lady Bird/ Hora de Voar
Greta Gerwig, 2017

Lady Bird. Cinco nomeações nos Oscars 2018. Melhor Filme nos Golden Globes. Hora de Voar, tradução para a nossa língua, realizado por Greta Gerwig. Mais um filme da realizadora indie que aprecio.

Greta Gerwig é figura bem conhecida do cinema indie americano actual. Merece. 

Filmes? Mulheres do século XX, tradução de 20th Century Women (2016), Frances Ha (2012), entre outros. Não é de narrativas tradicionais. É mesmo diferente. Tem um jeito meio distraído, por vezes  perto do nonsense, semi blasé. Tem seu jeito engraçado, bem humorado.



Lady Bird/ Hora de Voar
Greta Gerwig, 2017

Tema de Lady Bird? Tempo de Voar, já diz qualquer? Fala da passagem da adolescência para vida adulta. É uma comédia dramática, como são todas as adolescências. 

Se gostei? Sim. A mais valia do filme está no modo  simples e honesto como a história é narrada. E em Saoirse Ronan que interpreta Christine "Lady Bird" como se identificava. Irreverente, mal situada, na ânsia de voar, tenta encaixar -se na família, escola, amizades, primeiros amores, e encontrar seu lugar na vida.




Saoirse Ronan/ Christine 'Lady Bird'
Lady Bird/ Hora de Voar
Greta Gerwig, 2017

Saoirse Ronan, várias nomeações, Melhor Actriz nos Golden Globes. Um desempenho que personifica na perfeição com a rebeldia e desalinho da adolescente inconformada, e um pouco perdida, na procura de si própria.

Sugere muitas emoções. Bom humor? Também. Deliciosos momentos. Deixa uma boa mensagem. Esperança. Vida.

Anoiteceu, o frio instalou-se. Aconchego a manta, no sofá. Um jeito de fazer pouco.
Escolhi o tempo e cinema. E a beleza de ter estes dias para fruir da vida e das coisas que gosto de fazer. Talvez um livro para acabar este domingo? 

Miosótis (pseudónimo)

18.03.2018
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Sunday, March 04, 2018

Em noite de Oscars : O que nos espera ?





Linha Fantasma/ Phantom Thread
 Paul Thomas Anderson, 2017
Nomeado para Melhor Filme 
Melhor Actor

Domingo de chuva. Muito frio. Desconforto. Bom para ficar por casa, aconchegada no meu quotidiano de fim-de-semana. Tempo cinzento adentra-se pelas janelas. Olho o céu. Transmite-me tristeza. Não se ouvem pássaros e até as gaivotas que nascerem ali bem diante de meus olhos, não vieram, hoje.

Pois!É que elas vêm poisar quase diariamente no local onde nasceram, em SetembroNão fazia ideia deste memória afectiva nas gaivotas.



The Oscars 2018

Uma introdução quase intimista para uma noite de domingo em frente ao ecrã assistindo à cerimónia mais esperada do ano. Noite de Oscars!

Mais uma noite de Oscars. A noite de todas as estrelas. E de todos os sonhos. E de múltiplos escândalos, este ano.

Será uma noite diferente? Claramente. 




Daniel Day-Lewis
Linha Fantasma/ Phantom Thread
 Paul Thomas Anderson, 2017

Comecei com Linha Fantasma, tradução de Phantom Thread porque adoro Daniel Day-Lewis. Um actor que me atrai desde O Meu Pé Esquerdo, tradução de My Left Foot (1989) e sobretudo A Idade da InocênciaThe Age of Innocence de Martin Scorsese (1993). Um filme belíssimo. Tocou-me intensamente.

Poderia citar outros, como Lincolnpor exemplo. Mas os aqueles dois filmes foram marcantes para esta espécie de encantamento que me leva a não perder este actor em cada brilhante representação.

Neste filme, gostei profundamente da sua interpretação. Menos óbvio a história ou como se desenvolveu o enredo e final.



Dunkirk
Christopher Nolan & Emma Thomas
Nomeado para Melhor Filme

Vi alguns dos filmes com nomeações para além de Linha Fantasma. Quase impossível ver todos, já que a maioria aparece no circuito comercial português a menos de um mês da cerimónia de The Oscars

Exceptua-se Dunkirk, que estreou há meses atrás e foi, de novo, reposto, conhecida a lista de nomeações. Está na categoria de Melhor Filme. E com mérito pelo rigor histórico.



A Hora Mais Negra
Darkest Hour
Joe Wright, 2017
Nomeado para Melhor Filme 
Melhor Actor

Não percam. Um filme histórico que prende ao ecrã de princípio ao fim. Excepcionalmente bem narrado sob ponto de vista imagético e narrativo. Joe Wright já a isso nos habituou. O mesmo realizador de Atonement (2007). 

Interpretação fabulosa de Gary Oldman no papel de Winston Churchill. Indescritível! Nomeado para Melhor Actor.

O Oscar para Melhor Actor vai certamente para Gary Oldman ou Daniel Day-Lewis.



Courtesy Photos

E há The Post de Steven Spielberg, Call me by You Name de Luca Guadagnino, Three Billboards Outside Ebbing, Missouri de Martin McDonagh ou The Shape of the Water de Guillermo del Toro.

