Sunday, September 24, 2006

Sonhos em noite de chuva






Fotografia:John D. MacHugh/AFP
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"A profunda harmonia entre ela e o mundo - uma harmonia difícil, instável, porque ela insistia sempre em viver com rigor, com uma atenção que não afrouxava nunca, mesmo quando dormia"

Teolinda Gersão, Os Guarda-Chuvas Cintilantes, 1984


Houve tempos em que me entregava ao sonho, fiel e doce, de intensa melodia, sentimentos emanados d'alma, ancorada, suspensa, na certeza de vogar no amplexo macio de um afectuoso envolver, sensível, acolhedor, partilha de

- abraço calor sonho vida -

que para sempre reteria meu ser em firme e coeso querer de constante fragrância.

Lua, lua linda, sorriso desvanecido, rosto terno, eu me deixava fluir como ninguém mais me vira. Simples no acto de amar.


Hoje solto lágrimas de lua cor de prata, arco-íris num teclado apenas iluminado, escrevendo fragmentos de uma alma silenciosa.

Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite em sonho fugidio, som Dream a Little Dream of Me, Laura Fygi, Bewitched, Verve, 1993

24.09.2006

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Thursday, September 21, 2006

Dia Mundial da Paz




Flor de Lótus
Fotografia: Pornchai Kittiwongsakul/AFP
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"- De qualquer modo se vai ser um grande caminho para a paz o de, pelo paciente esforço dos menos inteligentes ou pela fulgurante chegada dos mais inteligentes, se entender a História do mundo e por ela a nossa posição no dito mundo, e se vai a Paz consistir fundamentalmente em, pela clarificação geométrica da vida, voltarem ao Pai todos os seus filhos pródigos, a grande força de avanço, o grande motor deste passar dos povos não está verdadeiramente nos que se deslocam, mas nos que de alguma forma vão participando do movimento, para que não falte companhia aos que marcham, mas na realidade já há muito chegaram."

Agostinho da Silva, Idem, Ibiden, pág. 41


Miosótis (pseudónimo)
... porque ainda creio que a Paz vai um dia ser possível neste mundo conturbado e dolorido.

fragmentos da noite com uma singela luz tremular, mas convicta de espiritualidade, som Papillon, Secret Garden, Songs from a Secret Garden, Mercury Polygram Company, 1996

21.09.2006

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Friday, September 15, 2006

Meditando Outono




Fotografia: Serdjan Zivulovic/Reuters
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No alpendre, um vento gelado

atravessa a minha roupa fina.

É noite, ressoam os últimos tambores,

goteja a água na clepsidra de jade.

A lua atravessa a Via Láctea,

Embebida de luz.

Um pega salta de uma árvore de Outono,

uma chuva de folhas cai.

Wang Wei (701-761), Meditando Outono
Poemas de Wang Wei, Instituto Cultural de Macau, 1993


Miosótis (pseudónimo)


fragmentos da noite com flores, som de Ev'ry time we say good bye, Mick 'Red' HuckNall


15.09.2006
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Sunday, September 10, 2006

Volver : Almodovar





Volver | Pedro Almodóvar (2006)
http://www.imdb.com/

"Mi madre esta presente en toda la pelicula, muchas de las frases que ellas dicen son las decía ella en vida."

Pedro Almodovar


O novo filme de Almodóvar! Esperava-o com alguma expectativa. Depois de Habla con ella (2002) ou Todo sobre mi madre (1999), ficara decepcionada com La Mala educacíon (2004)

Uma história de regressos, em que a vida e a morte se entrelaçam com uma naturalidade que só a sensibilidade de Almodóvar exprime sem ressentimentos.

Um filme quase surreal. Mas os seus primeiros filmes eram surreais! Certamente já teria imaginado que essa fase fora ultrapassada. Mas não!

Num deambular sentido, autêntico de imagens mescladas de drama e comédia, de emoções intensas ou situações hilariantes o filme deixa de novo que a crítica social se oiça.

O espectador sente-se desconfortável logo nas primeiras imagens que enchem o ecrã. Mas o humor dos diálogos e os gestos naturais e até ternos das personagens, fazem com que os primeiros sorrisos se soltem. 


