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Thursday, August 21, 2014

Que mal fiz eu a Deus : uma comédia francesa a não perder !




Que mal fiz eu a Deus?
Philippe Chauveron, 2014


Que mal fiz eu a Deus, tradução de Qu'est-ce qu j'ai fait au bon Dieu é uma comédia de costumes bem ao estilo francês, sobre preconceitos e expectativas sociais. Fresca, sofisticada.

Fala dos fantasmas de uma geração que se julga preparada para enfrentar a nova realidade multiracial.

Os tempos mudam, os ideais também, mas isso não significa que se aceite a mudança tão facilmente, assim, sobretudo, se se for francês. 

Uma tradicional família francesa, católica, classe média alta, com quatro filhas. Isabelle, Odile, Ségolène fazem casamentos entre-culturas com Rachid (advogado, origem argelina), David (empresário, família judaica) Chao (gestor de origem chinesa), respectivamente. 




Qu'est-ce qu'on a fait au bon Dieu
Isabelle, Odile, Ségolénne e seus maridos 
Philippe Chauveron, 2014

Claude Verneuil, um notário 'gaulliste' e Marie, sua mulher, depositam agora suas esperanças de um casamento típico francês, em sua filha Laure, que continua solteira. 

Tudo o que queriam era que suas filhas tivessem casado com um francês, católico. E como estariam felizes, se as filhas já casadas o tivessem feito.

Os Verneil ficam então encantados quando Laure anuncia que vai casar com Charles, um católico. Finalmente! 





Qu'est-ce qu'on a fait au bon Dieu
Laure, Charles, pais
Philippe Chauveron, 2014

Mas eis que Laure aparece no restaurante com Charles, africano. E aí tudo se vai complicar. Não só para o lado da família da noiva. Do lado de Charles, o pai também complicará este casamento.

Marie Verneil cai em depressão, Claude Verneil faz tudo para sabotar o casamento de Laure com Charles, encontrando um aliado inesperado. O pai de Charles.






Qu'est-ce qu'on a fait au bon Dieu
Laure na igreja com pai e sogro
Philippe Chauveron, 2014

O humor desta comédia francesa, realizada por realizador francês, Philippe de Chauveron, gira à volta dos fantasmas da xenofobia dos franceses em relação à nova geração multicultural, rindo dos estereótipos da sociedade francesa. E nisso, os realizadores franceses são deveras excepcionais.

Mas não riem só de si. Fazem neste filme divertidíssimo, a observação das diferenças culturais. E ao vê-las em conflito, compreendemos facilmente que não são só os franceses que sentem uma certa antipatia pelo desconhecido. As famílias dos 'genros' também a exprimem.




Qu'est-ce qu'on a fait au bon Dieu
Chao, David, Rachid

Os actores são todos excelentes. O casal Verneil, uma delícia! Mas os quatro 'genros' também se esmeram. A credibilidade e o empenhamento que põem na criação das personagens é sem dúvida notável.

Bom, no final, tudo acaba em bem. Depois de uma série de cenas hilariantes, estas realidades culturais, com suas tradições, maneiras diferentes de pensar, fazem um esforço par se entender. E percebem que, na verdade, a única coisa que os estava a separar eram eles próprios.





Qu'est-ce qu'on a fait au Bon Dieu?
Philippe Chauveron, 2014

Filme muito divertido, inteligente, criativo, que nunca cai no ridículo, faz-nos rir de uma ponta a outra, pelas cenas magníficas e os gags imparáveis. Não temos tempo de nos refazermos, ao ritmo alucinante com que se e seguem. 

Sai-se da sala de sorriso bem rasgado!

Sofisticado humor francês que tira partido da própria língua, exigindo assim um certo conhecimento da língua francesa 'falada', para não perder pitada das verdadeiras intenções dos diálogos, bem como dos divertidos trocadilhos semânticos.






A não perder este filme de Philippe de Chauveron. Para uma noite bem passada, de final de verão.


Um dos melhores filmes, no género, em exibição! Europeu! 





Qu'est-ce qu'on a Encore fait au Bon Dieu?
Philippe Chauveron, 2019


Está agora em exibição um segundo filme desta comédia. Que Ma Fiz Eu a Deus, Agora?, título original Qu'est-ce qu'on a Encore fait au bon Dieu? 


