Monday, October 29, 2012

O poisar da noite com aromas




Foto: José Oliveira


Penso no inverno: a estação que ocupa
o centro do espírito. Nas árvores mais altas
que o outono despiu.

Nuno Júdice, Inverno*

Não! Eu sei! O inverno ainda não se adentrou. O outono ainda não despiu completamente as árvores mais altas. As folhas vestem os matizes ocre alaranjado mesclando os castanhos e os amarelos cor de açafrão.

Os dias mantêm-se luminosos, límpidos, numa tranquilidade atravessada pelas aves que continuam a percorrer as nuvens em bandos alegres, volteando de lá para cá, despertando a curiosidade da minha gata e o meu encantamento. 

Deixo-me seduzir por essa alegria à solta. Sigo com olhar sem fim nesse desejo de flutuar na mais imprecisa das emoções.

Coisas simples quando o que está em causa é o poisar do sol que não acontece. De rompante este celebrar da natureza quebra-se.



Foto: José Oliveira

A noite entra já pelos vidros das janelas. Poisa-se o silêncio na casa. A hora de inverno chegou, num manto de treva prematura. 

Esse limite empurra-me o olhar para outros horizontes que vão para além da linha  do firmamento, desaparecido no anoitecer brusco. O outro lado do dia. A noite.

Não que não goste da noite. Gosto sim! Mas é a cidade que morre, a natureza que prepara a longa hibernação. É o outono que cai. E me obriga a recolher.

Dir-me-ão que é o ciclo da natureza que habita também em nós. Pois será. Mas poderia ser de outro modo?

Eis que interrompo este quadro que arrasta a melancolia. Os aromas da erva doce nas castanhas assadas, da canela nas maçãs quentes saídas do forno espalham-se pela casa. 

Os sabores do tempo. 

E para além disso, o quê? A respiração do vento da minha alma.

Miosótis (pseudónimo)

28.10.2012

(glosa sobre poema de Nuno Júdice)

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Referências:


Créditos: Fotografias de José Oliveira | Facebook

Nuno Júdice, Inverno, Cartografia de Emoções,
Publicações Dom Quixote, 2001

Sunday, October 14, 2012

Outubro Rosa 2012





Vem de Outubro 2008 o meu empenhamento em Outubro Rosa neste blogue. Uma causa que me move na vida real desde sempre e que se reflecte aqui também. 


O mês da luta contra o cancro da mama é uma campanha internacional anual, organizada pelas maiores associações de luta contra o cancro da mama que visa aumentar a informação e consciência da doença, angariar fundos para pesquisa, prevenção e cura. 

Esta campanha oferece também informação e apoio para todos os afectados pelo cancro da mama. 

Em Portugal, o Dia Nacional da Prevenção do Cancro da Mama, dia 30 de Outubro, foi criado na sequência de uma Petição subscrita e entregue na Assembleia da República.

Em todo o mundo decorrem neste mês acções para apoiar tão nobre causa! Pessoas, marcas, cidades juntam-se fazendo Rosa este Outubro.




Tem havido no nosso país uma consciencialização maior nos últimos anos. Já era tempo. Várias são os rastreios promovidos pela Liga Portuguesa Contra o Cancro que estão a decorrer um pouco por todo o pais. 

Quem sabe se na sua cidade, localidade, um destes rastreios está agendado? Informe-se aqui 






As mulheres voam
como os anjos
Com as suas asas feitas
de cristal de rocha da memória

Disponiveis
para voar

soltas...

Primeiro
lentamente uma por uma

Depois,
iguais aos passaros

fundas...

Nadando,
juntas

(...)

Não somos violencia
mas o voo


quando nadamos
de costas pelo vento


até à foz do tempo
no oceano denso
da nossa própria voz


Sabemos distinguir
a dormir
os anjos das rosas voadoras


pelo tacto?

Somos os anjos
do destino



Maria Teresa Horta, Anjos Mulheres VI (excerto)




Miosótis (pseudónimo)

fragmentos de esperança nesta luta contra a dor e o sofrimento

14.10.2012
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Sunday, September 30, 2012

Dia Internacional da Música




Georges Braque

Há talvez dois, três anos, quatro anos, que não assinalava aqui este dia. Não por esquecimento. Apenas outros momentos me ocupariam ou até a ausência.

