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Monday, January 02, 2017

Herança de vida






credits: Christian Schloe

Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.

Cecília Meireles, Aqui está minha vida



Quero então uma herança diferente. Areia clara, sim, com desenhos de andar de andar dedicados ao oceano. Gosto da brisa com cor de água-marinha. 

Voz sem tantos lamentos. Mágoa(s) de coral quase perfeito. E poucos momentos patéticos.

Quero uma herança mais leve. Menos solilóquios. Quero começar outros dias. De serenidade. Fruir dos aromas que envolvem a vida. 

Possa eu encontrar a paisagem quase perfeita para continuar. 

Pacificada, serena. Evitar o desassossego. Colorir o pensamento com aguarelas de momentos mais doces. Ternura. 

Um mar menos solitário. 
Ânimo para todos os afectos.

"Com as coisas que vão acontecendo vamos aprendendo que nada é impossível de solucionar, apenas siga adiante."

Papa Francisco


Miosótis (pseudónimo)

©glosa sobre poesia de Cecília Meireles

04.01.2017
Copyright ©2017-fragmentosdanoitecomflores Blog, fragmentosdanoitecomflores.blogspot.com® 



Sunday, September 13, 2015

Voltou Outono






Japanese bonsaï


Nesta época do ano, tendo a olhar pela janela, atenta às alterações de mudança de estação. Tãp rápido! Ainda ontem era verão

Na segunda-feira, estive na praia. Tempo quente. Depois, sentei, já bem no final da tarde, numa esplanada frente ao mar. 

Aproveitava o pôr-do-sol, lendo, enquanto degustava um crepe aromatizado de canela.

O Outono entrou de rompante. A natureza inicia sua transmutação. O equinócio anuncia-se por perto.

Adentra-se a luminosidade ténue, os dias mais curtos, a noite desce sem lentidão. 

Observo as folhas. Já vagueiam soltas, caidas das árvores, espalhadadas pelas ruas. 

E há o friozinho pela manhã, e no quebrar da tarde. O verão está quase no fim. É hora de me preparar para a temporada de inverno. 

Embora tente lutar contra isso, esta é a época do ano em que minha mente se torna um pouco mais triste. Sorriso menos solto.

Penso nas pessoas que não estão mais em minha vida. E nestes últimos meses, tenho sido fustigada com a perda de amigos.

Um arrepio de frio. Olhando, de novo, para lá da minha janela, a noite chegou mais fresca, hoje, céu de semblante sombrio, carregado da cor de bréu.

Não há estrelas. Apenas ao longe as luzes da cidade. Também elas mais solitárias.


O outono amarelece e despoja os lariços.
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar
O terror augural de encantos e feitiços.
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar

Manoel Bandeira, Crepúsculo de Outono
(excerto)


Miosótis (pseudónimo)
13.09.2015
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Saturday, January 24, 2015

E hoje fez-se alegria





Street Art

E hoje fez-se alegria. Sol entrando pelas janelas, brilhante, desde a manhã. Sol mais quente. E céu azul! 

Mum! Que bom abrir a varanda e aspirar o sabor da temperatura tão amena. E saio lá fora. O café tem um outro sabor. Sorvo por curtos gestos, usufruindo do aroma que se solta. Livre.

Saúdo o sol. Recolho-me, olhando lá longe o horizonte. Em paz.

Baixo-me para as plantas. Retiro as folhas secas, húmidas mas sem vida. A chuva, o gelo. Sabe-me bem mexer neste pedacinho da natureza pendurada na cidade. Trato-a com carinho. A natureza.

Olho as gaivotas, longínquas. Tornaram-se citadinas. Um ou outro pássaro voa mais próximo, ainda descrente de uma primavera fora do tempo. Sereno.

E dou por mim afagando as folhas novas verde-água tenras que teimam em nascer, enquanto sigo o pássaro até o perder de vista. Lá bem longe.

2014 foi um ano triste, duro mesmo. Eu sei - me dirão - duro é ter fome e não ter que comer, ou ter frio e não ter onde dormir. Eu sei, sou privilegiada.

Então travo meu queixume. E olho de frente este sol que me invade. Respiro. Profundamente. Absorvo o que a atmosfera me doa.

Hoje há sol, de novo! E fez-se alegria.


Ainda bem que sempre existe outro dia.

E outros sonhos.
E outros risos.
E outras pessoas.
E outras coisas.

Clarice Lispector

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos de uma manhã com flores

24.01.2015
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