Penélope Cruz | Volver

E então, segue-se o enquadramento da história, onde prepassam momentos de riso, humor macabro - melhor enquadrado se se entender bem a língua original - e de emoção e lágrimas que atingiram muitos espectadores.

Afectos e desafectos convivem com a mesma singeleza que a vida e a morte. Três gerações mulheres unidas pela amizade, solidariedade na família e na vizinhança, já que esta aparece como parte integrante da família, nas aldeias remotas da infância do cineasta - La Mancha.

Ternura pelos mortos que se confundem com os vivos, numa trama surreal, aceitação da presença natural dos que nos deixam, num eterno sentimento de partilha.

Carinho pela crucial vivência de seres atingidos por doenças súbitas e incuráveis.

Sátira sóbria mas contundente dos reality shows que passa despercebida à maioria dos espectadores, tão impregnados dos contra valores que vigoram na sociedade actual.

Ataque duro e sem perdão aos maus tratos de crianças e adolescentes no seio da família. Almodóvar expõe os defeitos dos homens.

Volver é um filme de mulheres que me fez voltar a Ata-me (1990), Mujeres al borde de un ataque de nervios (1988) e claro ao mais sensível de todos, Todo sobre mi Madre.

O conjunto de actrizes ganhou o prémio de "Melhor Interpretação Feminina" no Festival de Cannes 2006



Carmen Maura | Volver

Gostei imenso de rever Carmen Maura, essa excelente actriz, sempre tão presente nos seus primeiros filmes. É com ela que o filme ganha autenticidade.

Penélope Cruz só poderia tornar-se quase credível pelas mãos de Almodóvar. Mas nada explica a sua escolha para participar neste filme. Fantasias ou fétiche de realizador.

Banda sonora perfeita de Alberto Iglesias, em que Volver se destaca pela intensidade dramática, interpretado por Estrella Morente.

É o regresso de Almodóvar à sua terra natal, às sua raízes, a sua mãe.

Foi considerado o "Melhor Filme do Ano" pela
Fedéracion Internacional de la Crítica de Cine.


"Volver es un título que incluye varias vueltas para mi. He vuelto un poco más, a la comedia."

Pedro Almodóvar



Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da tarde 

10.09.2006

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Thursday, September 07, 2006

Centenário Nascimento Agostinho da Silva 1906-2006





Agostinho da Silva em sua casa (1986)
http://www.agostinhodasilva.pt

"Apesar de todas as amizades, sempre na vida estamos sozinhos; o que é mais grave, mais doloroso, exactamente como o que é mais belo, passa-se connosco. Entre um homem e outro homem há barreiras que nunca se transpõem. Só sabemos, seguramente, de uma amizade ou de um amor: o que temos pelos outros. De que os outros nos amem não poderemos estar certos."

Agostinho da Silva, Sete Cartas a um Jovem Filósofo - Seguidas de Outros Documentos para o Estudo de José Kertchy Navarro, Ed. Ulmeiro, 1990

Miosótis (pseudónimo)


fragmento da noite com papoilas - para me regalar a vista, terei as papoulas - * a maneira mais sóbria de homenagear o pensador, som The Air that I Breath, Simply Red, It's Only Love, Warner Music UK, Ltd, 2000

7.09.2006

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Referências:


*Agostinho da Silva, Cadernos de Lembranças, Lisboa, manuscrito, 1986

Portal Agostinho da Silva
http://www.agostinhodasilva.pt

BNP | Agostinho da Silva (2006)
http://www.bn.pt/agenda/evento-agostinho-silva.html


Monday, September 04, 2006

Apontamentos intimistas




Fotografia: Moon rises over Earth
NASA/Handout/Reuters

http://news.yahoo.com

Antes de me deitar vou aspirar a noite. Do topo de minha pequena mas sobranceira varanda, como que procurando energias para o ano de trabalho que hoje recomeça.

A lua está linda, cor bem doirada, quente, lá longe. O firmamento em tom azul-rei, profusamente engalanado de estrelas tremulares de brilho argenteo, acolhe-a.

