Sunday, November 24, 2013

Tributo: John Kennedy e Caroline




Caroline Kennedy e seu pai John Kennedy
25 Agosto 1963 

Credits: JFK Library

Noite fria, silenciosa. Quase lastimosa. A dor de Caroline, menina, na sua alma de criança. Seu pai não voltará a abraça-la.

Percorro os espaços que os media partilharam ao longo de todo o dia de ontem. Fotografias inéditas, pessoais, família Kennedy.

Jardins de alegria, ternos aconchegos. Comoção profunda, embora, digam que 50 anos se passaram. Afectos estilhaçados.

Uma família dotada, defeitos, virtudes, como cada um de nós, valores, defesa causas humanitárias. União. Partilha. Felicidade. Crianças. 

Maldição? Desígnios que entristecem.

“What was killed in Dallas was not only the president but the promise. The death of youth and the hope of youth, of the beauty and grace and the touch of magic.”

James Reston, New York Times

Olhando as luzes lá fora, parecem-me melancólicas. Tristeza foi o sentimento maior que se abateu sobre o mundo. Naquele dia. E ontem.

Caroline. O abraço aconchegante, ternura partilhada, nada voltou a repetir-se.

" I don't remember my father reading to me, but I remember him telling me bedtime stories."

Caroline Kennedy

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

24.11.2013

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Saturday, November 16, 2013

Sampaguitas para Filipinas




Espiritualidade

Todo um mundo 
   que sofre
sobe um manto de flores.


Kobayashi Issa

Escrever o quê perante tanta tragédia? O mesmo bloqueio quando me emocionei pelo Japão.


Espiritualidade! A primeira palavra que veio ao pensamento. Associo espiritualidade ao ritual das flores.


Fui então ao encontro da flor nacional filipina.  A flor de sampaguita.

Sua fragância suave assemelha-se à flor de jasmim. É oferecida aos santos de devoção.

A sampaguita, símbolo de pureza e devoção, cresce na zona montanhosa de Pampana. 


Depois veio a poesia. Haiku ou Haikai. Poema curto que usa uma linguagem imagética para transmitir a essência de uma experiência da natureza ou de um momento ligado à condição humana.


Já que é necessário
entremos na morte 
à sombra das flores.


Kobayashi Issa


Flor de sampaguita


Brevidade ! A flor de sampaguita é colhida de manhã bem cedo, regra geral por crianças, que se apressam a vendê-las nos mercados locais.

A flor de sampaguita dura apenas um dia. Simbólica da brevidade de todos os seres, flores, Humanidade.


Preces. Palavras que nos voam na mente.

O sino cala-se -
    em eco
as flores perfumam a noite!


Matsuo Bachô

Presenças espirituais. Almas que se afastam.

Seres que vivem escondidos no coração dos que amam, mesmo partindo. Pressentem suas preces. Expressam-se por aromas de sampaguita. 

Para sempre.

Afundam no céu. Paz? Deixaram os seus tão abruptamente.


Eternidade.

     Profundo
mais profundo ainda
nas montanhas azuis


Taneda Santôka


Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores, em espritual prece pelas Filipinas.


16.11.2013
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Poemas in As Cigarras vão morrer, Kaiku, Uma antologia
Editora Casa do Sul, 2008

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Saturday, November 02, 2013

Pássaro sem primavera




Tate Tatew

Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

(...)

Mia Couto, Solidão (excerto)

E foi na hora em que me recolhia que ouvi um pássaro bem perto chilreando, alegre, quase pueril.

Mas, não é Primavera! Que fará um pássaro sem primavera cantando na noite fria? O Outono leva os pássaros, e só o calor os volta a trazer. 

Perdido? Não. Cantava com alegria. Como se tivesse todo o tempo do mundo para atravessar as estações.

Não pode ser! E fui até à janela de onde chegou seu canto. Lá estava ele, chilreando, por entre pedaços de chuva como frutos abundantes que o pássaro debicava entre o verde dos ramos das árvores, na obscuridade.

Um dia cinzento-pardo, plantado de tristeza na noite escura. E entrou ele, assim, com seu trinado despreocupado, pelos meus vidros, por trás dos quais a noite se fechava na bruma fria, o céu sem lua.

Solto, leve, esse pássaro encantador continuava, arrancando-me à solidão que me tocava nos dedos. 

Sempre me surpreendem, me fascinam estes seres delicados, frágeis, livres, independentemente do(s) tempo(s) das estações.

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra (...)


Mia Couto, Para ti (excerto)


Obrigada meu pássaro-cantador! Puseste um sorriso neste rosto que todo o dia permanecera tão ensombrado quanto o tempo. E me empurraste os olhos para outros limites.

Miosótis (pseudónimo)

02.11.2013
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