Enfim. Suponho que vi alguns dos principais nomeados. Vamos lá assistir à cerimónia pela noite dentro. Ver cinema, ouvir falar de cinema, aplaudir os nomeados, ouvir as canções, temas de filmes - e há temas lindos! - ver os filmes de animação.




Perdeu-se talvez o encantamento ao longo destes últimos meses, mas mesmo assim, espero encantar-me. Cinema é sempre magia.

E voltar a ver o trabalho de Jimmy KimmelAlgo de inesperado na sua apresentação? Talvez.

Miosótis (pseudónimo)

04.03.2018
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Saturday, December 30, 2017

Novo Ano : em dias de luz perfeita !





créditos : Casa


Ano Novo! O que é? Uma convenção calendarizada? Ou um ritual ancestral que faz nascer em nós a esperança de um ano mais feliz? 

Tentamos, então, renovar a nossa caminhada, pedindo ao Sol para seja bem luminoso, nesse novo dia que se abre à meia-noite, que tudo transforme para melhor.

No entanto, é simplesmente mais uma meia-noite que bate as doze badaladas. E cada badalada, a renovação da nossa secreta esperança. 

Pedimos, seguindo a tradição, e a nossa fé mais intimista, um desejo a cada uma das badaladas com vagas de uva ou de româ. Nesses desejos incluimos o agradecimento das coisas boas que atravessaram o ano 2017, e tentamos esquecer, nem que por segundos, os acontecimentos que nos feriram.

Somos pequenas nuvens que se movem levadas pela briza, ou pelo orvalho das manhãs de Inverno.

Que os nossos sonhos sejam briza doce que nos levam mais alto. Que nunca percamos esse imenso dom. Sonhar. 

Que ao começar a tomar notas no livro em branco do Novo Ano, possamos dar relevância à beleza das pequenas coisas que talvez se tranformem em sonhos. E que, ao encerrá-lo no final do ano que vai entrar, sorriamos do balanço harmonioso.

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas. (...)

Alberto Caeiro, Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta

Bom Ano Novo !

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

30.12.2017
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Saturday, December 09, 2017

Rosas de Dezembro





December



"God gave us memories that we might have roses in December."

J. M. Barrie

E entrou Dezembro. De repente se fez frio. E o firmamento se mostrou carrancudo. Deixou de nos aquecer o olhar. Vestem-se agasalhos. 

Cada espaço envolvente é mais árido, mais frio. Transformam-se as emoções em pequenas partículas de chuva, suaves, escondidas na mancha cinza-rato. A paisagem até há dias azul, luminosa, acolhedora, desapareceu.

Deu-se, agora sim, o início de uma nova estação. O Inverno. A natureza já está em hibernação. Os pássaros não se ouvem. As gaivotas, aqui nascidas, dificilmente voltam.

As árvores nuas. As iluminações de Natal tentam dar-lhes cor e algum movimento. 

Depois do café bem fumegante da manhã, olho lá fora. Já sinto falta dos retalhos verde-esperança. 

Os dias são curtos. Tristes. O peso das nuvens sente-se. Desapareceram aqueles cambiantes amarelo-ocre, vermlhos-tijolo e castanhos-terra. Era Outono. Agora tudo é cinzento. Voltou o Inverno.

Os sons já não entram, trazidos pelo cântico da brisa. Dezembro, mês de  eternidade. Dezembro recolhe com seu manto os seres frágeis. E já foram alguns, os que partiram. Rosas de Dezembro.

Miosótis (pseudónimo)

08.12.2017
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Sunday, November 05, 2017

Olá Novembro ! Já ?






Autumn
créditos: Julian Stratenschulte


Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?

Mario Quintana
via Pensador

Já chegamos a Novembro? Como assim? Ainda mal se sente o Outono. Estação muito bela, quando não chove, com seu tons ocre e amarelos. Mas, não é a minha estação favorita. Traz-me demasiado melancolia. 

A chuva é precisa. Eu sei. Mas confesso. Adoro este sol que me faz saltar da cama, em dia de domingo e me deixa, logo pela manhã, colher a luminosidade de um céu azul, dificilmente manchado de nuvens.

Adoro o mar de Outono. Doce, deixando passsar tranquilidade. Apazigua-me, num mês sempre doloroso. Novembro.

Um tempo assim, limpa alma. Deixa-me respirar. Profundamente.

E, no entanto, as noites já pedem, por vezes, uma manta no sofá. E o aroma de hortelã que se solta da chávena de chá de gengibre, fumegante, que saboreio devagar enquanto espreito as novidades culturais ou mindfulness (não encontro expressão adequada em português) nas notícias ou redes sociais.

Enquanto aguardo que o Outono chegue, apesar de já se sentir nas manhãs frescas e nas noites frias, vou fruindo dos dias, agora mais curtos devido à mudança da hora - malfadada! - apreciando as noites de solstício, olhando da pela janela a lua cheia destas últimas noites. 

Leio, passeio, medito. E, por vezes, vou ao cinema ou a um concerto.

Miosótis (pseudónimo)

05.11.2017
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