Um avião prepara-se para aterrar depois de circundar a lua, numa paradisíaca imagem da noite, numa cidade desconhecida.

Já devia estar a dormir. Amanhã, ou melhor daqui a algumas horas, há que levantar muito cedo, mas refugio-me no Universo que me dá aconchego.
Hoje recomeça um novo ano, mas o meu local de trabalho aniquila, em crescendo, a minha criatividade, e descaracteriza-me no quotidiano.


Asfixio. Fujo das invejas, maldades, farsas, marcações, por ser diferente e deixar um lastro luminoso, sem mesmo reparar. 


Sou íntegra e simples, o que me rodeia não me interessa. E a indiferença dói aos demais.


Avanço sem entusiasmo, sem alegria, entrego-me ao estiolar da minha alma profissional, num ambiente pardacento, monótono, coeso em maldades e cobiças a capella.

Lá fora, a noite convida-me a sonhar sempre e sempre. Ergo uma prece ao Universo e peço-lhe inspiração para continuar o meu percurso de poeta da vida. 


Mas nos corredores que atravesso, no dia a dia, não há estrelas nem lua caminhante, companheira de solidão.

Apenas a monotonia agonizante me espera...


Não sei como encarar mais um ano de desencanto, de 'prisão' de ideais e de actos soltos do meu ser feito de paixões pelo que faço !


A noite vai descer... a cidade dorme.



Miosótis (pseudónimo)

fragmentos da noite com flores

4.09.2006


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Sunday, September 03, 2006

Músicas e vozes





Thom Yorke | 4e Festival Rock en Seine 2006 
Fotografia: Stephane de Sakutin/APF
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Há grupos alternative pop-rock que têm lugar cativo em meus afectos musicais.

Posso citar The Verve, Skunk Anansie, Portishead, James, Radiohead. Quase todos dos anos 90 mas que em curto lapso de tempo se decompuseram.


Que terá levado carreiras tão promissoras, em plena ascensão, grandes sucessos, a um tempo de ruptura prematuro?

Modernidade? Parca estrutura de grupo? Sucesso desequilibrante? Individualismo?


Se pensarmos em bandas como os Stones ou os U2 (anos 80) que continuam a tocar juntos há dezenas de anos, é no mínimo um fenómeno curioso.

Enfim, tudo não passa de extrapolação, mas imbuída de muita nostalgia pelo  desaparecimento de grupos extraordinários.


Facto concreto. Todos os vocalistas, precisamente o elemento que mais notoriedade tímbrica deu aos grupos, tentam uma carreira a solo. Fácil de entender.



Richard Ashcroft

É o caso de Richard Ashcroft, Skin, Beth Gibbons, Tim Booth e Thom Yorke.

Fico sempre na expectativa, quando sei que publicam trabalhos. Mas longe da sua intertextualidade musical, dificultam o despertar das emoções a eles ligadas. Perde-se a mística.


Todos estes grupos fazem sem dúvida parte do meu imaginário afectivo musical. Todas estas vozes, contextualizadas na sua génese, tocam profundamente em minha sensibilidade.

O sentimento continua fiel, mas serenamente virado para os temas originais, em grupo.
Thom Yorke publicou há pouco um álbum e esteve presente no 4e Festival Rock en Seine 2006.

Será que conseguiu trazer de volta tempos de músicas e afectos, momentos intensos, plenos de criatividade? Não sei...

É natural que encante os novos fãs pela fama que o cerca. Mas os fãs que o acompanharam nos anos de notoriedade dos
Radiohead... duvido!

A imortalidade de temas como Plastic Tree, Creep, com versões unplugged particularmente felizes continuam a soar, para sempre como Radiohead.



"Como é estranho gostarem de nós assim."

Pedro Paixão, Boa Noite,
Edições Cotovia, 1993

(ano de publicação do 1º trabalho de Radiohead Pablo Honey do qual faz parte o meu tema favorito, Creep)

Miosótis (pseudónimo)

fragmento da noite com flores

3.09.2006

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