Mas hoje aqui estou. Cada dia é dia de música, eu sei. Sem ela, seríamos muito mais solitários, tantas vezes sem rumo. Mas a música apazigua-nos o olhar, o pensamento solta-se e deixamos de lado as tormentas de alguns momentos de desassossego.

Apenas pretendo homenagear todos os músicos, esses seres 'divinos', inspiradores do nosso quotidiano. Da vida.





“Às vezes, ela saía, logo a seguir, caminhava na rua, tocando apenas mentalmente, para não se deixar interromper. Andava pelo meio das casas e ouvia ouvia (...) As árvores balançavam os ramos, e os carros passavam, as pessoas cruzavam-se com ela, mas não a interrompiam. Só quando chovia ela se abrigava debaixo de uma varanda ou no vão de uma porta, parava mentalmente de tocar e fechava o piano.”

Teolinda Gersão, Os Teclados
Publicações Dom Quixote, 1ª edição 1999



Miosótis (pseudónimo)

01.10.2012

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Sunday, September 09, 2012

Paisagens narradas




Vista para o mar | Costa do Oeste
Fotografia: Francisco Mendes


"Esse período pode ser muito reconfortante e melancólico. Reconfortante porque todas as lembranças e cicatrizes assentam, são processadas pela memória, narradas a nós próprios devagarinho, encontram um lugar na organização da cabeça. Melancólico exactamente pelo mesmo motivo. Esse é um período em que se contempla um tempo que, ali, se sabe com muita certeza que não voltará."

José Luís Peixoto, O vagabundo regressa a casa*


Depois de umas curtas férias pela Costa Oeste que não revia há algum tempo, eis-me de volta a este espaço que continuo a querer partilhar, embora com pouca assiduidade, eu sei.



Parque D. Carlos I
Foto: Miguel de Azevedo e Castro


Foi bom! Lugares 're'visitados trazem sempre à memória fragmentos de vida que guardamos. E apesar de vivermos num mundo em que informação é uma constante, o nosso cérebro, tal como o poeta escreve, processa essas lembranças. E cada olhar, som, aroma, despoleta de imediato a narrativa poética.

Percorri alguns locais, saltitei entre as imensas praias que esta costa nos oferece,  com paisagens deslumbrantes, quando vistas do alto, e algumas cidades que as autoestradas deixam longe do olhar.

 

Grande Auditório CCC | Caldas da Rainha




Pela foto, reconheceram de imediato Caldas da Rainha. Uma cidade que cresceu, sem dúvida. Um moderno Centro Cultural e Congressos que visitei,  sem ter acesso a este belíssimo Grande Auditório. Nenhum concerto estava agendado para esta época do ano.



Museu José Malhoa | Parque D. Carlos I


Rumei então até ao Museu José Malhoa perfeitamente enquadrado neste sereno e lindo parque, abrindo portas sobre o lago e mostrar a maior parte da obra do seu patrono, bem como uma colecção importante de pintura e escultura dos séculos XIX e XX. 

É considerado 'o museu do naturalismo português'. Como se pode constatar, não poderia a temática estar mais de acordo com o espaço onde se insere.

Para além da arte, dois aspectos dignos de realce, vindos, para mais, de um museu de 'província': a disponibilização de um vídeo com língua gestual portuguesa, bem como uma brochura em braille.



Mosteiro de Alcobaça
Foto: Autora© (via Android)

É evidente que não poderia deixar de voltar a Alcobaça, percorrer aquelas ruas estreitas, empedradas, bem medievais. E de revisitar o Mosteiro de Cister. Uma sensação de finitude, de recolhimento cai sobre nós. Como se num estado de contemplação meditativo, sem preces. 



Túmulo Dom Pedro | Mosteiro de Alcobaça
Foto: Autora©  (via Android)

Impensável não parar junto de Pedro e Inês. Interessante, jazia Pedro quase abandonado, enquanto Inês, estática, se via rodeada de um enorme grupo de turistas italianos que seguiam atentamente toda a história da infeliz Inês.



Senhora da Assunção | Mosteiro de Alcobaça
Foto: Autora©  (via Android)

Mas foi esta imagem que me deslumbrou. Poisada num dos pedestais laterais, quase por trás do altar central, sobressaia do peso da pedra que a circundava. Uma serenidade nos gestos, a beleza da madeira esculpida, a arte da estatuaria portuguesa do século XVII.

