Tuesday, March 23, 2010

O pássaro que anuncia a Primavera





Beija-flor de topete | JQuental (Br)
http://jquental.multiply.com



Começa a haver meia-noite e a haver sossego,
Por toda a parte das casas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida…

Vai tudo dormir…
(...)

Todos os anos, um pássaro-cantor ouve-se da minha janela, mal começa o anoitecer! Que estranho! Tinha ideia que os pássaros só cantavam à luz do raiar do dia, em finais de tarde quentes, de cores suaves azul rosado com fiapos de nuvens arrumando-se no firmamento.

Mas este pássaro-cantor reaparece sempre por esta altura, anunciando-me com a sua  exuberante ária a Primavera! 

E eu emudeço, desdobrando-me em mil cuidados, aproximo-me de mansinho, abro num gesto tranquilo, quase terno, a janela, e páro!


Faço um silêncio profundo, mando calar meus tumultuosos pensamentos, e emudecida, imersa em fragrâncias soltas, doces, deixo os meus sentidos inundarem-se daquela melodia cristalina, trinada em tom maior, e sorrio!


Sorrio de ternura pelo pássaro-cantor que me traz de volta a Primavera. E sorrio de encantamento!


A ternura mescla-se com o encantamento de ter a capacidade de estacar ao som do canto do pássaro anunciador da Primavera.

(...)
Fico sozinho com o universo inteiro.
Nem quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anti-citadino!...


(...)

Sim, vivo na cidade... no campo! Lembro quando vim para este lado da cidade! Faz alguns anos, fugia do bulício de uma rua barulhenta onde os pássaros não poisavam, apesar de haver árvores! 

Todos os anos, o meu pássaro-cantor reaparece e este silêncio musicado toca-me! Vem aí a Primavera!

(...)
Vai tudo dormir…


Só eu velo, sonolentamente escutando…

Esperando
Qualquer coisa antes que durma…

Qualquer coisa…


... um pássaro me anuncia a Primavera! O meu pássaro-cantor! A paz que há nos campos de volta à minha janela citadina, refugia-se em minh'alma! 

O universo debruça-se sobre a cidade longínqua de luzes tremulares




Miosótis (pseudónimo)

texto original, 23.03.2010
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fragmentos de um pássaro-cantor nas noites em que as flores começam a desabrochar na pequena varanda virada para a imensidão da paisagem nocturna. 


*Poesia: Álvaro de Campos, Começa a haver meia-noite e a haver sossego
9 - 8 - 1934 
in Poesia, Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002

Monday, March 15, 2010

Uma flor no Inverno




AFP/DDP/Eckehard Schulz 2010

http://news.yahoo.com/nphotos




Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos. desfados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água límpida de um açude.

José Luís PeixotoNenhum Olhar, 2001

Os dias foram carregados, nuvens cinza, atmosfera brumosa, dores intimistas! O Inverno prolonga-se indefinidamente, agressivo, imponente, quase ditador das estações que se baralham destemperadas e avulsas!

A Primavera desponta? Não a enxerguei ainda nestas noites do amanhecer que transmutam a paisagem de minh'alma. 
Sem deixar para trás as tristezas, levanto para o Universo as minhas preces de eterna claridade e magia! 
E aguardo enquanto meu olhar se prende neste grito de cor da flor que corajosamente desbrava a neve que a sufoca.

Pisando a erva tenra
caminho
num campo de nuvens

Kawabata Bôsha, As Cigarras vão morrer
Haiku, Uma Antologia
Editora Casa do Sul, 2008

Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores
15.03.2010
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Monday, March 08, 2010

Dia Internacional da Mulher 2010



Mirror
Norman Rockwell
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tender is the night
And haply the Queen-Moon is on her throne,
Cluster’d around by all her starry Fays;
But here there is no light,
Save what from heaven is with the breezes blown
Through verdurous glooms and winding mossy ways 
 
John Keats, Ode to a Nightingale, 1819, lines 35 a 40


Neste dia de todas as mulheres, as ausentes e as presentes, os versos de um poeta de grande sensibilidade.


Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite
08.03.2010
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