Wednesday, April 10, 2013

Como um carícia





Floresta | Foto: José Oliveira
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II
Está alta no céu a lua e é primavera. 
Penso em ti e dentro de mim estou completo. 

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira. 
Penso em ti, murmuro o teu nome não sou eu: sou feliz. (...) 

Alberto Caeiro

 
Ah! Finalmente a Primavera promete chegar! Como uma carícia! 

Há algum tempo que andava tristonha, e não escapei ao desalento, com a ausência do sol, dos dias serenos, das aragens acaraciadoras, como as que nos presenteou hoje. A Primavera.

O sol brilhou desde a manhã, o céu se cobriu de azul-claro, intenso, as folhas das árvores espreguiçaram-se mais verdes, e de longe, um ou outro pássaro se ouviu.

Verdade! meu pássaro-cantador, anunciador da Primavera, passou por aqui há algumas semanas. Tentou por um ou duas madrugadas, alertar-me para a primavera, mas o frio, a chuva, o fustigou tanto, que ele se retirou. Ele e outros que tentaram sobrevoar estes espaços também partiram para paisagens menos inóspitas.

Estou então airosamente prazerosa! Basta um olhar a sul para libertar toda a ansiedade que se acumulou nestes longos longos meses de Inverno. 

Já limpei as folhas secas das poucas flores que me restam, e aguardo que, com a  atenção e o carinho prestados hoje, quer por mim quer pelo sol, elas despontem alegremente, de novo. Abram suas flores, vistosas, e se deslumbrem com as temperaturas tépidas,  para inundar os dias de cores garridas, surpreendendo-nos com aromaterapias soltas na paisagem. 

Então, aguardo. Quem sabe meu pássaro-cantador não muda de rota e passa de novo pela minha janela?

Com o final de tarde a poisar-se sobre os vidros semi-abertos das janelas, vou escrevendo, impressões de Primavera, fruindo dos raios de sol que se espalham ainda, luminosos, pela mesa de trabalho, para não esquecer que hoje, a Primavera prometeu voltar.

Assim deixo, neste final de dia, o testemunho encantador da simbologia de um novo tempo. A primavera desceu à rua.


II 
(...)
Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelos campos,
E eu andarei contigo pelos campos a ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Mas quando vieres amanhã e andares comigo realmente a colher flores,

Isso será uma alegria e uma novidade para mim.


Alberto Caeiro, Está alta no céu a lua e é primavera


in O Pastor Amoroso, Poesia
Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001*



Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da tarde com aromas de flores

14.04.2013
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* Referência:

Casa Fernando Pessoa
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