E foi tempo de regressar...

"A casa está exactamente como ficou. (...) Então, antes de desfazer a mala, apetece sentar no sofá, senti-lo. 
(...)

Então, a casa é mesmo casa. O corpo recupera segurança, (...) A casa é como aquele lugar em que não podíamos ser apanhados quando brincávamos à apanhada. A casa é como um abraço."

José Luís PeixotoO vagabundo regressa a casa*


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

09.09.2012
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* Textos de José Luís Peixoto: blogue do autor

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Saturday, August 04, 2012

O tempo dos silêncios





Pina Bausch Tanztheater


É tempo de paragem! De outras paisagens, que se desdobram em íntimos 

passeios, já que o verão, este ano,  não traz em si aquelas brisas de final de tarde 
com cheiro a calor, nem o mar nos estende seus aromas de maresia. O oceano 

não aquece com este sol sem brilho nem resplendor. 

Mas é tempo de aspirar o tempo que nos oferece o universo. E de observar...

Não és o corpo, não és os sentimentos e não és os pensamentos.
És a consciência silenciosa que observa tudo isso. 


Aruna

Tempo de deixar fluir o pensamento sem véus nem filtros. Apenas fluir como quem olha as águas de um rio que deslizam entre as margens sem pressa nem cuidados.

Nessa afluência, o tempo trouxe a lembrança da noite de 5 Agosto. Cumprem-se 50 anos sobre a morte de Marilyn Monroe, essa mulher frágil que partiu na fria solidão, apesar de desejada por tantos. 





Marilyn Monroe [1926-1962]
créditos: Sam Shaw

Este é o ano de muitas celebrações. Livros, filmes, artigos. Talvez a mais bela homenagem tenha sido a do Festival de Cannes 2012 ao apresentar Marilyn como égide do Cartaz, no gesto simbólico de um sopro em forma de beijo. Gracioso. 






Cartaz Festival de Cannes 2012

Também o filme My week with Marilyn que vi no Outono passado. foi uma descoberta interessante. Baseado numa história verídica que decorreu durante as filmagens do célebre O Príncipe e a Corista que a RTP2 vai passar esta noite.





My Week with Marilyn
Simon Curtis, 2011


Com o tempo de volta,  descobri  o sítio web oficial/ redes social Instagram de homenagem a Marilyn Monroe. Homenagem de admiradores.


Marilyn, "uma referência eterna e decididamente contemporânea da graça, do mistério e da sedução."


A história de vida de Marilyn continua a fascinar muitas pessoas em todo o mundo.  E assim, em 2010, foi editado um livro contendo escritos seus originais.





Fragments, poems intimate notes & poems
Marylin Monroe 
Farrar, Straus and Giroux (2010)


Fragments reúne  uma colecção de manuscritos inéditos e fotos de Marilyn Monroe, guardados durante 48 anos pela viúva do director Lee Strasberg, seu professor de artes cénicas. O tempo de novo.


"Beyond the headlines - and the too-familiar stories of heartbreak and desolation -was a woman far more curious, searching, witty, and hopeful than the one the world got to know.A ler aqui


Mas, esta intromissão na vida privada, me coloca uma questão ética. Até que ponto há o direito moral de publicar escritos intimistas, se não autorizados (por vontade da própria reconhecida), após a morte de um ser humano? 


É a esse ser humano que se escondia por trás da actriz que deixo este tributo.


"It is often just enough to be with someone. I don't need to touch them. Not even talk. A feeling passes between you both. You're not alone."

Marilyn Monroe


Voltarei depois de um tempo de silêncios. Outras paisagens. Serenidade. Leituras.


Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores

 
04.07.2012

actualizado 16.06.2026
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Saturday, July 07, 2012

Frida Kahlo, visão quase intimista !





Frida Kahlo | Auto-retrato
 Nikolas Muray Collection, Harry Ransom Center, 
The University of Texas at Austin
http://upload.wikimedia.org/

"I am not sick. I am broken.
But I am happy as long as I can paint."


Frida Kahlo


Frida Kahlo! Deveria ter escrito ontem, dia do seu aniversário, esta homenagem. Mas a intenção perdurou e aqui estou. 

