Farol do Cabo da Roca
Fotografia: Nuno Trindade
Não! Aquele fio de
paixão pela escrita que me levou a criar fragmentos da noite com flores não recomeçou a emaranhar-se nestes dedos inquietos que desafiam o
ritmado pensamento!
Mas as mãos que poisaram mansamente, nas tardes quentes de sabores a maresia com brilho azul-céu, tempos esparsos de acalmias, percorrendo as folhas de alguns livros de lugares de interioridades, seguem por vezes, poisando por aqui.
Verdade! Hoje o Inverno baixou mesmo na cidade, adentrando obscuras e pálidas paisagens.
Foi quando me apeteceu reler o poeta que deixou de escrever há tão pouco tempo...
Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia..."
Manuel António Pina, Coisas que não há que há, O Pássaro na Cabeça,
Quasi Edições, 2006
15.11.2012
fragmentos da noite com flores
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