Fui ver. Tal como pressentira, nada melhor do que Que mal fiz eu a Deus. Estas coisas não têm hipótese de resultar. Um grande sucesso deve ficar por aí. 


Se não viram o primeiro, tudo bem! Se viram, vão ficar decepcionados. Suponho. Como eu fiquei.

Bem melhor, Ibiza (2019) com o mesmo actor, Christian Clavier e Mathilde Seigner. Acreditem!



Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da com com flores

21.08.2014

actualização 25.12.2019
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Thursday, April 15, 2010

Alain Resnais? Incontrolável




Poster Les Herbes Folles
Alain Resnais


"Resnais laisse pousser l'herbe folle de son inconscient."

Jean-Luc Douin
Le Monde, 21.05.2009

O final de tarde fez-se cinzento, atmosfera estranha. Apetecia-me uma sessão de cinema. Passei os olhos pelas  salas de exibição e deparei-me com o filme de Alain Resnais Ervas Daninhas

Tempo ideal para ver um filme de autor! Sentada numa sala estúdio, música ambiente jazz, afundei-me na cadeira e esperei pela clássica escuridão sob ecrã luminoso. Um momento muito nosso, não é mesmo?

Baseado no livro L'Incident de Christian Gailly, o filme é uma adaptação totalmente livre! Como que percorrido por um vento de loucura, como aliás são as personagens principais, Georges Palet, um aventureiro do imaginário, e Marguerite Muir, uma mulher quase diferente! 

Um casal improvável, absurdo, numa história que pode ser vista como um exercício cinematográfico sobre alguns devaneios, pulsões incontroláveis que se escondem, tantas vezes, na cabeça de todos nós. 

Nada se poderia ter passado entre estas duas personagens, mas os acasos do amor não se encomendam! Talvez como essas "herbes folles" (a expressão francesa é bem mais elucidativa do que  versão portuguesa, já que distorce a real intenção do autor), que crescem livres e soltas nos interstícios de um pedaço de betume esventrado.

Resnais aponta as nossas dificuldades em exprimir os nossos anseios, em fazer coincidir os nossos imaginários, enfim, todos os desencontros. A eterna busca da alma gémea?



Les herbes folles/ Studio Canal

Num filme surrealista, com recurso aos jogos de palavras, aos diálogos com duplo sentido, onde a voz interior do atormentado protagonista entra em diálogo com a voz off de um divertido narrador.

Percorremos com Resnais várias referências do cinema, até o beijo hollywoodiano sobre fundo sonoro do genérico da Twentieth Century Fox e a palavra Fin sobreposta, que não é coincidente, de modo algum, com o final do filme! Um adorável devaneio cinematográfico.

O realizador de Providence, Hiroshima mon amour ou o alegre On connait la chanson oferece-nos uma diversão, só pode! que se cruza com o simples prazer de ir ao cinema.

À quatre-vingt sept «printemps», et si Alain Resnais continuait de se sentir ­comme une «herbe folle» poussée sans rime ni raison au cœur du cinéma français ?

Le Figaro, Nous sommes tous des herbes folles
04.11.2009

O filme é um maelström de  décors encantatórios - ressalto o interior do apartamento de Marguerite - ruas cintilantes, um universo de cores esplendorosas, onde sobressaem os verdes, turquesas, vermelhos, ao bom estilo Broadway.

Nesse universo, a vida parece um romance, o espírito vagueia, ao som de improvisações jazzy magníficas, onde não faltam as elegias aos livros.

"Lire n'a jamais tué personne. Au contraire, ça aide à vivre"



Alain Resnais & Sabine Azéma/ Studio Canal

Enfim! Um prazer para os ouvidos e para o olhar com os actores fétiche de Alain Resnais, o indefinível André Dussollier e a inigualável Sabine Azéma que se degladiam divertidos no picaresco das suas personagens!

"Quand on sort du cinéma, plus rien ne vous étonne. Tout peut arriver avec le plus grand naturel "

... faz o cineasta dizer a uma da suas personagens! Não acham uma óptima razão para lá entrar?

Aconselho vivamente, neste tempo de cinza integral. Um exercício de estilo bem juvenil que valeu ao cineasta de 87 anos o Prix Exceptionnel du Jury no Festival de Cannes 2009.

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

15.04.2010
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