Um dos nomes incontornáveis da arte contemporânea, a pintora mexicana Frida Kahlo continua sendo fonte de inspiração quase 60 anos após sua morte. Mulher e criativa que muito admiro.






Google Doodle 103º Aniversário de Frida Khalo

Google homenageou a pintora em 2010 com um Doodle criativo que remete para a arte da Frida Khalo.

"Kahlo's paintings are mostly known for being  personal in the extreme; she tells her stories through vivid and surreal images that are both shocking and inviting. 

"I painted my own reality"

Frida Khalo




Frida Khalo & Diego Rivera
via Biography

Kahlo's work has encouraged many women to give voice to their experiences and pursue their passions, whatever obstacles life might pose along the way."

Frida Kahlo, a artista mais polémica da história do México, pela vida atribulada, pela força energética que emanava, pelos amores tempestuosos com Diego de Rivera e pelo envolvimento nas questões sociais do seu país.






Frida Khalo

Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón de seu nome, conhecida pelos seus auto-retratos, foi celebrada no México, seu país, como emblemática da tradição indígena nacional e pelo feminismo da sua representação intransigente da experiência feminina e da forma.

Kahlo sofreu de graves problemas de saúde ao longo da vida, muitos dos quais resultantes de um acidente na sua adolescência. Estas questões estão reflectidas  nas suas pinturas. Mais de metade, são auto-retratos de um tipo ou outro. 





Frida self-portrait with-necklace
credits: Frida Khalo Foundation

"A única pintora no mundo que ganhou prestígio fazendo auto-retratos. Todos conhecem sua obra através de suas feições.” 

Kahlo escreveu: "Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor." 






Frida Khalo | Auto-retrato

Amante da tradição cultural mexicana e ameríndia constante na sua obra, esta artista autodidacta, tantas vezes identificada como Arte Nativa (Native Art) ou Folk Art, descreveu o seu drama pessoal de forma muito crítica, através da figuração da dor, da paixão, das vivências, e da cor que introduziu de forma vibrante, perturbadora, por vezes, nos seus quadros.

In 1953, quando Frida Kahlo apresentou a sua primeira exposição individual no México (a única em vida), um crítico local escreveu:

"Impossível separar a vida e obra desta mulher extraordinária. A sua pintura é sua própria biografia."





Frida Khalo 
A Coluna Partida, 1944

Os seus quadros têm o fantástico, que muitos procuram ver ligado ao Surrealismo. Em 1938 André Breton qualificou a sua obra de surrealista num ensaio que escreveu para a exposição de Kahlo na galeria Julien Levy em Nova Iorque.

Mas enquanto os surrealistas pintavam o subconsciente, o escondido, o sonho, o irreal, Frida pintava as emoções da sua vida.





Frida Khalo
retrato, 1932
Guillermo Khalo
 
"Pensaram que eu era Surrealista, mas nunca fui. Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade."

Frida Khalo

Há uns anos (2002) vi o filme Frida, realizado por Julie Taymor, uma biografia da artista que canalizou a dor de uma lesão incapacitante, o seu casamento tempestuoso que se projecta na sua obra.

Fiquei impressionada com Salma Hayek. Uma interpretação fabulosa. 






Frida 
Salma Hayek
Julie Taymor (2002)

Aconselho vivamente. Pelo argumento, fotografia, interpretação, riqueza pictórica, banda sonora. Poderá desvendar um pouco no trailer, se não viu ou lhe apetecer rever.



No centenário do seu nascimento (2006) foi criado um sítio web lindíssimo que não deve deixar de visitar aqui (versão bilingue, espanhol-inglês). 



Nesta noite fresca de Julho - ninguém diria que é verão - o tempo não convida a um passeio lá fora. Fim-de-semana. Para uns, o cinema ou a leitura. Para outros a actualização dos blogues ou a navegação na Internet.




Faces of Frida

Por falar na Internetnão deixe de aceder à exposição virtual Faces of Frida patente no Google Arts & Culture.







Frida Khalo
I paint my Reality
Christina Burrus,2008




Depois de uma ida ao cinema, em final de tarde, e da passagem obrigatória de sábado pela livraria, vim para casa. Revisitei Frida no Google Arts - tanto para admirar! 

E mais tarde, sentei-me por aqui, a partilhar um pouco da vida e obra de Frida, numa visão quase intimista. 





Miosótis (pseudónimo)

07.07.2012
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